Pratos de sopa

quinta-feira, junho 13, 2019 · 0 comentários


Foi uma fase. Eu iniciava confessando dificuldade para escrever. Advertiram-me que eu estava repetitivo. Acatei. Daí, guardei para mim os obstáculos para lançar palavras ao papel ou à tela de um computador. Os smartphones não haviam chegado ainda. 

Hoje uso mais o pequeno teclado do celular. Assim, posso escrever em qualquer lugar que seja permitido permanecer com o aparelho ligado. Uso a função "rascunho" do meu e-mail particular. Trabalho em off.

Em outros tempos fazia confissões das emoções. Hoje isso é raro. Opto por narrar minhas andanças. Fatos. E poucas aventuras. Quase nada.

Tenho lido. E não nego: o celular me afastou dos livros. Não completamente. Mas a intensidade com que folheio páginas de papel diminuiu bastante. Mas eu tento.

Cervantes e Pessoa são os autores os quais estou lendo. Dois gênios da literatura. Espanha e Portugal.

Os fatos vão se dando. Boa parte é esquecida. Não sei quais são os critérios da nossa memória. E esquecer muitas vezes é uma forma de defesa. 

Regresso. Vou para casa. Cansado, certo desânimo me domina. De certo, sigo decepcionado. Com tudo. Sobretudo, comigo. É fase? Melhor que seja.

Lembranças. Aquela noite. Eu, em terreno que me desagradava. Música alta e corpos dançantes. Eu, sentado. Se levantei, foi para buscar outra garrafa de água. Ou para ir embora e sumir daquele local. Não foi uma boa escolha aquela casa noturna em Moema.

Nilton Beato me acompanhava. Éramos dois caçadores, ainda que na intenção. Faltavam em nós talento e ingredientes. O fracasso era o mais provável.

Quatro mulheres sentaram-se a uma mesa próxima. Dentre elas, uma se destacava. Falo de beleza. Todavia, sua postura nos fez receosos. Ou teria sido sua sensualidade e beleza que nos retraíra? 

Ela olhou como quem buscava olhares. Eu optara por ignorá-la para mais tarde render-me ao seu belo par de pernas. Ela não deixou por menos: fez de mim alguém inexistente.

Beato trocou sorriso com a mulher em questão. Assustado, declinou do flerte. E indicou preferência por uma outra que denotava mais amadurecimento. Coube a mim fazê-lo se aproximar dela.

Quinze mil reais. Foi o empréstimo que a loira madura fez ao Beato. Passava por severas dificuldades, alegando pressão de agiotas. Tal pedido seu talvez tenha sido no terceiro encontro do casal. E foi o último. A mulher ainda lhe mandou mensagens. Queria entender o afastamento do seu pretendente a credor.

A vida é dura, como disse o personagem principal no filme "Cheiro do ralo". Se vale à pena é outra questão. Cansa às vezes, não dá para negar. Na sequência de dias, as circunstâncias fazem de nós meros personagens. Quase sempre medíocres.

Havia não muitos dias, eu estava solteiro. Eu fora ao apartamento de um ex-professor, hoje um amigo. Ali, no Baixo Augusta. Região fantástica. Luís Eduardo Nogueira é um privilegiado em morar no local citado. Fui lá para conversarmos sobre um projeto. 

Um casal de amigos também o visitava. Eu, solteiro, autoestima boa, fiquei de olho na moça, embora ela não tivesse chamado tanto a minha atenção.

Entre boa conversa e música, anotei o telefone dela. Sedução e convites ficariam para outros dias.

Saímos duas vezes, e não fomos além de beijos. Traumatizada por uma separação temperada com os ingredientes de sempre, era eu o primeiro que ela se interessava. 

Pratos de sopa não foram servidos. Naquela noite o frio intenso nos fez declinar do encontro. Nos sábados seguintes compromissos fizeram com que adiássemos as sopas, que seriam servidas no Varanda Copan. 

Preciso conversar com você, disse-me a moça. A experiência já deixava bem claro do que se tratava. Você vai entender, completou. Voltaria para ex-namorado, que lhe pedira uma segunda chance. Deixou claro que não haveria mais chances.

Pediu-me conselho após alguns dias passados. Estava em dúvida. Fui sincero e sugeri que o seu ex se reaproximara levado pelo ego. De certo, saber que ela saia com outro homem não lhe era fácil.

Não foi nossa última conversa. Houve uma outra com intenções de marcar um encontro entre casais. Ela levaria uma amiga para conhecer o Beato dos parágrafos anteriores. O amigo ficou entusiasmado. Para depois saber do silêncio da moça das sopas. 

Os dias seguem. Não sei se voltarei a falar com ela. Sigo tranquilo. O que se passa de fato, ignoro. Talvez ela tenha reatado com ex e se sente envergonhada de falar comigo. Ou pode ter sido proibida de manter contato. Melhor que não seja algo mais grave. Por enquanto, não há notícias dela.


A vida de solteiro é errante. Eu, homem comum, não sou servido de grandes aventuras. Tento, ao modo meu, regrar com glamour os dias que o trabalho me oferta descanso. Mas a grana é curta e o estado emocional nem sempre me favorece. E ultimamente a letargia tem me escravizado. Tem sido dias difíceis. Se são circunstâncias, melhor assim.

Ontem foi quando iniciei este texto. O fiz num vagão de trem do Metrô de Sampa. Não havia um frio exagerado. O último trecho até a minha casa foi realizado de ônibus. Assim que cheguei, fui direto para a cozinha como de costume. Sobre o fogão, visualizei uma panela. E desejei que fosse uma sopa. E assim finalizei meu dia. Um prato de sopa foi servido. 



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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