Desconectar

quarta-feira, abril 13, 2016 ·

A  pessoa me questiona por que não ganho dinheiro com jornalismo. Como se tudo tivesse que render lucros financeiros. Opina que eu deveria ficar menos pobre com meus textos. Não basta escrever? É preciso ganhar dinheiro? Precificar as palavras? Enfim, pessoas originais são difíceis de se encontrar. Não foi àquela mesa que encontrei uma delas...

Era um cinema. Especificamente, um Café daquele cinema de outros cafés. Lá na Augusta. Um espaço que leva o nome do maior banco do Brasil. 

Eu chegara antes. Vestia mais do mesmo. Não estava radiante. Tampouco muito a fim para jogar palavras fora. E ela percebeu tudo. Até meu enfado. 

Já faz tempo. Bastante tempo. Perdi a paciência e interesse para encontros com mulheres da chamada internet. Estou na contra-mão. A ferramenta é cada vez mais usada. Mas me enchi. Prefiro mesmo são as pessoas do meu dia a dia. As mulheres do real.

Há um motivo. Essas mulheres você as conhece aos poucos. Observa. Analisa. Depura. Declina ou não. Já as do  mundo virtual você só conversa, idealiza, se engana. E declina. Quase sempre declina. Coloquei em terceira pessoa, mas expresso minha opinião quanto a mim. Uma visão do meu ponto de vista.

Fosse para sexo por sexo, as virtuais seriam mais interessantes. Seria mais prático. Ir para cama de uma mulher do dia a dia tem um custo: o dia seguinte. Os dias seguintes. Já uma mulher da internet, basta apertar "excluir" e até nunca mais. Se o celular tocar, você não atende. 

"Amor líquido". É o nome do livro. Baumann. Acho que se escreve assim. Filósofo atual. Diz que as pessoas querem permanecer solteiras, à disposição. As relações, observo, são mais sinceras, então.

Pondé diz que a prostituta vale mais à pena. É mais sincera. E mais barata. Bem mais barata.

Eu digo que me aborreci. Perdi a paciência. Mulheres interessantes de fato são raríssimas. A maioria é só a beleza do corpo mesmo. Fiquemos com o corpo.

Um café. Dali, caminhada para o café em frente. Análises feitas de parte a parte. Ela, parece-me, foi mais rápida. Até houve um beijo. Sem graça. Sem graça alguma. Mecânico. 

Pediu-me um texto. Não sei pra quê. Eu teci. Já ensaiara parte dele em casa. Algo cafona, clichê. Troca barata de palavras. Bastou para ser chamado de poeta. Todo mundo é poeta para os não originais.

E as lições daquele encontro. A principal: especialistas podem ser pessoas mortas. Sim, ela não tinha tanta capacidade reflexiva, mas entendia bem da sua tese. Sua melancolia contrastava com suas belas pernas, ainda que escassas. 

A levei para casa. Não para a minha. Apenas a deixei em frente ao seu prédio na região central de Sampa. Eu já bocejava com suas histórias sem graça. Quanto patetismo. Quanto vazio. Dirigi por Sampa. O cansaço batia. Menti para mim e mandei um recado via whatss app para ela. Disse que estava encantado. Errei, deveria ter tido que estava mesmo era enfadado. Agradeceu e avisou que  iria se deitar.

Dia seguinte pediu-me para sermos apenas amigos. Concordei. Não fazia questão de muita coisa. Sigo sempre em frente. A vida pede passagem. Sou prático. 


As últimas três mulheres de internet que conheci. Uma desesperada para engravidar. Absurdamente aborrecida. Outra completamente psicótica. De tal modo que me fez esperar 3h em um shopping. Motivo: se escondia do zelador do prédio. A última já está retratado nos parágrafos acima.

Houve um quarto encontro. Com uma mulher do real. Gente do bem, porém completamente perdida em suas emoções. Desespero para ter filhos é tão grave, que deseja gêmeos já na primeira gestação. Que noite... Que angústia.... Ainda a levei para sua casa, pra lá de Itaquera...

É. Depois reclamam que sou absurdamente seletivo. Como não sê-lo em meio à tanta patologia. Recordo-me ainda das expressões melancólicas de cada uma delas. Não é fácil. Acho que vou desconectar.

Faz tempo tenho dado preferência pelas mulheres que já conheço pessoalmente. Foi o tempo de colecionar números e sair cada vez com uma, sempre beijando, agarrando, e me deitando. A maturidade vem com a idade. O aborrecimento também. Acho que queremos ficar sozinhos não para estar à disposição, mas para não se aborrecer...



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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