Mudança comportamental de um cidadão

domingo, agosto 21, 2016 ·

Pesquisava carros nos sites de ofertas. Desejava efetuar um compra. E me  frustrava. Eu não tinha condições financeiras para fazer tal aquisição. Até que me endividei mais ainda. Consegui um segundo emprego. O passo seguinte foi me enfiar em um financiamento de veículos, o que não demorou. Fiz  o pior negócio possível. Sem entrada, em 48 vezes de 479 reais. Assinei sem perceber, ou ler sem detalhes, a proposta do banco. Embutiram um seguro e um título de capitalização. Tudo feito por impulso. Eu era mais um simples consumidor. Permitia-me ser "assaltado". 

Os meses se passaram. Quatorze parcelas pagas, fora o seguro e gastos recorrentes com manutenção. Eu comprara um Ford Ka 2002. O seguro custa ainda 153 reais ao mês. O meu dinheiro se ia. Perdera  liquidez. E pior, me endividei com o cartão de crédito, tendo que fazer um empréstimo pessoal. O fiz no Just Bank, que conheci por meio do aplicativo Guia de bolso. Minha liquidez se ia de vez. O cheque especial teria que ser usado novamente.  O futuro próximo se anunciava vermelho.

Fora tudo isso, contam mais dívidas pessoais, as quais quero honrar todas. Foi então que depreendi. Ter carro é um erro. Uma insanidade. Uma péssima colaboração para uma sociedade sustentável. Daí então, fui concluindo. Acompanhando as mudanças de cultura realizadas  pela atual gestão da prefeitura de São Paulo. A introdução de ciclovias, a expansão dos corredores de ônibus, além da existência do Metrô, fizeram-me refletir. Sampa foi pautada. Não importa o próximo prefeito, a mobilidade é tema em alta. 

Não. Não dá pra ter carro. Eu, hoje, questiono o conceito de propriedade do carro. O automóvel deve ser compartilhado. De forma alguma ser usado por um único dono. Mas isso leva algum tempo, mas que já estão em gestação os projetos. Ter carro será mais caro e apenas uma parte da população terá. Refiro-me ao mundo como um todo. A indústria automobilística sofrerá fortes mudanças. Tem-se ainda e existência do Uber, além de outros aplicativos de mobilidade urbana. Os interesses da google e da Apple. O futuro próximo é os automóveis compartilhados e autônomos, que passará ser um aliado da mobilidade urbana. Quando deixará de ser uma praga nas cidades.  

Resolvi abrir mão da minha contribuição na poluição da cidade, bem como na piora do trânsito. Não que eu tivesse deixado de lado o transporte público. Não, este seguiu como minha prioridade. E carro era vez em quando, sobretudo nos finais de semana. Mas declinei desta opção. Devolverei meu carro para o banco. Posteriormente, lançarei mão de uma bicicleta urbana e dobrável. Conciliarei bike com metrô. Por ora, somente aos sábados que eu trabalhar. Aguardarei mais infra-estrutura para o ciclista.

Era um sábado. Eu tinha um encontro. Fruto de um app de relacionamento. Ela me convidara para ir ao seu apartamento. Tomei as marginais. E fui bem. O trânsito estava livre e o asfalto bem cuidado. Queimava gasolina. Lá, tive que deixar o carro em um estacionamento pago. Dei sorte de não pernoitar. Foram 30 reais somados ao gasto com combustível. No retorno o câmbio voltou a apresentar problema, de maneira que deixei o carro na mecânica. E mais 385 reais se iam pelo ralo. O que me revoltou ainda mais. Nesta noite pensei: ter usado táxi e os serviços do Metrô teria sido bem mais vantajoso. Carro cobra caro pelo conforto. 

O fato é que toda essa minha mudança de posicionamento, essa minha contrariedade à posse do automóvel, está conectada à sustentabilidade. À grande tendência do milênio: o bem-estar. Sim, é isto que mais importa agora. E dentro disto está a busca pelo simples. Eu sou apenas mais um dos habitantes das metrópoles que questiona os velhos padrões de consumo. Devo dizer que ter carro não é questão de status, senão de escolha errada e pouco sustentável. Além de péssimo do ponto de vista financeiro.

Abro mão do carro e ganho liquidez. Pago minhas dívidas. Poupo. E me organizo para fazer o que não me era mais possível: viajar. E isto, principalmente, por ter dois empregos. Sendo que as férias jamais casaram. Não bastasse meu stress, minha liberdade havia sido ceifada. Neste sentido, em breve deixarei uma das empresas em que trabalho. Declinarei daquela que hoje me faz mais pressionado. Tudo orientado pela busca do bem-estar. Vou me dedicar à minha saúde, à minha forma física, à cultura e estudos. Além de meus amigos e familiares. Já me pauto também por um consumo mais sustentável. E já pesquiso. Nesta vida, é preciso tentar mudanças. Reconhecer erros. E dar um passo para trás. No caso, no sentido do simples e da sustentabilidade. Isto pode ser tido como um retorno às origens. Refiro-me à humanidade como um todo.

Eu gosto de guiar, não nego. Realmente é prazeroso. Sobretudo à noite. A opção, neste sentido, pode ser a  locação de carros. Que poderá dar-se vez em quando. Isto, além de táxis, ônibus, trens, será  mais barato que ter um carro. Sem dúvida. 

O mundo muda porque a gente muda. Nós somos a ferramenta de mudança. Se antes eu admirava os diferentes modelos, hoje os vejo negativamente. Para mim, o automóvel atual não passa de uma praga urbana. Que polui, mata direta ou indiretamente, além de causar o caos na mobilidade das metrópoles. Eu não quero mais dar essa contribuição negativa à cidade em que habito. Tratá-se de assumir outra responsabilidade: a social. Neste momento o carro está na garagem. Até eu devolvê-lo ao banco farei uso dele para mercado e padaria. E já aos sábados irei de transporte público para o meu trabalho. Tentarei ser o mais rápido possível para livrar-me do Ford Ka. Fecharei uma página na história da minha vida. Não darei conselhos. Não farei campanha contra o automóvel. Nem é preciso. As mudanças nas cidades já pautam o futuro da indústria automobilística. Muita coisa, neste sentido, mudará. No caso de Sampa, as ciclovias vieram para ficar. Os sistemas de transporte público vão melhorar. As empresas darão suas contribuições. Enfim, Sampa e outras metrópoles precisam respirar. E assim será.  O caminho é este. Só este. Não há outro.  






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Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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