APPs do amor

sábado, junho 11, 2016 · 0 comentários

ÁS 5h30min saio para o meu primeiro trabalho. Combino táxi com metrô. Às vezes uso o ônibus no lugar do táxi. Em raras ocasiões vou guiando. 

Tem feito frio. Muito frio. Eu, frágil à baixas temperaturas, aqueço-me com o que tenho de roupas. Digo assim, pois há uma escassez em meu guarda-roupa.  O jeito é se virar com o que tem. E esperar melhoras financeiras para colocar em prática uma intenção: peregrinar por bons brechós. 

Creio que os últimos textos publicados aqui tenham sido uma expressão negativa de um momento meu. Felizmente a vida muda. Para melhor ou para pior, não importa. Vale mesmo é mudar. A mudança é altamente benéfica para nós humanos que não gostamos do tédio. No meu caso a mudança foi para melhor.

Pois é. A velha boa auto-estima voltou. A segurança frente às mulheres. O olhar delas. Enfim, deu-se em mim um reencontro comigo. Que bom. Motivos? Não. Motivo. Uma mulher. Sim. Um encontro bastou para me tirar do ostracismo. Eu precisava. E se ela me fez bem, eu também fiz bem a ela. Outros encontros assim que possível.

A tecnologia veio para facilitar nossas vidas. No campo amoroso não é diferente. São estes aplicativos de aproximação das pessoas. Imagino que sejam um sucesso.  Lanço mãos deles há algum tempo. Isso em uma época pós-chat. Aquelas salas de bate-papo. Para mim, elas ficaram lá atrás. E foi por meio delas que conheci uma mulher que foi importante nesta minha trajetória. Mas eu já saí das salas. Agora são os app 's. São muito criativos e inteligentes. Eles nos dão mais filtros. Mas o filtro que mais vale  mesmo é o nosso. Este que dá a palavra final.

O primeiro encontro. Marcado às 20 horas e 30 minutos na região do Tatuapé. O gps me leva até a Praça Silvio Romero. Necessito corrigir a rota. Não é bem ali. Guio um pouco mais e avisto um bar que um amigo indicara: "Pilequinho". Dou uma volta. Percebo que me perco. Paro o carro e aciono meu aplicativo de trajeto. Correção feita. A voz dela que me guia agora. No local marcado com  ela não é possível parar o carro. Viro à primeira direita. Freio de mão e pisca-alerta. Aciono agora um aplicativo de mensagens instantâneas. Aquele que um juiz, cujo  salário teve aumento recentemente, mandou bloquear por puro ferimento do ego. Um sujeito que presta um desserviço à sociedade. Ela me pergunta onde estou. Cheguei, respondo. Estou saindo, diz ela. Acho estranha sua resposta. Saindo de casa? Do metrô? Fico inseguro, mas logo me recupero. Só pode ser "saindo da estação de metrô". 

Espero. Ela logo aparece em seu vestido. Está um tanto tímida. Fruto de nossas conversas além do proibido. De salto alto  fica mais alta que eu, que não passo de 1.70m. Temos a mesma altura. Logo brinco e questiono seus sapatos. Ela ri. Percebo que está satisfeita e um tanto tensa. No início sou sempre quieto. Observo muito.

Proponho o Pilequinhos. Em vão. Minha memória é péssima. Dou o que penso ser a mesma volta pela Praça Silvio Romero. Conhecedor de mim, logo declino. E vou para a rua que um outro amigo indicara. Lá, vários bares. O problema é estacionar.

Assim que ela entrou no meu carro dei-lhe um selinho. O primeiro beijo ficaria para depois. E foi logo no carro antes do bar. Desejos reprimidos. Agrado de ambas as partes. 

Foi difícil. Enfim, achei uma vaga. E ali mesmo havia um bar, que não estava tão cheio. Rock, o tema. Temi que fosse pesado. Música ao vivo. Logo nossos ouvidos foram agraciados com Pear Jam, R.E.M, U2, entre outros. Que bom. 

Uma água e dois copos. Serviços e cachê. A conta e  nós dois para o carro. Sim, já havíamos conversado bastante. Ela, como eu gosto, muito falante. Eu, mais quieto. Queria mesmo era beijá-la.

O carro não partiu. Ficamos ali mesmo em frente ao bar. Beijos. Abraços. Atração. Como terminaria a noite? Terminou cedo. Entre muitos beijos. Abraços. Palavras. E aumento da temperatura. Eu deveria ter apagado o farol. Já não estávamos mais em frente ao bar. Eu a levaria embora. Mas paramos. Foi para acertar o app de rotas. Mas ficamos por ali. E a clima esquentou. Nossos corpos esquentaram. Atração e muito desejo. A noite, naquele sábado, não poderia ser esticada. Por mim, tudo bem. Mas ela não havia se programado.  Desejava. Queria. Mas não dava. 

Insisti. Não quis. Preferiu ir para casa de metrô. Tomei meu rumo. Mais uma vez sob chuva. Aquele final de semana havia chovido demais. Em um  dia mais que a média do mês. 

Eu estava me sentindo muito bem. Satisfeito por um encontro de muita libido. Com alguém extremamente agradável e divertida. Haveria mais encontros. E muito, muito papo pelo aplicativo já mencionado.

Nos últimos doze meses conheci umas 4 mulheres por meio destes aplicativos. As três anteriores não foram exatamente do meu agrado. Com uma delas estive mais de alguns dias. Até que declinei.  Das quatro, duas ávidas por ter filhos, um relacionamento duradouro e de conto de fadas. Das duas que sobraram, uma nem vale à pena mencionar. Deixemos qualquer patetismo de lado.  A quarta, a desta noite, é uma outra história. Alguém com riqueza de detalhes. Uma mulher especial para alguém que é sabidamente exigente. 

Houve ainda uma mulher que saí. Uma ex-colega de trabalho. Gente boa. Mas, que coisa. O tempo trabalhar contra ela. Vai ser impossível ter os gêmeos sonhados. Não está fácil convencer os homens a terem filhos. Essas idealizações femininas as levam para tamanha angústia e desespero. Mas isto é um outro assunto. Deixemos de lado por enquanto.

O segundo encontro precisou ser adiado. Gripe e ex-marido ciumento. Desejos guardados. Expressados apenas em palavras. A vida, já disse, não vou repetir. Você sabe como ela é. O imponderável age sem trégua. Que bom que é assim. Tudo quadrado seria chato demais.

Frio. Muito frio. Noite de sábado. Eu, em casa. Ela, em casa. Não houve, já foi dito, o reencontro. Houve este texto. Houve outro texto. Palavras também. Minhas e delas. Ela se dá bem com as palavras. As intenções expressadas. Para quê tantos segredos? Mas sempre há o que se descobrir. E ainda bem que é assim. E como tudo será não é sabido. A maturidade nos faz mais preparados para  o acaso e para as desilusões. 

Frio. A sopa já foi feita. Sorvida. Depois do banho, cama. Calça e blusa. Cobertas. Celular nas mãos. Tablet tocando uma boa música por meio de um aplicativo de vídeos. Por meio de mensagens  o namoro virtual. São as preliminares da atualidade. Sobretudo para as mulheres, uma forma de se soltar e de se conhecer. A telinha quadrada facilita. Depois aguenta o face a face. No início pode dar uma vergonha, algum constrangimento. Depois do primeiro beijo tudo pode melhorar. A temperatura subir. A porta se fechar. A luz se apagar. Ou meia-luz. Melhor assim. Uma música. Uma bebida. Perfumes. Peles. Segredos descobertos...



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

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