Bom dia. Boa tarde.

terça-feira, setembro 10, 2019 · 0 comentários

Ao entrar àquele Café de outras vezes saudei as atendentes com o título deste texto. Elas brincaram com a minha saudação. Revelei que acordara tarde e olhei nos olhos de uma delas, buscando desconfianças...

O Café fica no shopping Tucuruvi, tão desagradável quanto os demais shoppings pela cidade. Tomava meu café antes de ir para a academia, que fica no centro comercial citado. Eu observava as mulheres que passavam. Autoestima e libido em alta.

Noite de quinta-feira. Buscava flertes nos apps de relacionamentos. Os poucos que haviam não me convenciam. Precisava de uma solução mais prática.

Normalmente prefiro os táxis tradicionais. Não gosto de esperar motoristas de aplicativos. Mas era tarde e optei por um preço mais barato. O carro passou direto. Não me viu saindo pelo portão. Ainda andei em direção ao carro, que se afastava cada vez mais. Fui em outro veículo.  O motorista, feito a mim, não queria papo. 

Eu marcara às 23h40min. E gosto de pontualidade. Não foi dessa vez que falhei. O local era um flat-hotel. Sayuri, por favor. Hóspede? perguntou o recepcionista. Respondi que sim, já que foi a primeira resposta que me ocorreu. No fim, necessitava do número do apartamento. Aguarde em frente ao elevador,  ela virá buscá-lo, orientou-me o jovem rapaz da recepção.

Foram dez minutos de espera e ansiedade. Tudo me era novidade. Sentia-me exposto, embora calculasse que tal situação fosse corriqueira por ali. Até que ela chegou, e no elevador mesmo me beijou. O combinado mudou. Não fiquei apenas 1h. Dormi no local. Noite de sexo, conversas e risadas. Sayuri se mostrou encantadora e cheia de carisma.

A parte burocrática se deu madrugada adentro. Entre taças de vinho e sorrisos, nunca conversei tanto com uma mulher. Acho que também nunca elogiei tanto uma mulher.

De fato, Sayuri é muito bela. Comunicativa, usa seu carisma para conquistar. Sua estratégia é fidelizar o cliente. E faz isso sendo carinhosa e desejosa. Traz consigo a simplicidade de suas origens humildes. Revela alguns conflitos do passado. E diz sobre seu projeto de comprar uma casa.

Saí do flat às 13h da sexta-feira após meu terceiro banho no local. Era dia de trabalho e eu pouco dormira. Raramente quebro meus protocolos. A aventura valeu à pena. O preço pago foi resultado da carência.

Tudo que eu mais queria é que aquela sexta-feira terminasse. O frio intenso aumentava esse desejo. Troquei mensagens com Sayuri. Dediquei-lhe palavras carinhosas. Se voltarei a vê-la, não sei dizer. Deixemos para depois essa burocracia do tempo.

Retorno do trabalho neste primeiro dia da semana rotulado de útil. Se lá fora faz um calor saudoso, aqui dentro o frio é intenso. O vagão está cheio. Um sujeito de cara amarrada senta-se no chão. Será aborrecimento ou bebida? Ou será outra coisa? Ou nada?

Hoje cortei o cabelo e o resultado foi deplorável. O que me favorece é que já não me prendo à aparência como quando era jovem. É fato que os anos levaram grande parte do que eu considerava belo em minha feição. Passam-se os anos e os cabelos se escasseiam. Parte da maturidade advinda trouxe-me o desprendimento que traz segurança.

Os elogios de Sayuri me agradaram. Tivesse ela sido exagerada, cairia eu em desconfiança. O último dia que nos falamos foi no sábado seguinte àquela noite fria de quinta-feira.

Talvez eu queira revê-la. Recordo-me de alguns pedidos seus. Presentes, passeios e até cartas. Eu revelara à ela meu passado romântico, que se dissipou nas inúmeras cartas de amor que escrevi para diferentes mulheres. Prometi-lhe nada além de uma carta de admiração, o que agora me parece um blefe. 

Amigas e minha ex-namorada indagam-me por que nunca tenho dinheiro. Não, esse texto não é uma revelação. Se me endividei foi pois que caí nas armadilhas do sistema financeiro. Hoje não tenho mais cheque-especial, aperitivo que custa caro. Cartões de crédito estão em dia. Restam dois empréstimos a serem quitados em vinte e quatro meses, onde algumas parcelas já foram pagas. Meu nome segue limpo como sempre. Poucas vezes fui negativado. Minha nota de crédito é boa.

Sem vícios, o que me levou às dívidas foram meus desmandos nas finanças pessoais. Basicamente: gastar mais do que eu ganhava. O problema jamais foi ganhar pouco.

Vendi meu carro há cinco meses. Falta uma parcela. Dentre inúmeros prejuízos, nada se compara à compra do carro, cujo financiamento custou-me parte do meu FGTS inativo, sem o qual não teria conseguido quitar o financiamento. Juros à flôr da pele. Arrancaram-me o couro.

Hoje passo em frente à uma mecânica e me alivio. Já não deixo parte do meu salário para os mecânicos. O mesmo sinto em relação aos postos de combustíveis, cujos gastos com gasolina eram semanais.

Dei esse conselho à Sayuri: não comprar um carro. Indiquei-lhe adquirir dois imóveis e ganhar com locação. Ela recebeu com desesperança tal indicação. Sua carência e a preocupação com o futuro eram detalhes que não me escapavam. 

Mas o que marcou foi uma revelação quanto à solidão que elas vivem. "Ganhamos dinheiro, mas não temos vida social". A carência dói nelas. "A vida é dura". Pensemos: elas têm clientes e poucos amigos. O grau de desconfiança delas é grande. No fim, nós clientes somos os vilões e ainda deixamos nosso dinheiro. Mas nem sempre é assim.

Sayuri não me contou muitas histórias porque não as pedi. Mas houve alguns tira-gostos. Um que chorou o término com a namorada. Outro que perdeu a virgindade aos 40. E até aquele hóspede do hotel que desceu para passar uma camisa e teve cinco minutos com Sayuri. 

Hoje, madrugada de terça-feira. Há pouco e conversava com Sayuri por meio de  mensagens instantâneas. Prometi retornar no início de outubro. Ela cobrou-me um poema. Os problemas são que não me recordava da promessa e não sou poeta. De forma que, criei uma dívida impagável. Se serve esta crônica, muito bem. 

A esta hora, duas da manhã, como me despedir do leitor? Seria boa noite, bom dia? Não sei. Não importa. Apenas me despeço por agora. 



Suspeitos de amarelo

sexta-feira, julho 05, 2019 · 0 comentários




Catraca da estação Jd. S. Paulo. Metrô. Casal branco de camiseta da "selecinha" brasileira. O homem branco disse algo sobre o Moro para a metroviária, que optou pelo silêncio e simpatia no rosto. Deve ser petista, disse o homem branco de amarelo. E completou: "Pela cara...". Sua esposa nada respondeu, acompanhando-o como provavelmente sempre faz.

Ele olhou-me.  Mantive a cabeça erguida com os olhos adiante. O casal de branco e de amarelo desceu uma escada. Eu desci outra.

Desavisado, calculei que haveria manifestação pró-Moro. Foi quando passei a suspeitar de todos que estivessem de amarelo, mesmo que não fosse a camiseta canarinho. E aqui vale uma ironia: o atual ministro do meio ambiente mataria facilmente um canário, sobretudo se estivesse em extinção. Seu patrão diria que matar tal passarinho é bom. Quando seus eleitores concordariam fazendo sinal de arma com as mãos. 

Dito isto, eu também me tornara um suspeito. Ocorre que eu também vestia amarelo, para meu desassossego. E mesmo que a minha camiseta trouxesse um grito contra o fascismo, a cor prevalecia. Aos olhos alheios, eu era um defensor de pessoas que atentam contra a democracia.

No domingo em questão, eu saíra para almoçar. Optara pelo Sesc Pinheiros, cuja linha do metrô que me levava era a Amarela. O dia se tornara uma grande ironia.

Sesc Pinheiros. Fila para acessar à comedoria. Fiquei ali uns 30 minutos exposto. 

Ziborgi. Professor universitário conhecido meu. Olhou-me de forma estranha. Pensei ser em função do amarelo. Apertos de mão, e eu sentindo-me julgado de forma injusta. Logo eu, um sujeito progressista e democrático. Conformei-me: haveria oportunidades de esclarecimento. Enfim, eu era suspeito. A cor usada me condenava. 

Após o almoço, não me furtei de uma taça de vinho tinto. Duas xícaras de café completaram meus gastos. Houve ainda um brigadeiro com amendoim. 

Ao partir, optei pelo ônibus como meio de transporte. O belo veículo me levaria ao bairro em que habito. Mas resolvi errar: desci na região da Paulista, justamente onde teria se dado a manifestação. De toda forma, vi um resto de gente vestida de amarelo. Quase ninguém.

Durante o regresso, concluí que seria possível agradar progressistas e conservadores. Os primeiros com os dizeres da minha camiseta contra o fascismo. Os demais com a cor. 

Mas não nego que desagradar conservadores causava-me algum prazer. Não sei se algum deles notou. E se notou, não faço ideia se entendeu. É provável que não.


O dia hoje é outro, e o amarelo prossegue. O fato é que me matriculei em uma academia, cuja cor de destaque é o amarelo, embora o preto prevaleça. A simpática atendente disse-me, após os procedimentos de sempre para quem se matricula, que a professora estaria de amarelo. No decorrer dos treinos, duas ou três pessoas de amarelo entraram em meu campo de visão, o que me fazia confundi-los com professores. Até que decifrei o ambiente e deixei de me confundir.

Outro dia, quando teremos jogo da "selecinha" brasileira. As desconfianças se seguem. Aqueles que hoje vestem a camiseta canarinho, eu não consigo vê-los como torcedores. O fato é que tal camiseta foi deturpada. Politizaram o uniforme e geraram antipatia por parte de pessoas progressistas. Cito-me como exemplo. 

Somado ao citado acima, tem-se o vexame do sete a um, quando fomos humilhados. Ironicamente, aqueles que furtaram as cores do Brasil para expressar nacionalismo, são os mesmos que flertam com regime sanguinário que se deu no país que enfiou sete gols nas redes brasileiras.

São vinte uma horas e nove minutos. A próxima estação é a Carandiru. Desembarco no Tucuruvi e lá embarco em um táxi. Às 21h30min tem Brasil contra a Argentina. E vai ser no mesmo palco do 7 a 1. E, por mais estragos que os fanáticos fizeram à camiseta amarela que hoje entra em campo, não tem como perder o maior clássico do planeta.  

Eu calculara que terminaria o texto no parágrafo anterior. Mas não o fiz, conforme planejado. O Brasil se classificou para a final. E hoje li num site de notícias que o presidente Bolsonaro irá ao estádio ver o jogo. Quando então, como se fora um candidato, jogará para a plateia e fará seu sinalzinho de arma. Entre vaias e aplausos, alimentará seu ego. Muitos que o aplaudirão estarão vestindo a cor aqui mencionada. No dia deste jogo as ruas estarão repletas de suspeitos de amarelo. Ninguém mais olha para o amarelo indiferente. O Brasil mudou, descendo para o subterrâneo das ideias. E o futuro está com uma cara nada boa, meio amarelada...







Pratos de sopa

quinta-feira, junho 13, 2019 · 0 comentários


Foi uma fase. Eu iniciava confessando dificuldade para escrever. Advertiram-me que eu estava repetitivo. Acatei. Daí, guardei para mim os obstáculos para lançar palavras ao papel ou à tela de um computador. Os smartphones não haviam chegado ainda. 

Hoje uso mais o pequeno teclado do celular. Assim, posso escrever em qualquer lugar que seja permitido permanecer com o aparelho ligado. Uso a função "rascunho" do meu e-mail particular. Trabalho em off.

Em outros tempos fazia confissões das emoções. Hoje isso é raro. Opto por narrar minhas andanças. Fatos. E poucas aventuras. Quase nada.

Tenho lido. E não nego: o celular me afastou dos livros. Não completamente. Mas a intensidade com que folheio páginas de papel diminuiu bastante. Mas eu tento.

Cervantes e Pessoa são os autores os quais estou lendo. Dois gênios da literatura. Espanha e Portugal.

Os fatos vão se dando. Boa parte é esquecida. Não sei quais são os critérios da nossa memória. E esquecer muitas vezes é uma forma de defesa. 

Regresso. Vou para casa. Cansado, certo desânimo me domina. De certo, sigo decepcionado. Com tudo. Sobretudo, comigo. É fase? Melhor que seja.

Lembranças. Aquela noite. Eu, em terreno que me desagradava. Música alta e corpos dançantes. Eu, sentado. Se levantei, foi para buscar outra garrafa de água. Ou para ir embora e sumir daquele local. Não foi uma boa escolha aquela casa noturna em Moema.

Nilton Beato me acompanhava. Éramos dois caçadores, ainda que na intenção. Faltavam em nós talento e ingredientes. O fracasso era o mais provável.

Quatro mulheres sentaram-se a uma mesa próxima. Dentre elas, uma se destacava. Falo de beleza. Todavia, sua postura nos fez receosos. Ou teria sido sua sensualidade e beleza que nos retraíra? 

Ela olhou como quem buscava olhares. Eu optara por ignorá-la para mais tarde render-me ao seu belo par de pernas. Ela não deixou por menos: fez de mim alguém inexistente.

Beato trocou sorriso com a mulher em questão. Assustado, declinou do flerte. E indicou preferência por uma outra que denotava mais amadurecimento. Coube a mim fazê-lo se aproximar dela.

Quinze mil reais. Foi o empréstimo que a loira madura fez ao Beato. Passava por severas dificuldades, alegando pressão de agiotas. Tal pedido seu talvez tenha sido no terceiro encontro do casal. E foi o último. A mulher ainda lhe mandou mensagens. Queria entender o afastamento do seu pretendente a credor.

A vida é dura, como disse o personagem principal no filme "Cheiro do ralo". Se vale à pena é outra questão. Cansa às vezes, não dá para negar. Na sequência de dias, as circunstâncias fazem de nós meros personagens. Quase sempre medíocres.

Havia não muitos dias, eu estava solteiro. Eu fora ao apartamento de um ex-professor, hoje um amigo. Ali, no Baixo Augusta. Região fantástica. Luís Eduardo Nogueira é um privilegiado em morar no local citado. Fui lá para conversarmos sobre um projeto. 

Um casal de amigos também o visitava. Eu, solteiro, autoestima boa, fiquei de olho na moça, embora ela não tivesse chamado tanto a minha atenção.

Entre boa conversa e música, anotei o telefone dela. Sedução e convites ficariam para outros dias.

Saímos duas vezes, e não fomos além de beijos. Traumatizada por uma separação temperada com os ingredientes de sempre, era eu o primeiro que ela se interessava. 

Pratos de sopa não foram servidos. Naquela noite o frio intenso nos fez declinar do encontro. Nos sábados seguintes compromissos fizeram com que adiássemos as sopas, que seriam servidas no Varanda Copan. 

Preciso conversar com você, disse-me a moça. A experiência já deixava bem claro do que se tratava. Você vai entender, completou. Voltaria para ex-namorado, que lhe pedira uma segunda chance. Deixou claro que não haveria mais chances.

Pediu-me conselho após alguns dias passados. Estava em dúvida. Fui sincero e sugeri que o seu ex se reaproximara levado pelo ego. De certo, saber que ela saia com outro homem não lhe era fácil.

Não foi nossa última conversa. Houve uma outra com intenções de marcar um encontro entre casais. Ela levaria uma amiga para conhecer o Beato dos parágrafos anteriores. O amigo ficou entusiasmado. Para depois saber do silêncio da moça das sopas. 

Os dias seguem. Não sei se voltarei a falar com ela. Sigo tranquilo. O que se passa de fato, ignoro. Talvez ela tenha reatado com ex e se sente envergonhada de falar comigo. Ou pode ter sido proibida de manter contato. Melhor que não seja algo mais grave. Por enquanto, não há notícias dela.


A vida de solteiro é errante. Eu, homem comum, não sou servido de grandes aventuras. Tento, ao modo meu, regrar com glamour os dias que o trabalho me oferta descanso. Mas a grana é curta e o estado emocional nem sempre me favorece. E ultimamente a letargia tem me escravizado. Tem sido dias difíceis. Se são circunstâncias, melhor assim.

Ontem foi quando iniciei este texto. O fiz num vagão de trem do Metrô de Sampa. Não havia um frio exagerado. O último trecho até a minha casa foi realizado de ônibus. Assim que cheguei, fui direto para a cozinha como de costume. Sobre o fogão, visualizei uma panela. E desejei que fosse uma sopa. E assim finalizei meu dia. Um prato de sopa foi servido. 



Não é o fato que importa

terça-feira, maio 28, 2019 · 0 comentários

De repente, palavras ditas aos berros. Meus olhos buscam o fato. Não sou o único. Desavenças alheias chamam a nossa atenção. Dois homens de preto ouvem os insultos de um terceiro. São os vigilantes do Metrô. O rapaz que é conduzido para fora da estação demonstra grave indignação, e o faz de modo agressivo, que é fruto do seu inconformismo.

Num primeiro momento, fiz a leitura de que se tratasse de um lutador de jiu-jitsu, dado o porte do rapaz. A mente é que busca decifrar o que olhos veem, ouvidos ouvem. São as informações dadas pelos sentidos. As situações podem ser as mais variadas e os sentidos podem ser outros.

Falando em alto tom, informava ser casado. Culpava um dos agentes de segurança pelo gás de cozinha que não levaria para seu filho. Colava a cara à cara do funcionário do metrô, que se mostrava um pouco tenso. Cheguei a calcular que temia a irritação excessiva do rapaz. Seu companheiro ao lado estava atento, pronto para agir como fosse necessário. Desconfiei que haveria agressão física num dado momento, tamanho o modo ameaçador como esbravejava com o agente, aquele homem de toca, camiseta, bermuda, meia e tênis.

Fez a ameaça da perseguição. "Você não vai mais ter sossego em sua vida". Passou pela catraca e teve que tolerar sorriso cínico do seu algoz. Indignado, protestou aos berros. Lembrou mais uma vez o gás de cozinha, o filho, a casa. Num ato de extremo, jogou sua mochila ao chão e chorou enquanto reclamou. Fragilizara-se. Já não era mais aquele que forjava valentia. Buscou o público numa espécie de discurso. Queria algum tipo de apoio. Fazia política e se mostrava hábil.

Ali, permaneceu encostado ao parapeito. Funcionários do Metrô o observavam atentamente. Usuários faziam o mesmo, mas com curiosidade. Alguns até parados como que assistindo a um show.
A minha leitura, eu interrompera para o fato fazia alguns minutos. Meus olhos eram frios, não nego. Rapidamente, fiz simples reflexão, enquanto retornava à leitura e vez ou outra observava o rapaz parado, indignado, olhos mareados.

Quando vi que o agente de segurança estava ao telefone, pensei que estivesse acionando a polícia. Declinei da frieza e fiz torcida para que o jovem abandonasse a estação. Mas outra vez mais minha mente errou na interpretação daquilo que lhe era transmitido pelo sentido da visão.

Um homem que puxava uma das pernas, desceu escada rolante e falou ao longe com o rapaz, que ouvia atentamente. Lá da plataforma, fez discurso. Pediu para que não fizesse nenhuma besteira, que tomasse cuidado com a "cabeça". Até que se foi , não sei se no primeiro trem que passou. O jovem expulso, ouvia e concordava, meneando a cabeça. De qualquer forma, parecia querer se livrar daquele que parecia pregar.

A reflexão que fiz foi que o fato ocorrido era o menos importante. O agente de vigilância do metrô apenas cumpriu sua obrigação ao expulsar o rapaz do trem, que vendia produto qualquer num dos vagões, o que é terminantemente proibido pelo Metrô. Neste sentido, não cabe indignação contra aquele que desempenhou seu papel, ditado pelas normas da empresa para o qual ele trabalha. O problema ali era a situação de desemprego daquele que buscava sobrevivência, cuja condição era agravada pela má ou nenhuma preparação profissional , fruto de um sistema de ensino que está entre os piores do mundo, consequência de uma sociedade tão desigual.

Prender-se ao fato, como fariam os jornais, é limitação proibida aqui. Abro espaço para fazer a crítica aos periódicos, que se limitam, muitas vezes, apenas aos fatos, sem aprofundamento reflexivo. Podem defender que isto é característica das revistas, que os jornais funcionam de modo diferente. Se assim for, o leitor terá a velocidade da internet como melhor opção. No dia seguinte, a leitura da notícia no jornal deixará de ser feita, algo que, por exemplo, já fiz diversas vezes, posto que já sabia do ocorrido, uma vez que já fora noticiado por site qualquer de notícias.

Passaram-se alguns minutos e aquele que fora reprimido pelas forças do metrô insistia ao parapeito. Decidira que retornaria ao trem para prosseguir com seu comércio. Mas o agente de plataforma estava de olho nele. Este, bem que tentou o retorno, quando burlaria outra regra que é o pagamento pelo acesso à plataforma de embarque. Mas foi impedido. Após a segunda tentativa, renunciou ao objetivo seu. Deu as costas ao funcionário vigilante e não se voltou mais, caminhando para uma das saídas daquela estação do Metrô paulistano.




Rumo ao Centro

quinta-feira, maio 23, 2019 · 0 comentários


O mundo muda porque as pessoas mudam? Ou as pessoas mudam porque o mundo muda? Enfim, eu estou mudando. Exemplos: quero mais bem-estar, mais paz. Relato a seguir.

Carro vendido. Compra futura de uma bike. Moradia no centro. Mais: esporte, cultura, entretenimento, educação e amigos. Mais turismo. Mais gastronomia.

Sigo empenhado. Nada é para já, mas desde logo empreendo meus objetivos. E tenho obstáculos a transpor. O principal deles é livrar-me das dívidas.

 O valor da venda do automóvel será usado para pagar um empréstimo e, assim, obter mais liquidez. A pé. De bike ou patinete. Ônibus. Metrô. Táxi. Um carro compartilhado às vezes. Essas são as opções de mobilidade que quero usar. Automóvel próprio nunca mais. Deixo de pagar impostos, gastar com manutenção e seguros. Contribuirei mais para o meio ambiente e o desafogamento do trânsito.

E o objetivo maior: morar no Centro de Sampa. E sozinho, por favor. Sem TV. Sem telefone fixo. Sem garagem. Poucos móveis. Iluminação e arte. Um local para dormir e pouco ficar. Aluguel a pagar. Bem-estar em primeiro lugar. 

O Centro de Sampa é um local que me fascina. Muita vida. Cultura. Diversidade. Diversão. Arte. Glamour. Tudo perto, como costumam dizer. 

Vou sempre ao Centro. Na Major Quedinho frequento o "Chega Mais Bar". Às vezes sozinho. Poucas vezes, em verdade. Quase sempre estou acompanhado de amigos. Os garçons atendem bem. O público é diversificado. A região ferve de pessoas para lá e para cá.

Hoje moro no Tucuruvi. Bairro da zona norte. Região de muitos morros. O Metrô serve bem a região. Tem comércio. 

A rua em que moro é absolutamente residencial. Casas consideradas belas por quem as acham belas. Classe média com carrões e pouca cultura. Individualismo gritante. Monotonia. Famílias. Tédio. Tudo que não me serve.

Por isso, vez em sempre, vou para o Centro atrás de vida. Aqui no Tucuruvi as pessoas inexistem sem saber. Pego outros caminhos e busco existir. Essa mediocridade da classe média não me serve.

Bela Vista é meu bairro preferido. Mas os preços dos aluguéis são altos. Campos Elísios possui preços melhores. E a região também é muito agradável. Trata-se de uma opção. 

Entenda. Não estou sozinho nesse meu movimento. A busca pelo Centro vem ocorrendo faz tempo. E há estratégias dos administradores públicos, bem como dos empreendedores. Na região há emprego e infraestrutura completa. Neste sentido, a qualidade de vida é melhor.

Em frente ao Bar Estadão uma construtora ergueu um belo prédio com pequenos apartamentos, os quais possuem sacadas. Imagine morar ali e a qualquer hora atravessar a avenida e se deliciar no Estadão? Um privilégio, sem dúvida. E isto é apenas um exemplo.

Hoje é domingo e já são quase 17h. Daqui a pouco, eu e um amigo que loca um quarto na minha casa iremos à Bela Vista comer uma porção de torresmo. Sentaremos à mesa. Jogar conversa fora, enquanto observamos o fluxo de pessoas. Nosso deslocamento será feito de trem da linha Azul do Metrô. Esse mesmo amigo já me questionou provincianamente por que não optamos por um bar perto de casa. Não adiantou muito eu explicar sobre a diferença de público. De qualquer forma, o amigo em questão também é um amante do Centro. É possível que seu questionamento tenha se dado mais em função de preguiça do que de provincianismo.

Enquanto a ida ao Centro não se dá, ouço o burburinho das famílias nas casas vizinhas. Hoje não há gente cantando. Não sinto o cheiro de churrasco. Do meu quarto ouço minha mãe tossir. Deitado, descanso da semana de trabalho. O livro ao lado descansa. O calor diminuiu. A vida vai seguindo. As emoções estão boas. Tudo parece normal. Mas as coisas nunca estiveram normais. Há que se fechar os olhos para seguir.




Cenas

quarta-feira, maio 22, 2019 · 0 comentários


Pedi um café na xícara. Do coador. Serviu-me dose média da bebida solicitada. Questionado, fez a troca. Eu queria apenas uma xícara pequena, um cafezinho. Arrependi-me. Quanto açúcar! Um crime servir café adoçado! Declinei. Deixei o café de lado. O que o senhor consumiu, perguntou-me simpaticamente a moça do caixa. Atendia e falava ao celular. Vestia uniforme, a cor o leitor escolhe. Um café cheio de açúcar, respondi como quem reclamava. Por que não pediu espresso, indagou-me. Não respondi. Pouco mais de dois reais custou a minha frustração. Parti. Não volto mais, creio. 

De frente para mim o sujeito lê seu livro. Eu o conheço de uma outra padaria. Serviu-me diversas vezes com enorme gentileza e competência. Comentava que estudava pedagogia. Queria dar aulas. Faz alguns meses eu o encontrei em algum lugar. Não me recordo se comentou que já dava aulas. Faz tempo deixou a padaria.

Enquanto escrevo o jovem cantor passa seu chapéu. A música cessou e ele faz seu discurso com sotaque carregado. Sua presença me agrada, mas minha atenção se dá ao texto. Meu apoio é fazê-lo personagem.  Se não gostei dele como cantor, isso é outra história.

A vida é feita de cenas como que imitasse um filme. A viagem prossegue enquanto ainda há vida. Quase sempre viver é bom.

Até a estação Tucuruvi o ônibus não demora. Surpreendeu-me que houvesse um carro da linha com ar-condicionado. Aceitei até a condição de ir em pé. Mas dei sorte. Havia um banco livre e sem pessoas para os quais ele era reservado. Mas paguei o preço. A sorte cobra.

Creio que foram mais de vinte vezes que ela falou a palavra "farol". "Eu quero meu farol"! Sentava-se no banco detrás. E foi a viagem inteira ao celular reclamando do farol do carro. Afirmava que iria descobrir quem quebrou a peça do seu carro. Eu já estava enjoado. 

Ao adentrar ao ônibus, olhei para as pernas daquela mulher sentada. Só depois vi que a conhecia. Cumprimentos e minha transparência. É impossível não admirar sua beleza. E as recordações vieram à mente. Cenas que a vi belíssima e atraente. Não é fácil. Belas mulheres não deveriam casar. É frustrante. 

Descemos no mesmo ponto. Ela falou-me de seu filho e eu fingi interesse. Despedi-me rapidamente e adentrei ao shopping. Trazia comigo a certeza de que muitas vidas são desperdiçadas. Esse mundo é um desacerto.

A vendedora fica à porta para receber os clientes. Mas um deles não entrou. Ficou à porta impedindo o fluxo. Quis saber se havia ovos trufados. A moça parecia assustada. Impaciente, adentrei à loja pelo vão que sobrou. Uma trufa. Mas antes de finalizar a compra ocorreu-me sobre chocolate com pimenta. Ela mostrou-me o tablete. Pediu-me que levasse também a trufa. Desobedeci. Na hora de pagar, cadê o cartão? Disse que me esperaria de volta no mesmo dia. Só amanhã, respondi.

Não nego. Achei desagradável o modo com a vendedora se portou. A ferocidade em vender. Não à toa a marca é campeã de vendas. E seu dono esteve na TV esta semana explicando o sucesso. Mas sem exageros. No geral o atendimento é bom. É profissional. Bem melhor que sua concorrente direta, que abriu diversas lojas por aí. Mas que a qualidade dos produtos é sofrível. E o atendimento é péssimo. Nunca mais fui. Prefiro ficar sem chocolate.

Marcamos encontro. Fui pontual mais uma vez. Era a segunda vez que saíamos. Na primeira, ela chegou atrasada. Não foi um atraso exagerado. Mas o suficiente para deixar-me desconfiado quanto ao seu compromisso com horários. Eu estava na estação São Joaquim. E esperei. Pior, eu não tinha créditos no celular! Até que tive a ideia. Subi à mais famosa loja de esfiha de Sampa. Que lugar desagradável! Mas tinha banheiro! E tinha wifi! E, em verdade, não consumi. Sentei-me à mesa para descansar. E para tentar "falar" com meu par. Ela estava na estação República. Houve um desencontro. Fruto de uma comunicação ruim feita por mim. Eu era o culpado.

Paramos no posto de gasolina próximo à minha casa. Era a última que vez que eu abastecia meu pequeno  Ford. Nem sabia. O amigo ao lado desceu para falar com o gerente comunicativo. Por 6500 você leva esse carro! A promessa da compra foi efetivada. Relatei detalhes do carro, manutenções a serem feitas. Carro abastecido, promessa de compra efetuada, partimos. Eu e o amigo vendedor. Fomos à mesma padaria de outras vezes, que fica a 10 minutos  do posto. Reviravolta. O amigo vendedor resolveu virar comprador.  Fechou negócio comigo. À tarde fez o depósito da primeira parcela. O mundo gira. O gerente do posto foi avisado da traição. Ficou sem o carro, mas continua com nossa amizade. Teve até churrasco. Só eu que não participei. 

As cenas se dão. A vida é uma sucessão delas. E todos somos meros personagens. Se sobram registros, eles são feitos nas memórias de cada um. Ou nas câmeras de rua, nas câmeras de cada indivíduo que passa pelos diferentes locais. As cenas aqui relatadas são simples. São cotidianas. Urbanas. E são inofensivas. Já andei por aí. Já andei demais. E se vi muita coisa, mais coisas ainda não vi. Não percebi. Não dei a devida atenção. Enfim, eu vi. Registrei isso ou aquilo. Algo me chamou atenção. Muita coisa passou desapercebida. E assim seguem as cenas da vida.




O trabalhador que uivava

sexta-feira, maio 17, 2019 · 0 comentários


Teve que ir à casa da ex-mulher para pedir ao menos garfo e faca. Um par que fosse, já que ela o deixara com nada. Os motivos da separação não são sabidos. Ou foram esquecidos. Enfim, acabou.

Para sobreviver inventou um personagem. Mergulhou na musculação com dieta e anabolizantes. Adotou um discurso alinhado a seu novo estilo de vida. Tentava driblar a baixa autoestima. Copiou bordões. E passou a uivar.

Foi enquadrado. O chefe didaticamente explicou-lhe que no ambiente de trabalho não ficava bem aquela postura. Uivar, sobretudo. Foi transferido.

Você tinha razão, disse posteriormente ao ex-chefe. Parei até de uivar, completou. Só não se sabe se melhorou seu fraco desempenho. Mês que vem tem cortes na empresa.

Não se trata aqui de tecer críticas ao personagem dos uivos. Deixemos isso de lado. Não é fácil. "A vida é dura". E todos nós mais erramos que acertamos. Peguemos o espelho. E nos assustemos.

Tento desacelerar. Reconheço: sou uma máquina de cobrança. Cobro de mim. Cobro dos outros. Algoz de mim. Algoz dos outros. Não é fácil. Para mim. Para você.

Tenho defeitos. Virtudes. Você também. Coloquemos na balança. Furtemo-nos de embalar os resultados. Não é o caso. Tentemos melhorar. 

Voltemos ao rapaz dos uivos. Lembro-me das primeiras impressões. Não foram as melhores. Sua insegurança parecia-me resultado de uma baixa autoestima.

Ele mudou. Hoje é mais falante. Ri mais. Fala mais de si. Mas não sei. Parece-me representação. Não abraço seu discurso. O que somos de verdade. Ele parece 100% virtual. Avatar de si.

Não somos amigos. Ele também não confia em mim. Tenho minhas marcas dentro da empresa. Sou mais bem visto pelos gestores. Aqueles que estão no mesmo degrau, alguns se incomodam. Eu os entendo tanta insegurança. Muita gente anda na corda-bamba. 

Dentro de uma empresa muitos personagens. Já disse: também sou observado. Ninguém está livre de fazer parte de histórias contadas para outros. Minha mãe riu do rapaz dos uivos, sobretudo por esta característica uivante. Alguma mulher pode se sentir seduzida: ora, um lobo! Mas não é o caso. É só uivo mesmo. E lembrem-se, outros animais uivam. Até os vira-latas.



Dois textos

segunda-feira, abril 22, 2019 · 0 comentários

PERSONAGENS DE SAMPA

Bar Estadão. Quase meia-noite. A casa não está tão cheia. O feriado mandou muita gente para as estradas. Mas há movimento, e  ritmo  segue frenético.

Aricleiton me chama pelo mesmo apelido. E brinca com o outro garçom, o Bahia. Pede que este tire uma selfie comigo, inventando que sou famoso.

O bar aqui é conhecido pelo lanche de pernil, que realmente é delicioso e bem servido. Pessoas fazem refeição completa em porções generosas, senão exageradas. E tudo isso altas horas da noite.

Pereira, vai chegar mais um aí! É o que grita Aricleiton, que aqui no Estadão é tido como Pará. O apelido não o agrada.

Sai um pernil e porção de batata! Filet mignon com calabreza e ovo! Saem sucos. Pedem-se cervejas. Refrigerantes aos montes. Lanches diversos. A coxa-creme é bem servida. Tem farofa, pimenta, maionese...

Os pratos são diversos. O cardápio é variado. O tempero é bom. No balcão, garçom serve, lava louças, organiza pratos e talheres, entre anúncios de pedidos à cozinha. O atendimento é regado de bom humor.

Não há wifi. Não há ar-condicionado. Todas as portas permanecem abertas. E a conexão com a rua é imediata. As pessoas comem sentadas aos balcões. Em muitos casos há os que comem em pé. Tem momentos que lota, dificultando a circulação.

Hoje, eu não comi o lanche de pernil. Apenas tomei um café cortesia.  Ocorre que, eu estive em outro bar aqui perto. O "Chega Mais Espetos". Lá tem wifi e às vezes tem amigos.

De qualquer forma, o Estadão tem mais tempero, mais vida. O rodízio de clientes é maior. Por se tratar de um ponto turístico da cidade, muitos estrangeiros passam por aqui.

Aricleiton, o Pará, contou-me que após às 4h as garotas de programa encostam. Muita gente oriunda das baladas finaliza a noite no Estadão. Aqui comem antes da partida poética de regresso ao lar.

Volto ao "Chega Mais...". Mas apenas em palavras, pois permaneço a um dos balcões do Estadão. Bebo a água que está em minha garrafa que trouxe de casa. Claro que a água já acabou várias vezes, ao que me servi das torneiras dos locais aqui citados.

Lá no "Chega Mais..." o morador de rua abordou-me. O pedaço de pizza não lhe foi suficiente. Quis também pão e manteiga, que pedi para completar com um café com leite. Na sequência, pedi-lhe que sentasse à mesa, que fora deixada por um  amigo e uma de suas amantes.

Ricardo sentou-se com o cuidado de quem teme o dono do bar. Trazia boa aparência e certo cuidado com a higiene. Fui direto. Anunciei que o entrevistaria, mesmo que rapidamente. Gravamos dois videos, onde ele disse o que bem quis dentro do que já havíamos conversados.

Os videos vão para um canal do Youtube, que criei recentemente: SAMPA QSE TD.

Ele pediu-me que anotasse num papel o nome do canal. Também passei-lhe meu celular. Pedi-lhe que entrasse em contato comigo quando se estabelecesse em Bauru. Ricardo está esperando seus documentos serem expedidos para partir rumo aos avós.

Aos oito anos conheceu as ruas de Sampa. Fugia dos espancamentos dos pais alcoólatras. Conheceu as drogas e as desventuras das ruas. Na antiga Febem conheceu sua primeira reclusão. O trigésimo oitavo distrito foi onde puxou sua primeira cadeia. Chegou ao limite quando passou um mês no Carandiru.
Eu só fazia loucuras quando estava virado nas drogas, confessou-me. Em momento algum assumiu decisão própria. "Eu ia no embalo".

Insisti na pergunta se a cadeia era mais maldade que a rua. Confirmou que sim. Revelou que o Carandiru era assustador. "Paredes manchadas de sangue". Morte e violência. "Uma vez cismaram que o juiz roubava". Esqueceram a bola e enfiaram facas no "ladrão", que não teve perdão. Foi seu último "roubo".
Um caboclo tinha um colar de orelhas no pescoço, disse-me com indignação.

E conversamos. E a oportunidade tinha que ser aproveitada por ambos. Eu extraia informação. Ricardo pedia. Tentou 1L de pinga, ao que neguei. Ele não confiou na minha falta de grana. Vinte reais eram muito para mim. Abri o jogo e contei-lhe que pagava dois empréstimos, sem citar valores. Foi quando ele deixou de rir das minhas confissões de um homem duro, sem grana.

A certa hora, reclamei de seus pedidos. Mesmo assim atendi ao último deles: um isqueiro. Queria ter com que acionar seus cigarros por aí. 

Dá para lidar com o preconceito? Respondeu-me que não. "Fere na alma". O gerente da casa pediu que Ricardo partisse. Avisei que se tratava de um amigo, pedindo que o deixasse ficar. Foi quando entramos no quesito da minha pergunta.

"A estação Sé do Metrô está repleta de moradores de rua. Não estão cuidando do Metrô". Corrigi: não estão cuidando das pessoas. Silêncio e certo constrangimento. Eu estava em família. Minha irmã fizera tal afirmação em mais uma dose sua de reacionarismo.
Ricardo também se indignou com tanto descaso pelo ser humano.

"Deus existe, mas não dependo dele, respondeu-me. Questionei por que Deus não muda o que há de ruim no mundo. Ele não quer... Acho que é o tal do livre-arbítrio, divagou meu vacilante. Disse-lhe que a ideia de Deus não permite livre-arbítrio, conforme uma explicação do Prof. Luís Eduardo Nogueira, um pensador e colega de mesa.

A presença de outro ser humano para mim tem prazo de validade. Logo me vem o desejo por solidão. Sempre foi assim com as namoradas. Não seria diferente com outras pessoas. Desejei que Ricardo partisse. O bar lhe ofertara um marmitex. A pinga chegamos num acordo, o bar forneceu um copo quase cheio, que foi colocado na garrafa de água que eu comprara e esvaziara.

Dirigi-me ao caixa. Pedi outro café cortesia. Paguei e depois do banheiro despedi-me dos garçons. Ricardo, educadamente me aguardava lá fora. Queria despedir-se e agradecer-me. Fiz o mesmo. E parti em direção ao Estadão. E aqui permaneço. E se não escrevo o parágrafo seguinte, é pois que parto.



Os dias se alternam...

sábado, março 23, 2019 · 0 comentários

O limpador do para-brisa  já não limpava direito, dificultando a visibilidade. E o pior é que tem chovido bastante em São Paulo. Trocar as peças era urgente. E o fiz neste sábado. No local onde comprei com dois reais a mais a instalação é feita ali mesmo. O pagamento foi feito em cartão de crédito, que é opção para quem não pode pagar à vista. Parcelei em três vezes sem saber se cabe no orçamento. Bom seria haver um aplicativo que me avisasse se a compra cabe ou não no bolso.

A tecnologia pode nos ajudar a sermos consumidores menos endividados. Nos supermercados, por exemplo, sugiro carrinhos de compra inteligentes. Que vá somando as compras e nos dando o total em uma tela digital. Ao final, finalizamos a compra e pagamos com o celular. 

Há outras ideias, mas as deixemos para outro texto.

Dali, da loja gigante de autopeças, parti para o posto mais próximo de minha casa, onde abasteço a conta-gotas. O dinheiro sempre é pouco. O tanque quase sempre na reserva. Não estou só nessa escassez.

Após abastecer, resolvi lavar o carro. Meu pequeno Ford era o próximo da fila. Um homem de meia idade estaciona seu sedan de meio luxo. Sem vontade, ele responde ao meu cumprimento. Eu compreendi a pouca simpatia. A vida não é fácil.

"Ontem, durante minha sessão de fisioterapia, uma alma infeliz, dessas, que pelo sadismo que demonstram, há de rastejar pelo inferno tão bem descrito por Dante, pôs como música ambiente o que toca na coacla chamada rádio Disney. Só lixo, do mais variado tipo, mas o pior foi uma dupla sertaneja que só gritava uma letra imbecil acompanhada de uma melodia infantil (Maíara e Maísa, acho). Leio agora em artigo de Mário Sérgio Conti que a música é usada como elemento de tortura em Guantánamo. É rapheavy metal e outros lixos na orelha dos torturados. Irei recomendar ao diretor do presídio o nosso sertanejo".


Adalton César escreveu o texto acima. Ao que Adalmir comentou: "Viver no Brasil é enfrentar a mentalidade medieval. Ame-o ou... ame-se!".

Um amigo, eleitor do Bolsonaro, enviou-me uma pérola autoritária. Dizia que Maduro abria as fronteiras para os descontentes com o governo de ultra-direita instalado no Brasil.

Sobre política. Desconsidero fanatismos e discursos de ódio. Isso são atributos de eleitores desavisados. Fico com as boas análises políticas de pessoas equilibradas e bem avisadas. 

Hoje fiz caminhada. Resolvi inovar. De carro fui até à estação Parada Inglesa. Embarquei sentido Jabaquara e saltei na estação da Luz, trocando a Linha Azul pela a Amarela que, salvo engano, vai até o Morumbi. Da estação República fui até à rua 24 de Maio, onde se localiza o Sesc de mesmo nome. Subi onze andares pelas rampas acessíveis. Passei em meio à uma exposição de Lasar Segall. Admirei e conheci parte de suas obras ali expostas. Demorei-me um tempo. O silêncio me fazia bem. 

Subi mais algumas rampas e parei para um café. Na vitrine, vi uma compota de melão com erva-doce e limão siciliano, o qual comprei somando uma xícara de café.

Desci os onze andares pelo elevador expresso. Tomei a rua e fiz um caminho diferente para retornar até à estação. Vi moradores de rua. Eu os observava, contrariando a indiferença de outros dias. Enquanto caminhava, procurava um local para cortar o meu cabelo. Vi cinemas 24h que exibem filmes pornográficos. Fiquei surpreso de ver um restaurante senegalês, onde almoçavam possivelmente homens senegaleses. Eu sabia que tipo de restaurante se tratava por também estar escrito em português na fachada colorida.

Um bloco de rua se formara junto à Praça da República. Mas isso pouco me interessava. Carrego certa aversão aos foliões. Enquanto contornava a praça, procurava um salão de corte de cabelo, sem, contudo, obter êxito. Seguia o trajeto de retorno via trem do Metrô. 

De volta ao carro, fui em direção a uma região simples do Jardim Tremembé, que fica próximo a minha casa. Estacionei o carro próximo a dois salões, que eram os únicos abertos em meio a tantos outros de portas cerradas. Declinei do primeiro, pois só havia mulheres. No segundo, fui informado que não estava atendendo. Caminhei um pouco mais pela precária avenida com calçadas lamentáveis. Passei sobre um córrego fétido e cheio de mato em suas bordas. A região ali é muito feia. E são seguidos pequenos e simples salões de beleza. A média do corte são vinte reais. Podem dizer que mereço algo melhor. E eu posso até concordar, sem deixar de estranhar tal pensamento. Isto dito, parece-me que eu seria um daqueles que se considera eleito e merecedor de tudo. De certo, cortar o cabelo no local em questão não passe de falta de alternativa. Pagar mais em local mais requintado seria apenas mera condição econômica que daria o direito a escolher. Ou não apenas isso, mas também um apreço por gastar além do que se pode pagar. 

Hoje é terça de carnaval, e encontrar salões abertos após às 16h é algo pouco provável.

Mas eu insisti. Guiei em direção  à região do Shopping Tucuruvi. Por ali, numa das avenidas, outro salão fechado. Restava-me, ainda, uma opção.

Desci com o carro pela Avenida Ataliba Leonel. Numa das travessas, eu conhecia um salão masculino. Prefiro cortar com homens, pois tais profissionais entendem melhor os traumas masculinos de calvícies.

Foi em vão também. E foi quando desisti. Virei a próxima à direita em busca de um retorno. Rodei mais 50m e me deparei com um salão funcionando. E o que era melhor: nenhum cliente no local.

Baixei o vidro e indaguei se aceitava cartão, sem me informar do valor do corte. Máquina três dos lados e atrás, cortando em cima e penteando para frente. Cortou exatamente como eu queria.

Minha carteira é minimalista e simples, embora de boa qualidade. Não encontrei meu cartão, informando ao dono do salão, pessoa pouco eficiente na comunicação. Avisei que voltava já com os vinte reais do corte. Ele aceitou com a mesma carência de simpatia de quando eu havia adentrado ao salão que, provavelmente, também era sua residência.

Na agência do Santander saquei o valor, retornando ao local da minha dívida. Saltei do carro, paguei, e, antes de partir, tomei dois copos de água gelada. Expliquei que esquecera de devolver o cartão à minha carteira. Não houve muito assunto, tampouco entusiasmo de ambas as  partes. Feito o relato, parti e saí daquela cena um tanto desagradável.

Quando escrevera este parágrafo eu tinha cinco cartões de crédito. Hoje, ao retornar aqui, restam três cartões, sendo um deles de uma rede de supermercado, e creio que só posso usar em suas lojas. O fato é que sigo cortando despesas. E, com o tempo, percebo que muitos gastos são absurdamente desnecessários. E os fazemos movidos, sobretudo, por certa carência. Até que um dia recobramos a razão e fazemos os devidos acertos. 

Tensão e ansiedade me tinham. Em momentos assim, sinto o desprazer de estar com outras pessoas. Logo que entrei em casa deparei-me com minha mãe sentada à frente da TV. Desta vez não via programas de assassinatos ou pastores evangélicos saqueando pessoas em busca não de paz, mas de conquistas materiais. Ela via a votação das escolas de samba. O volume da TV estava alto como sempre. Eu deixara lá na rua a riqueza de fatos, trocando-a pela a minha miséria familiar.

Enquanto fechava a porta via um celular de capa vermelha sobre a grotesca estante da sala. Móvel de muito mau gosto que meu falecido pai pagou para fazer. Imediatamente, ao ver aquele aparelho telefônico sobre o referido móvel, acreditei que fosse de meu cunhado, o que me desagradou imediatamente. Mas logo fui noticiado que ele pertencia a minha irmã mais nova. O desagrado foi igual. 

Seriam as famílias as raízes de tantos problema psiquiátricos mundo afora? Ou tal afirmação se trataria de leviandade. Ao que parece, as famílias corrompem os bebês que já cresceram.

De qualquer forma, o problema era eu. Nada contra irmã e cunhado, que são pessoas iguais a mim. Eu é que não estava bem. Irritação e agressividade eram senhoras de mim.

Mas as emoções mudam. Consegui encontrar uma bandeira da paz em meio a tanta bagunça emocional. Em tempos de tanto ódio na sociedade brasileira, tento permanecer sereno.

Os dias se alternam. As últimas mudanças em meu cotidiano me favorecem. Reencontrei equilíbrio parcial, mas com saldo positivo. No trabalho, entusiasmo e foco retornaram. Uma promoção bate à porta. Os relacionamentos interpessoais melhoraram. A sensação de autonomia é quase plena.

Ontem trabalhei acima de doze horas. Mesmo cansado, guiei por aí. Da Vila Maria para a Saúde. Na sequência, Moema, Jardins, Bela Vista. Da Liberdade acessei a 23 de Maio. Padaria aberta depois das 22h só encontrei em meu bairro. Cumprimentos e a expressão "você andou sumido". Um xícara de café do coador para finalizar o dia. 

Rompimento amoroso. Foco no trabalho. Esportes, lazer e cultura. Alguns comprimidos. Acrescentando melhora nos relacionamentos interpessoais, isso tudo resultou na recuperação do entusiasmo dentro de mim. 

Algo fundamental foi o levantamento da bandeira da paz, a queda do muro. Percebi que não sou uma máquina de combate. Decidi enterrar conflitos. A mudança me tem sido benéfica. Mas não é fácil, os combates batem à porta com frequência.

Os dias seguem se alternando...

Ontem, ao voltar do trabalho. Metrô: linha Azul sentido Tucuruvi. O trem para na estação Luz ou Tiradentes, falta-me certeza. Uma discussão. "Se você ameaça-la novamente terá problema comigo!". Foi o que disse o homem de estatura alta. Que tipo de problema?,  disse o suposto ameaçador.

O trem partiu. A discussão ficou para trás. O rapaz sentado ao meu lado deu opinião. Considerou uma intromissão na briga de casal. Seu amigo concordou. 

Tempos de violência. De legitimação dela. Pacote anti-crime para favorecer a indústria de armas. As balas terão que ser disparadas para o lucro não cessar nem diminuir. O governo presta seu serviço com apoio de alguns legisladores. Mortes e gordas comissões. Argumentam que o país já é violento. Claro que, sim. Não há dúvidas quanto a isso. Mas lamento: as mortes vão disparar. As indústrias da morte e da violência agradecem e fazem os pagamentos para seus representantes no legislativo.

No decorrer da construção deste textos os dias passam e os fatos se dão. As reflexões avançam. Um atentado em uma escola da grande São Paulo. Famílias feridas. Políticos e imprensa oportunistas. Tudo virou show e modo de fazer negócios e política (visando negócios). Veja, não é preciso ser muito inteligente para sacar que o jornalista finge seriedade enquanto explora mortes violentas. Podemos dizer que se trata da última etapa do crime. Quanto mais mortes, mais notícias, mais lucro. Já o parlamentar, o ministro, vão ter com os representantes das empresas de armas, que necessitam que o governo faça sua parte. Faz parte do contrato.  Precisam de mais violência e sensação de insegurança. Essas fábricas são um dos galhos dos negócios ligados à "segurança". Não à toa tem senador dono de empresas esse ramo interessado e necessitado de mais negócios.

Hoje é um outro sábado.  Escolho este dia para finalizar este texto. Sigo no trabalho com forte entusiasmo. Só o cansaço das atividades da manhã que me desaceleram um pouco. O almoço já ficou para trás. Os fatos vão ficando para trás. A poesia pede passagem. Ainda há trabalho a fazer. Mais três horas e parto para meu destino, que ficará para um outro texto, quando serão outros dias de escrita...



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

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Revisão de textos
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