Dois textos

segunda-feira, abril 22, 2019 · 0 comentários

PERSONAGENS DE SAMPA

Bar Estadão. Quase meia-noite. A casa não está tão cheia. O feriado mandou muita gente para as estradas. Mas há movimento, e  ritmo  segue frenético.

Aricleiton me chama pelo mesmo apelido. E brinca com o outro garçom, o Bahia. Pede que este tire uma selfie comigo, inventando que sou famoso.

O bar aqui é conhecido pelo lanche de pernil, que realmente é delicioso e bem servido. Pessoas fazem refeição completa em porções generosas, senão exageradas. E tudo isso altas horas da noite.

Pereira, vai chegar mais um aí! É o que grita Aricleiton, que aqui no Estadão é tido como Pará. O apelido não o agrada.

Sai um pernil e porção de batata! Filet mignon com calabreza e ovo! Saem sucos. Pedem-se cervejas. Refrigerantes aos montes. Lanches diversos. A coxa-creme é bem servida. Tem farofa, pimenta, maionese...

Os pratos são diversos. O cardápio é variado. O tempero é bom. No balcão, garçom serve, lava louças, organiza pratos e talheres, entre anúncios de pedidos à cozinha. O atendimento é regado de bom humor.

Não há wifi. Não há ar-condicionado. Todas as portas permanecem abertas. E a conexão com a rua é imediata. As pessoas comem sentadas aos balcões. Em muitos casos há os que comem em pé. Tem momentos que lota, dificultando a circulação.

Hoje, eu não comi o lanche de pernil. Apenas tomei um café cortesia.  Ocorre que, eu estive em outro bar aqui perto. O "Chega Mais Espetos". Lá tem wifi e às vezes tem amigos.

De qualquer forma, o Estadão tem mais tempero, mais vida. O rodízio de clientes é maior. Por se tratar de um ponto turístico da cidade, muitos estrangeiros passam por aqui.

Aricleiton, o Pará, contou-me que após às 4h as garotas de programa encostam. Muita gente oriunda das baladas finaliza a noite no Estadão. Aqui comem antes da partida poética de regresso ao lar.

Volto ao "Chega Mais...". Mas apenas em palavras, pois permaneço a um dos balcões do Estadão. Bebo a água que está em minha garrafa que trouxe de casa. Claro que a água já acabou várias vezes, ao que me servi das torneiras dos locais aqui citados.

Lá no "Chega Mais..." o morador de rua abordou-me. O pedaço de pizza não lhe foi suficiente. Quis também pão e manteiga, que pedi para completar com um café com leite. Na sequência, pedi-lhe que sentasse à mesa, que fora deixada por um  amigo e uma de suas amantes.

Ricardo sentou-se com o cuidado de quem teme o dono do bar. Trazia boa aparência e certo cuidado com a higiene. Fui direto. Anunciei que o entrevistaria, mesmo que rapidamente. Gravamos dois videos, onde ele disse o que bem quis dentro do que já havíamos conversados.

Os videos vão para um canal do Youtube, que criei recentemente: SAMPA QSE TD.

Ele pediu-me que anotasse num papel o nome do canal. Também passei-lhe meu celular. Pedi-lhe que entrasse em contato comigo quando se estabelecesse em Bauru. Ricardo está esperando seus documentos serem expedidos para partir rumo aos avós.

Aos oito anos conheceu as ruas de Sampa. Fugia dos espancamentos dos pais alcoólatras. Conheceu as drogas e as desventuras das ruas. Na antiga Febem conheceu sua primeira reclusão. O trigésimo oitavo distrito foi onde puxou sua primeira cadeia. Chegou ao limite quando passou um mês no Carandiru.
Eu só fazia loucuras quando estava virado nas drogas, confessou-me. Em momento algum assumiu decisão própria. "Eu ia no embalo".

Insisti na pergunta se a cadeia era mais maldade que a rua. Confirmou que sim. Revelou que o Carandiru era assustador. "Paredes manchadas de sangue". Morte e violência. "Uma vez cismaram que o juiz roubava". Esqueceram a bola e enfiaram facas no "ladrão", que não teve perdão. Foi seu último "roubo".
Um caboclo tinha um colar de orelhas no pescoço, disse-me com indignação.

E conversamos. E a oportunidade tinha que ser aproveitada por ambos. Eu extraia informação. Ricardo pedia. Tentou 1L de pinga, ao que neguei. Ele não confiou na minha falta de grana. Vinte reais eram muito para mim. Abri o jogo e contei-lhe que pagava dois empréstimos, sem citar valores. Foi quando ele deixou de rir das minhas confissões de um homem duro, sem grana.

A certa hora, reclamei de seus pedidos. Mesmo assim atendi ao último deles: um isqueiro. Queria ter com que acionar seus cigarros por aí. 

Dá para lidar com o preconceito? Respondeu-me que não. "Fere na alma". O gerente da casa pediu que Ricardo partisse. Avisei que se tratava de um amigo, pedindo que o deixasse ficar. Foi quando entramos no quesito da minha pergunta.

"A estação Sé do Metrô está repleta de moradores de rua. Não estão cuidando do Metrô". Corrigi: não estão cuidando das pessoas. Silêncio e certo constrangimento. Eu estava em família. Minha irmã fizera tal afirmação em mais uma dose sua de reacionarismo.
Ricardo também se indignou com tanto descaso pelo ser humano.

"Deus existe, mas não dependo dele, respondeu-me. Questionei por que Deus não muda o que há de ruim no mundo. Ele não quer... Acho que é o tal do livre-arbítrio, divagou meu vacilante. Disse-lhe que a ideia de Deus não permite livre-arbítrio, conforme uma explicação do Prof. Luís Eduardo Nogueira, um pensador e colega de mesa.

A presença de outro ser humano para mim tem prazo de validade. Logo me vem o desejo por solidão. Sempre foi assim com as namoradas. Não seria diferente com outras pessoas. Desejei que Ricardo partisse. O bar lhe ofertara um marmitex. A pinga chegamos num acordo, o bar forneceu um copo quase cheio, que foi colocado na garrafa de água que eu comprara e esvaziara.

Dirigi-me ao caixa. Pedi outro café cortesia. Paguei e depois do banheiro despedi-me dos garçons. Ricardo, educadamente me aguardava lá fora. Queria despedir-se e agradecer-me. Fiz o mesmo. E parti em direção ao Estadão. E aqui permaneço. E se não escrevo o parágrafo seguinte, é pois que parto.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
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Alan Davis



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