Alguns cafés e um mergulho em 2018

terça-feira, março 28, 2017 · 0 comentários

Alguns cafés. E são muitos. Diários. Nem sempre em padaria, bar ou um café. Pode ser em casa. No trabalho, na casa de alguém. Varia. E vida é melhor com variações. Mesmices levam ao aborrecimento.


À mesa da frente um sujeito com aspecto pouco amigável. Vestia jeans e camisa de manga curta. Seu companheiro, que usava roupa social, disse ao celular que era o pastor tal.   Conversou rapidamente, demonstrava ansiedade, e sentou-se outra vez. Falavam, o que deu para ouvir, de desvio de dinheiro da "prefeitura". Não sei qual prefeitura. Citavam o Minha Casa, Minha Vida. O pastor, em um dado momento, virou-se para trás a fim de certificar se alguém ouvia, seu eu ouvia. E eu ouvia. 

Por vários momentos me desliguei da dupla. Claro, seres humanos menores. Depois, quando retornei minha atenção a eles, os comparei à trinca de enfermeiros que se divertia ao balcão daquela padaria. Eles carregavam mais leveza que a nossa dupla de cima. Eu mesmo era alguém mais leve. De maneira que, fiz um brinde à honestidade. A vida simples e honesta é melhor para a saúde. De que vale tanto dinheiro e tanto embrutecimento?

Sábado apreciei um café diferenciado. Foi em um desses desagradáveis shoppings de São Paulo. O problema é o barulho. O ambiente é fechado e a algazarra se espalha. Era o Shopping Eldorado. E foi  no Octavio Café. Serviço e bebida excelentes. Vale o quanto cobra. Ideal será ir à loja na rua. Bem melhor. Mais silêncio e elegância.

Eu estava acompanhado. Minha cia era minha namorada. A bela morena por quem me apaixonei. Era um momento com ela. O palco de nosso passeio, como já dito, não era dos melhores. Repito: um shopping barulhento como todo shopping. A rua sempre é mais agradável e mais democrática. Shoppings vendem uma perfeição irreal.

Marilene, minha namorada, é alguém com opinião. Uma evangélica crítica. Sim, ela já não se submete à religião como em tempos passados.  E não é só ela. Filhas e irmãs percorreram o mesmo caminho. Tudo isso depois de alguns prejuízos emocionais. A vida é meio que isso mesmo: uma coleção de sequelas emocionais. Não estamos livres disso. Tudo depende dos fatos. E, em muitos casos, o indivíduo prova de invenções alheias as quais o preço é ele quem paga. No caso de religiões o preço se pago quando se está dentro e depois que você sai. 

Mari, eu e outros a chamamos assim. Ela segue indignada com o governo Temer. Sobretudo com a reforma da Previdência, o qual os investidores mandaram o nosso presidente executá-la. Deram o preço para que o investimento volte ao país. Mas eles querem ganhar mais, o máximo possível. Neste sentido, pedem que o trabalhador tenha benefícios cortados. No pacote a chamada PEC dos gastos públicos, que congela gastos sociais por vinte anos. E a última facada no trabalhador: a aprovação da terceirização geral nas empresas. 

Temer, como qualquer presidente, quer fazer seu país crescer. Gerar emprego, controlar a inflação. Enfim, o trivial. Todo governante quer ficar bem na foto. A questão é quem paga o preço. O mercado determina que o trabalhador pague a conta. Assim, não se vê deste governo qualquer discussão sobre taxar grandes fortunas, discutir a dívida pública brasileira, aumentar impostos dos mais ricos. Tudo isso deixa a Mari indignada. E ela reflete a indignação de muitos eleitores.

Neste sentido, desconfio seriamente que a gestão Temer deu o discurso que a oposição precisava. A esquerda pode se apresentar, ao contrário de Temer junto com PSDB, como amiga do trabalhador. Mas há um detalhe importantíssimo: a esquerda terá que convencer a classe trabalhadora que não será irresponsável com a economia. O povo não vai querer um repeteco dos desmandos do governo Dilma na economia.

E esse texto mergulha em 2018. Que vem trazendo material para muita divagação. Esse é um ano que todos esperamos que passe rápido. Por quê? Ora, o país precisa  urgente de novas eleições, de um presidente outra vez eleito pelo voto. Alguém com compromisso com o povo.  Pois Temer não passa de uma oportunidade da elite econômica de impor suas ideias mediante um governo impopular que, portanto, não tem nada a perder. 


Terminemos o texto com um café. Por esse blog se vê muita menção a esta maravilhosa bebida. E boa parte dos cafés citados aqui carregam consigo muito elegância e glamour. Terminemos de forma mais simples. Um café requentado e servido em xícara sem pires. Tudo isso em casa. Logo após esta última linha. 



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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