A gente vai mudando

domingo, maio 01, 2016 ·

Parece que a vida é um reencontrar-se vez em quando. Isso vem ocorrendo comigo. Reparo como mudei. E como demorei para perceber. De modo a viver errante em certas questões. A maturidade, parece, é a ferramenta para você se entender. Só quando se harmoniza consigo é que  ansiedade e angústia diminuem.

Eu já fui de outro modo. O tipo paquerador. Este blog mesmo retrata algumas aventuras minhas. Já me disseram que eu gostava de fazer números em termos de mulheres. Pois é. O tempo passou. Até eu entender que aquele sujeito paquerador havia morrido demorou. Até eu perceber e reconhecer que já não chamava mais a atenção das mulheres demorou. E foi difícil aceitar. É. Eu não sou mais aquele que encantava e conquistava. Que aonde ia tinha uma paquera. Acalmei. E hoje a mulher que me interessa não é aquela que só tem beleza. Eu prezo pelo comportamento. Pelo nível cultural. Caráter. Prezo muito por tudo isso.

A única mulher que me encanta profundamente hoje é casada. Trabalha comigo. Trata-me com carinho e delicadeza. Eu me encanto. Não tenho como evitar. Mas a respeito. E sei que sendo casada jamais poderia ter qualquer coisa com ela. E espero que ela siga casada e feliz com seu marido. 

Outro dia peguei o carro. Era sábado à noite. Fugia. Procurei o que de fato não queria: uma aventura. Aborreci-me de tanto que dirigi. Extrema dificuldade de chegar ao destino. E quando cheguei, logo resolvi voltar. Foi  uma viagem errada. Estressante. 

Não adianta. Eu não quero mais aventuras. Desejo sentimentos. Não quero gozar, quero amar. Felizmente, a ansiedade se aquietou. Muito em função do que foi dito nos dois primeiros parágrafos. Deixei a maioria das mulheres de lado. Vamos ser sinceros, a maioria não merece atenção alguma. Gente interessante é escassa. 

Deixei de procurar. Se tenho perfil em aplicativos de relacionamentos, a importância que dou a eles é diminuta. Marcar um encontro tornou-se raro. E dos que marquei me arrependi. Mas não radicalizo. Gente interessante também há na internet. O problema é o start. Melhor mesmo é conhecer e se encantar no dia a dia. Por isso, dou mais importância às mulheres do meu mundo real. 

Bauman, filósofo, disse que as pessoas querem estar à disposição. Quanto à mim, quero é não me aborrecer. Toda vez que declino de sair com uma mulher sinto-me aliviado. Refiro-me às que idealizei por algum momento um relacionamento. Das rápidas declinações minhas derivam meu alívio. E das que saí e deixei de lado, o alívio é ainda maior. 

Tenho refletido. Chegado à conclusões. Me interessado cada vez mais por questões da vida. E tenho me tornado cada vez mais solitário. E na solidão vejo a  poesia que me encanta. E ainda assim gosto de estar em meio às pessoas, porém preferencialmente sozinho.

Alguém vai dizer que sou um isolado. Anti-social. Talvez até tenha razão. Os anos vão passando e eu me aborreço. Hoje com 43 anos. Solteiro. Dois empregos. Endividado. E me divertindo com o dia-a-dia. Sim, eu me divirto com a vida. Brinco e rio muito nos meus locais de trabalho. Levo uma vida tranquila. Cumpro as minhas responsabilidades. Tento permanecer o máximo em liberdade possível.

Uma ex-colega de trabalho afirmou que se eu não casara ainda seria por defeito de fabricação. Essa mesma pessoa havia se casado. E se separado. Carrega consigo a expressão profunda da angústia. Segue idealizando e se  decepcionando. Muitas pessoas se equivocam em análises clichês. Melhor deixar modelos prontos para trás. Refletir autenticamente. 

Domingo. Poderia ter iniciado assim o texto. Outono. Noite fria. As últimas ações de um dia de descanso. Obrigações cumpridas. Textos lidos. Algumas pequenas reflexões. A vida sem reflexão não faz sentido. Não vi TV. Nem verei. A TV é demais aborrecedor. Escrevo este texto. Quem sabe um filme depois. Algum papo com uma mulher virtual. E dormir. Dar início à semana logo cedo. Guiar até a Liberdade. Cumprir 6 horas de escala. Depois partir para a Barra Fundo. Cumprir  escala igual. Conduzir até o Tucuruvi, no shopping que leva o mesmo nome. Treinar para melhorar a forma física. Treino para mim.  Partir para casa. Antes de dormir, consumir proteína animal para o crescimento muscular, conforme orientação da minha nutricionista. Aliás, falemos dela...

Recordo-me a primeira vez que entrei em seu consultório. Ela não foi muito simpática. No decorrer da consulta é que melhorou sua comunicação. Um amigo até disse: "vai  ver que ela desconfiava que você seria mais um a não dar continuidade aos trabalhos dela...". Concordei com ele. Fazia  sentido. Mas eu retornei. Sigo retornando. Ela está mais simpática. Até carinhosa. Tem momentos que até charmosa. Casada, diga-se. 

Estou em uma nova academia. Novos ares ajudam na reanimação. Lá também há uma mulher charmosa. De enorme simpatia. Pele linda. Cabelos cumpridos e sempre bonitos. Eu apenas a admiro. Creio mesmo que ela prefira as mulheres. Mas isso é um mecanismo masculino. Precisamos nos encantar. Enfim, mulheres que tenho alguma admiração. Mas não são  a primeira aqui mencionada. Esta, sim, eu teria algo mais. 

Hoje é 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Data em que na zona norte de São Paulo há um evento voltado para os trabalhadores. Nunca participei deste evento. Tampouco quero fazê-lo. Eu não gosto de eventos de grande porte com tanta gente. Sobretudo quando a qualidade da festa é baixa. Prefiro um teatro. Um cinema. Um bar. Um show. Ficar em casa. Fazer o que me for possível dentro das minhas vontades.

Passei pela região onde já se deu a festa. O trânsito estava meio complicado. Rumava para a Vila Mariana. Tratava-se de uma carona dada ao amigo de xícara e de cruz, Alan Davis. Dali, parti para a Saúde. Compraria minha medicação na Ultrafarma. Mas as suas lojas estavam fechadas. O jeito foi fazer a compra na Farmaconde. E assim o fiz. E saí com a mesma impressão que saíra da Ultrafarma em outra ocasião. Impressionante a vocação destas duas empresas para vender. Chega a ser uma patologia capitalista. Até enojante. Mas o preço é bom. E meu dinheiro tem a valia do meu trabalho. Chega de gastar tanto.

Sobre as minhas finanças. Deixemos para outro texto. Há muito que expressar. O texto sempre foi minha ferramenta de terapia. Meu blog é meu divã. Cada um tem seu anti-depressivo. A maioria placebo que alimenta as doenças. Mas isto é para outro texto. Outra noite. Outro domingo...



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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