Café amargo

quinta-feira, novembro 20, 2014 · 0 comentários

do cult à luxúria

À partir de quando não sei. Sou péssimo em precisar datas. E tal detalhe pouco importa. Sei que deixava uma sobra. Pouca coisa. Não bebia todo o café. Havia dois motivos: a presença do açúcar; a perda da temperatura.

Hoje. Domingo. Tomei três cafés em locais diferentes. O dia não terminou. Segue o domingo. Segue o texto. Os cafés não cessaram.

Declinei do acúcar. Isto se deu há coisa de uma semana. Agora o café é amargo. Sem mascavo. Nem refinado, ou granulado.

Meu irmão mais velho. Pessoa de humor refinado. Provocava-me. Dizia que eu não gostava do café de fato. Para mim, segundo ele, valia o ato, o glamour. O açúcar era o motivo. Ele ensinava. Café, o gosto dele de verdade, deve ser sem açúcar. Eu não concordava. Teimava. Insisita no sabor adocicado.

Mas um açúcareiro desajeitado levou-me ao amargo. Eu o usava ao tomar café em um dos meus trabalhos. Cuidava para não cair uma avalanche de grãos refinados que adoçariam em demasia o copinho de plástico com a bebida preferida. Fui me dando conta de que quanto menos açúcar mais gostoso ficava o café. E fui declinando. Parecia um fumante que deixa o vício aos poucos. Meu vício talvez não fosse a cafeína, talvez fosse o açúcar. Mas isso é mero jogo de palavras. Sou viciado mesmo no ato. Acompanhado. Ou solitário. O café é o que importa.

No domingo em questão creio que sorvi umas cinco xícaras em locais diversos. Eu perigranava por Sampa. Sozinho. Queria glamour. Doses de aventura. Fui do cult à luxúria.

Cinesesc: café e jornal. Bar Monarca: wi-fi e pizza. Espaço Itaú de cinema: café e um documentário. Flerte e sala pouco ocupada. Tudo regado a goles de água. Preciso mais de água do que qualquer outra coisa.

"Sem Pena". Documentário. A respeito da realidade carcerária no Brasil. Atrás das grades pessoas pobres. Muitas sem pena. Sem acesso a advogados. Crimes primários que seriam penalizados com serviços sociais. Atrás das grades o resumo do sentimento dos  donos do poder e capital pelo pobre: desprezo. Absoluto desprezo. Ricos não ficam ali naquelas celas cheias. Ricos têm advogados. A justiça funciona para eles. E os pobres, ironicamente,   são julgados pelos ricos. O Brasil fabrica bandidos. A cadeia é a pós-graduação. Seria mais barato mandar os presos para as faculdades. Quanto aos corruptos, estes roubam muito mais. Não matam diretamente. E se vão presos, em breve vão para a casa. Quanto aos bandidos altamente violentos que matam e tudo mais, ficamos nós à mercê deles. Donos de bancos e empreiteiras, estes não caminham pelas calçadas das cidades à noite depois do trabalho. Seus filhos voltam das faculdades (normalmente públicas) com escolta. Fiquemos nós à mercê de tanta violência.

Sim. "Sem pena" me trouxe mais alimento para as minhas reflexões de um dos assuntos que mais interessa: o sistema carcerário. Mas voltemos ao glamour.

Quase 22h. Caminho pela Augusta, baixo Augusta. Observo.Vejo belas mulheres. Muitos gays e lésbicas. Prostitutas. Novas edificações. Tenho rumo. Rua Nestor Pestana. Local: Kilt. Uma casa de prostituição de luxo. Quero observar. Não estou em busca de corpos para se deitar. Por 66 reais tenho direito a ficar no balcão e tomar um drinque. Escolho um vinho frisante, que é mais fraco. Uma garota de programa me aborda e a conversa não dura nem dois minutos. Deixo claro que não quero seu corpo. Fica mais claro ainda que sua insegurança e falta de assunto me desagradam. Observo. Vejo mulheres dançando. A cor vermelha predomina no ambiente. Muitos homens orientais se encontram no lugar. Um homem acima de 60 anos se distrai com uma garota que veste só um biquíni. Uma bela mulher. Aliás, o local tem belas mulheres, com suas exceções.

Uma prostituta de nome fictício Ellen jurava que havia me confundido. Ela parece atriz. Rosto e corpo perfeito. Leviandade gritante. Desvio de comportamento evidente. Conversamos. Invento que se fosse rico passaria a noite com ela. Não pergunto o valor do programa. Ela vai se trocar e volta. Depois me esquece. E me deixa.

Ana Paula. Belíssima morena. Muito agradável. Conversamos e rimos. Seus olhos negros me encantam. Seu rosto lembra atrizes globais. Ela pede uma bebida e ri das minhas negativas, das desculpas. Não pago o drinque. Ela diz que vai dançar. Pede que a oberve. E a chame caso queira com ela sair. Mais 6 minutos e parto. Pago e sumo. Antes de tomar rumo para casa, um café mal servido no boteco. Caminho até a Repúlica. Um jovem transtornado me aborda. Não dou ouvidos. Depois ouço o barulho do skat contra a banca de jornal. Os gritos e palavrões. Não sei se estava bêbado ou drogado. O que me valia era ir para a casa. Eu estava bem. Muito calmo. Satisfeito pelos cafés que tomei. Pelas doses de  glamour. Pelas mulheres que vi. E pela falta de açúcar.



Virtual para fugir do real

domingo, junho 22, 2014 · 0 comentários

Ouço histórias. As pessoas me contam. Penso em deitá-las aqui. Protelo. Deixo de lado e esqueço. As histórias, como as pessoas, vem e se vão. É assim mesmo.

A vida não é exatamente como a gente quer. E nisso reside parte da sua beleza. Eu, por exemplo, tenho anseios os quais circunstancialmente não é possível dar asas. E não é garantido que um dia poderei realizá-los. Tampouco se ainda terei tais anseios. E se serão apenas estes. Ou outros. Se fosse tudo previsível, seria a vida chata demais. A imprevisibilidade é tempero. Dá um toque de emoção. Angustia, sim. Mas é melhor assim. 

Hoje faz frio. Sigo em Sampa. O dia me seria belo se meu humor estivesse bom. Quando estou assim, bem pouca coisa me agrada. Quase tudo me incomoda. Mas é hoje. Só hoje. "E isso  passa..."


Sigo para o trabalho. Sim, em pleno sábado. A cidade não para. "Sou mais um na multidão". Mas onde eu gostaria de estar agora? De certo, no mesmo lugar que a maioria. Em casa. Sozinho? Sim, hoje assim. Comigo. Mas, e no decorrer do dia? Seguirei com este desejo de solidão? Não sei ao certo. Enfim...

Claro, se você não está bem. Não está agradável. É melhor ficar assim mesmo, só. Evitar. Preservar. E isso vai da importância que você dá ao outro. O cuidado que você tem. A forma delicada como trata a pessoa que gosta. Tem estima e carinho. Gosta de fazer bem a ela. Por isso, preferir estar só muitas vezes pode ser forma de expressar sentimentos. Deixe de lado a angústia.  Qualquer culpa. Sinceridade faz parte. Faz bem.

A temperatura subiu. O humor melhorou. E eu sigo. Você segue. O mundo vai. Palavras mal escritas são trocadas pela internet. Afetividade de fato, real e sincera, é escassa. O que vale é alimentar a virtualidade. Mas cuidado. Abdique de generalizações. Sempre. A internet também é espaço para expressar sentimentos sinceros. Vá com calma.

Tenho lido menos os livros que estão à minha disposição. Sigo lendo. Vagarosamente. A culpa? Dela. Da internet. Embora eu a utilize para ler também. Contudo, dada a carência, esta que é inerente ao ser humano, e absolutamente positiva e necessária, o desejo de falar com o outro se coloca em primeiro plano. E isso acontece quando você nutre carinho e sentimentos, reais e verdadeiros, que o faz querer ter com o outro, mesmo que de modo virtual, distante. Aliás, a distância é um dos maiores alimentos dos romances. Nutre saudades. Desejos. Constrói sentimentos. Tudo, evidentemente, dentro de limites. E isto é tão óbvio, que dizer pode ser desnecessário. Mas não. Melhor dizer. Deixar bem claro. Antecipar-se à crítica.

A temperatura sobe e o humor segue em compasso de melhora. O ser humano é absolutamente circunstancial. Minha cunhada diz que vivo o momento. E não poderia ser diferente. O que viver senão o momento?  Por isso o passado não me importa. O futuro não idealizo. A vida para mim é como disse o escritor, do jeito que é. Não há ninguém no comando. Se somos peças no tabuleiro, quem nos move somos nós mesmos. Melhor deixar a infantilidade de lado e assumir a responsabilidade de si.

Voltando à internet. Que agora também é móvel.  Contribui para que cada vez mais a pessoas vivam ilhadas. Falo de mim. Falo de você. Não é preciso se esconder. Eu sou o outro. Você é o outro. Você e eu somos as mesmas pessoas. E todos somos ilhas. Quanto mais distantes do outro, mais protegido nos sentimos. E o silêncio é cada vez mais no mundo real. O virtual cada vez mais toma conta. Um barulho frenético de palavras desconexas, cujo filtro resulta em quase nada.

Terminei o dia em um bar. Festa de uma amiga em companhia de grandes amigos. Dois deles. Em pleno bairro da Praça da Árvore. Local onde morei antes de retornar para o Tucuruvi. O humor, embora tivesse melhorado, voltou a a incomodar. Nem sempre é bom estar entre tantas pessoas. O desejo pelo regresso era grande. O virtual aliviou o incômodo com o real. Tive cia muito desejada. Queria mesmo que ela estivesse comigo no real. Mas, como foi dito no início, a vida não é exatamente como a gente quer. E nisso reside a sua beleza. Vale repetir. Assim, ela esteve comigo no virtual. Expressou-se por palavras. E se ri, foi ela quem me fez rir. Deixei de lado o que me circundava, sem de fato esquecer e deixar de dar atenção aos dois amigos. Mas ela me ajudou. Virtualmente me ajudou. E fez com que eu fugisse dali sem deixar de estar. Eu, realmente, era ilha. E nesta ilha queria estar a sós apenas com ela...



Amante da liberdade

sábado, janeiro 04, 2014 · 0 comentários

texto escrito em uma noite fria no final de 2013

Regresso. Apenas faço isto. E flerto. Não com alguma mulher, senão com algum tom mais poético. Sou levado por um destes novos coletivos. Muito confortáveis e bonitos. Falta apenas ar-condicionado que traga alívio ao calor em dias quentes. Vão comigo algumas pessoas as quais não conheço. Somos estranhos uns aos outros. Muito provavelmente ninguém gostaria de trocar uma palavra que fosse com qualquer um presente. Eu sou um deles. Faz tempo perdi a paciência para papo furado. Prefiro o silêncio tanto meu quanto alheio. Por favor.

A temperatura nesta cidade varia tanto quanto os humores. Mas quanto a isto há uma diferença: a da previsibilidade. Nós humanos, meramente humanos, somos assim bastante imprevisíveis. E isto é ainda mais corriqueiro nas pessoas que são um pote até aqui de emoções. Falo e sei o que digo. Vivo e vivencio a mim mesmo. Refiro-me sobretudo a um passado cuja distância de pouco importa. Hoje, em termos emotivos, tudo segue mais reto.Que bom. Até quando.

Voltando ao tempo, ao clima. Um tanto frio, mas nem tanto. Bares que vejo pelas ruas que o ônibus passa, da janela, estão cheios. Se a noite estivesse quente como em breve estará, como ontem esteve, mais copos teriam espaços preenchidos pelo líquido destilado. Depois, muitos devidamente alcoolizados, guiariam indevidamente seus veículos. Não que não haja lei. Lei há. Mas não é para todos. É que estamos em uma democracia bastante imperfeita. Parece até um fingimento democrático que se dá no Brasil. Não à toa grupo sai às ruas  e quebra o público e o privado. É a vingança autoritária contra a falsa democracia. É preço pago. Consequência. A violência contra  a população pobre é maior. Deveras maior. Que fazer? Quebrar tudo? 

Se o ônibus passeia por diversas ruas, eu passeio por diversos temas. E misturo. Escrevo. Divago. Como quero. Como gosto. Pode me chamar de amante. Refiro-me à liberdade. Esta que tanto amo. E tanto nos falta. Tolo aquele que poda ainda mais sua liberdade, o que resta dela. Eu já o fiz. E escapei. Pela porta da frente. E saí para a rua. Para a vida. E assim, agora em diante, sigo e seguirei. Errei? Não, aprendi. E nessa aula que a vida me deu aprendi sobretudo a meu respeito, não importando se meu "eu" é fictício ou não. Que seja. E assim for. Aprendamos sobre nosso personagem. A vida ficará mais tranquila deste modo.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
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Adalton César
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