Um brinde à precariedade

sábado, fevereiro 16, 2019 · 0 comentários

Hoje caminhei pela Parada Inglesa. Numa das ruas, vi casinhas pequenas e simples. Construções de uma época que ignoro. Casas térreas com portões baixos. Vaga apertada para um carro.

Sou apaixonado por essas casas. Mas não se trata de um sonho de consumo. É puro apreço.

Também gosto de prédios antigos. O centro de São Paulo tem muitos. São belíssimos. Sempre que tenho o privilégio de caminhar pelas ruas centrais, admiro essas construções com entusiasmo.

Caminhar é observar. E as arquiteturas das construções são o que há de interessante. E o faço com critério: construções atuais eu  as desprezo, sobretudo as mais luxuosas. A simplicidade é poética.

Uma ex-cunhada disse-me que em breve eu estaria com um desses carros que a classe média foi adestrada a gostar. São as chamadas SUV, cujo conforto é inegável. O comentário se deu enquanto eu fechava a porta do meu pequeno Ford Ka 2002. 

Não é fácil conviver com a classe média. O apego às conquistas materiais é deprimente. O vazio e baixo nível filosófico faz com que eu me aborreça. Vejo essas pessoas como personagens de um desenho animado do capitalismo. Elas foram programadas para repetir comportamentos e consumir. A principal estratégia é mantê-las insatisfeitas.

Não há obra maior que um ser humano possa fazer que não seja se auto-conhecer. Todo o resto é muleta. Falo isso porque sei como é viver errante, assustado, angustiado e triste. Sobretudo quando se tenta ser igual aos outros. Sem autenticidade o indivíduo não existe.

Os últimos dois anos foram os mais importantes para mim. Convivi com a bela Mari. E, vacilante, tentei adentrar ao corredor que dá acesso ao lugar comum. Se menti, foi para mim mesmo. A depressão me visitou. Desregulado, virei uma barata. Perdido, elaborei planos que jamais quis colocar em prática. Mari, sagaz, percebeu tudo, sem jamais me revelar. 

A classe média ensina que é preciso vencer. Na verdade, ela replica o que os profissionais de marketing determinam. A classe média não tem opinião. Nem para comprar. Essas pessoas medianas são repetidoras de comportamento. De fato, são desinteressantes.

Perdoem-me, mas essa vida de casar, ter filhos e adquirir não me serve. Bom, nem todos somos bobos. Essa vida não serve para boa parte dessas pessoas que levam essa vida. Os mercados paralelos agradecem. A indústria de remédio também. Os amantes, idem. 

Com tudo dito, não afirmo que estou do outro lado do balcão. Moro em bairro de classe média em um imóvel de bom padrão. Tenho plano de saúde, seguros, empréstimos, investimentos e dívidas. Fora meu emprego e meu carro.

Enfim, estamos todos sob tutela de um sistema capitalista. Não há liberdade de fato. E ninguém está do outro lado do balcão.

Hoje vou à casa do meu irmão Adalton. Intelectual, esse mundo o aborrece. E embora seja um pai de família de classe média, não é um sujeito comum. Pelo contrário, é altamente crítico e consciente.  E ele não está só. 

Lá, encontrarei meu outro irmão, a quem Mari não teve a satisfação de conhecer. Adalmir é um sujeito fora da curva, e que também se aborrece com esse mundo.

Mas será que só os idiotas estão felizes? Não sei. Mas só eles fazem arminha com as mãos. Mas isso já é outro assunto. Neste caso, extremamente pantanoso. 

Sou muito parecido com estes dois irmãos em questões existenciais. Nossas diferenças é que nos fazem autênticos. Nos vemos vez em quando. Precisamos da distância. Os três, amantes da solidão.

Do encontro com os irmãos, devo ir rumo à região central. Já faz tempo ensaio uma visita ao bar e restaurante Al Janiah. Local palestino com atividades culturais. Muito mais interessante do que ir à Vila Madalena. Falo por mim.

O lugar incomum é mais interessante. O incerto. O improvável. O contrário disso deixemos para os idiotas.

Não me demorei no Al Janiah. Duas garrafas de água foram o que consumi. Parti e levei comigo a beleza da garçonete cubana.

Os dias se passaram. Parte da minha segurança desmoronou. Vi as dificuldades voltarem. E então me retraí. Reservei-me à solidão mesmo em público. 

Hoje, sábado, não sei ao certo o meu rumo após o trabalho. Há uma intenção de ir ao Bar do Estadão, mas a verba é curta e o tanque está na reserva. Não quero usar meu crédito. Tenho doze reais na conta, que são o suficiente para guiar da Vila Mariana ao Tucuruvi. 

Creio que hoje eu queira a reclusão. Tenho até uma leitura tramada: Fernando Pessoa, "Livro do desassossego". As poesias dele, hoje as sorvi. "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Curioso, a precariedade é inovadora. Já, o luxo, exagerado, sem graça e egoísta. Lamento, mas desejar ser tratado como semideus tem uma dose de patologia. Fora isso, luxo e corrupção andam lado a lado. A conta quem paga é o precário.

Meu carro é precário. Sem AR, ABS ou vidros elétricos. Tem alguns problemas que sigo esperando ter grana pra mandar consertar. O estepe foi roubado e o óleo já passou da hora de trocar. 

Mari, minha ex-namorada, reclamava do meu salário. Recordo-me do dia em que utilizamos um ônibus. Sua cara não era das melhores. Creio que naquela noite ela se aborreceu. Talvez tenha sentido um desejo de partir, como eu algumas vezes havia sentido. 

Uma conhecida mencionou o Novo. Um partido político feito por gente normal, disse-me ela. Respondi que prefiro os anormais. Lugar comum não me serve. Viver tem que ser ato revolucionário.

Sim, estou cansado dessa gente branca alienada. Que em festas da empresa não estranha que não haja negros representando a diretoria. Daquela menina bonita que  disse amar o capitalismo. De ver só crianças brancas saindo daquela escola particular. Quanta gente alienada. 

Hoje é sábado. Trabalho até às 17h. Daqui, devo ir direto para casa. Esse frio combina com quarto e cama. A alma pede cultura. Leitura. Cinema. Música. Uma sopa ia bem, mas não será o caso. Não quero cocinar. Vinho e chocolate seriam bem vindos. Quem sabe eu vá ao supermercado Sonda na avenida Maria Amália, não muito longe de casa. Comprar sem pressa, agraciado pela organização e limpeza da loja. No caixa, ser atendido por uma das belas funcionárias que executam a tarefa de receber pelos produtos comprados. E lamentar que nenhuma delas seja negra. Lamentar mais ainda por tudo parecer normal, sem de fato estar. 



Despedida

sexta-feira, fevereiro 08, 2019 · 0 comentários

Uma frente fria atravessa a cidade depois de dias seguidos de intenso calor. Mesmo assim não visto uma blusa ou jaqueta que me faça não sentir tanto frio. Mas creio que exagero, a temperatura não está tão baixa assim. 

Considero as pessoas solitárias mais interessantes. Viver só de forma mais livre me atrai muito mais. Já li que a solidão é motivo de um alto número de óbitos. Mas isso só assusta quem não aceita a morte. 

Apesar da referência à solidão, não vivo só, pois moro com a minha mãe. E não é que eu seja um solteiro encalhado. Em verdade, oficialmente ainda não sou solteiro. Eu e Mari pedimos um tempo um ao outro. Mas  isso é um modo elegante de rompimento.

Sempre tive aversão ao casamento. Instituição que ceifa a felicidade de muitos. Uma prisão patética e melancólica. Se há casais felizes, eles são poucos. 

Depois de algumas experiências, chego à conclusão que relacionamentos são formas de colonizar o outro. De modo que, opto por viver só com escassas aventuras.

Mas Mari é sem dúvida um ser humano fora da curva em alguns sentidos. Uma mulher com uma integridade inquestionável. Bela, ela passeia sua pele morena sem perceber o quanto é desejada. Deixo que ela parta e seja feliz...

O ar-condicionado do vagão do trem me castiga com a baixa temperatura. Sigo rumo à estação donde meu carro está próximo. Passarei em frente à padaria de tantos cafés. Mas quase não adentro mais ao local. 

Diminui a oferta do meu dinheiro por xícaras e copos de café. Tenho sido mais controlado. Talvez porque eu estivesse namorando. Não sei ao certo. Tal dúvida deverá ser sanada no decorrer dos dias.

Uma colega de trabalho de uma das empresas em que trabalhei dizia que eu era um galinha enrustido. Na época eu namorava sua melhor amiga. Ela dizia isso confrontando minha prática de fidelidade às namoradas. 

Jamais esqueci a afirmação. E sempre desconfiei que minha colega estivesse certa. 

Mas por que não traía? Moralismo? Pretensa honestidade? Nunca soube. 

Hoje tenho 46 anos. Jamais quis filhos. E não poderia tê-los ainda que desejasse. Felizmente. Casar, nunca desejei. E agora, nem mesmo ter relacionamentos eu desejo. Vínculos amorosos não me atraem. Prefiro ficar livre. 

Prossigo este texto em uma outra noite. Esta de hoje, uma quinta-feira. O frio amenizou. Já faz algumas horas que estou oficialmente solteiro. Eu e Mari terminamos definitivamente. 

Claro que um rompimento amoroso traz alguma tensão e melancolia. Mas não foi do modo como eu imaginava, como já foi outras vezes. Conversamos de forma breve e polida. Maria é muito delicada e educada. 

Na sequência fui almoçar com meu amigo de sempre, Alan Davis. Contei-lhe o fato. Alan é uma pessoa para quem confesso parte de minha vida. 

Agora, solteiro novamente. Livre, como costumo dizer. Um colega de trabalho disse que há pouco que tenho sorte. Ele é casado e tem por ofício trair a mulher. É um tipo garanhão que cometeu a insensatez de casar. Vive a angústia de não poder partir. 

Machado de Assis escreveu que fecha uma janela, abre outra. Após o fim desse relacionamento vejo possibilidades em minha vida. Quem sabe até sair do país, já que trabalho em uma multinacional. 

A vida é uma coleção de experiências e a vivemos de forma circunstancial. Hoje sinto-me mais confiante. Não posso negar que desejava ficar só. Faço um brinde à solidão. Para mim, o maior dos tesouros é a paz interior. Mas, humanos, somos inconstantes. De toda forma, vale citar Nelson Rodrigues: "A vida é como ela é"



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


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