Rumo a 2018

domingo, outubro 08, 2017 ·

Trem noturno para Grajaú. Eu parafraseava o bom filme "Trem noturno para Lisboa", com o excelente Jeremy Irons. Dirigia-me para a casa da minha bela namorada, Marilene Sabino, chamada por todos de Mari. No twitter publiquei minha paráfrase, citando dois fatos que vi. Uma roda de jovens, em que observei a palavra mais repetida por eles: "mano". Depois, uma dupla feminina. Que cantava música gospel. Desafinação e pseudo entusiasmo. É assim mesmo: eu não creio no entusiasmo do religioso. Se existe, é inventado, e o prazo de validade é curto. 

Era uma noite de sábado. Eu trabalhara sete horas. Tive a boa cia do meu grande amigo Alan Davis, já mencionado aqui. Somos "amigos de copo e de cruz". Fazemos parte do regime CLT dentro da instituição que nos emprega. E temos objetivos diferentes. Alan estuda para se tornar professor universitário. Eu caminho para o que chamo de fórmula híbrida: CLT + trabalho autônomo. 

São rumos e são buscas. E a vida segue. Tentar é importante, isso é dizer mais do mesmo. E no que se tenta, estratejar é fundamental. E isso são lições aprendidas durante a vida. Foi o tempo de passo em falso. Já passamos dos 40 anos. 

Ia para o Grajaú, subdistrito em que mora minha linda e adorável Mari. Teríamos algum tempo juntos. Faz sete meses que namoramos. Eu que passei anos sem uma namorada, vivendo de escassas e inúteis aventuras. Demorava. O tempo ia passando. Eu, solteiro. Negando pretendentes. Sendo questionado. Advertido que escolhia demais. Mas permaneci na minha posição. Escolhi. Não que houvesse tantas opções. Elas existiam, eram  poucas, sim. E mesmo nessa escassez eu negava as mãos (e todo o resto) às pretendentes. Até que surgiu a Mari. E, passadas algumas dificuldades, o ajuste da sintonia se deu. E hoje navegamos juntos em mar de harmonia e muito amor. Mari é de fato a única mulher que amei de verdade.

Da estação Pinheiros até a estação Grajaú são muitas paradas. E eu vou lendo notícias ou conversando com a Mari por meio de aplicativos. E reflito. Eu quase sempre faço isso. Tenho refletido muito. Bastante tempo sem escrever, mas absorvendo informações e observando muito.

É comum o chamado "shopping trem" nos vagões da CPTM e Metrô aqui em São Paulo. E são muitos os vendedores. Jovens, em sua maioria. Em busca da autonomia e lucros acima de salários baixos e cargas horárias excessivas. Não que estes jovens vendedores trabalhem menos horas. Mas se extenuam de tanto trabalhar, é por conta própria, como costumam dizer. 

Fábio é sobrinho do meu outro grande amigo, o Gama. Trabalhava comigo na mesma empresa que o Alan Davis. Foi demitido após uma reestruturação na empresa. E ele queria ser demitido. Só não esperava que seria demitido do seu outro emprego. Daí, fiou-se às vendas. Inscreveu-se como microempreendedor, pando o INSS todo mês. Hoje Fábio tem uma renda maior da que tinha com dois salários. Trabalha muito, sem dúvida. Mas não tenho má vontade, nem a preguiça de quando era empregado, diz o jovem empreendedor.

O fato é que a carteira assinada será cada vez coisa mais rara nos anos vindouros. É a chamada "pejotização" da economia. No Brasil já foi aprovada a terceirização geral. Muita gente vai virar prestadora de serviços sem registro em carteira. Ou seja, será contratada com pessoa jurídica: PJ. 

Há aqueles que temem o futuro. Eu vibro. Sim, tenho muito otimismo. Mas comigo, não com o país. Eu penso firmemente que ganharei mais dinheiro nos próximos anos. Claro que todos estamos em função do que ocorre economicamente no país quando se fala em dinheiro e trabalho. Neste sentido, parece-me que o ambiente econômico aqui vai melhorar. Teremos novos investimentos. Menos desemprego e uma população menos endividada e mais confiante para novos gastos e tomadas de empréstimos. 

Claro que seguiremos um país com graves problemas sociais relacionados às desigualdade e enorme violência justamento por conta da citada desigualdade. Sobretudo por que teremos muito provavelmente governos alinhados à agenda neoliberal, cuja principal característica é governar para grupos reduzidos, contemplados à partir das classes médias. Abaixo disso, as pessoas que fiquem com sua própria sorte.

E quem será o candidato vitorioso alinhado à agenda neoliberal. Eu acreditava firmemente que seria o prefeito de São Paulo João Doria. Mas política requer análise constante. Hoje penso que Geraldo Alckmin pode ser favorecido pelo chamado voto útil contra duas ameaças altamente conservadoras: Bolsonaro e Doria. Um nos costumes, outro na economia. 

O Jornal Financial Times afirma que Bolsonaro será eleito. Doria diz que as ideias de Bolsonaro são frágeis e vão se desidratar durante a campanha. Eu concordo com o prefeito, e creio que o deputado carioca chegará em quarto ou terceiro lugar. 

A corrida presidencial segue. Lula deverá ficar de fora por uma condenação em segunda instância. Com isto, o PT não terá um candidato com a musculatura do ex-presidente. Marcará território, nada além disso. De certo, ficará de fora do segundo turno, se houver. A esquerda terá Ciro Gomes e Marina Silva como principais candidatos. Dividida, com a presença ainda do PSOL, dará espaço para a direita decidir entre seus candidatos as vagas no segundo turno ou uma vitória já em primeiro turno. E é nessa fraqueza e divisão da esquerda que vejo a oportunidade para Alckmin rumar à vitória, recheado de voto útil de progressistas, temerosos de uma vitória mais ainda à direita do Doria ou Bolsonaro.

Muita água ainda vai rolar. A Lava-Jato ainda ameaça o atual governador de São Paulo. Aécio e Serra já ficaram para trás. Cabe a Alckmin engolir sua cria: João Doria. Livrar-se de eventuais denúncias. Lula deverá morrer na praia. Marina não vai muito além dos 20% de voto. Ciro não tem força. Bolsonaro é só uma onda. E Doria pode ser derrotado pelo voto útil em Alckmin.

Aguardemos os próximos lances no tabuleiro de 2018. Nossa frágil democracia, que anda sendo contestada, passa por um teste difícil. Deverá sobreviver. Mas certamente tem dado passos para trás em relação ao seu fortalecimento. Se tivermos eleições no ano que vem, já deveremos nos dar por contente. Quanto ao resultado, que seja o menos pior para o Brasil.








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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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