O vírus do vírus

domingo, novembro 17, 2013 · 0 comentários

Por Sandro Luz


Meu irmão me convidou para escrever um breve artigo em um blog que ele mesmo diz que não quer divulgar muito; mesmo assim, por que não escrever? Aceitei o convite. Menos por esperar que leiam do que por querer desabafar um pouco.

Se alguém aqui já viu o filme Zeitgeist Addendum, um documentário sobre a corrupção social humana, patrocinada especialmente pelos Estados Unidos, ou pelo governo americano e seus grandes conglomerados econômicos, irá estabelecer alguma relação com o roteiro do filme e o que direi neste artigo. Digo alguma relação, pois o raciocínio não é o mesmo, já que sou brasileiro e pretendo expor algo de um jeito menos complexo.

Por que o nome “vírus do vírus”? Bem, comecemos por pensar em levantes sociais e suas causas. Um de meus alunos de inglês me disse um dia que uma revolução inicia quando os humildes se sentem humilhados. Ele quis dizer que não existe uma revolução que venha de cima para baixo. Claro que não! Os mais ricos, que detêm o poder, vivem em sua zona de conforto e têm o controle financeiro de uma sociedade. Obviamente, eles não têm pelo que lutar a não ser por si mesmos. Infra-estrutura de saúde, de educação, de moradia e saneamento, trabalho, enfim, eles têm tudo de que necessitam e agradecem a Deus pelo fruto de “seu” trabalho, como se trabalhassem sozinhos e não tivessem funcionários que trabalham até mais do que eles, mas não recebem os mesmos “presentes” de Deus. Daí, as comoções sociais. Há um momento em que um grupo mais articulado resolve reagir àquilo que parece natural para os mais ricos, mas que provoca sofrimento à maioria. Começam a reagir a uma estrutura que não os privilegia, ou que não os reconhece. Sim, os levantes sociais são uma exigência de reconhecimento social, uma luta para sair da invisibilidade.

Nos últimos meses, o Brasil tem sido palco de diversas manifestações de ruas, com certa dose de radicalidade, ainda que não se tratem de uma revolução no termo estrito da palavra. São manifestações que visam à transformação da estrutura política e social do país, mas não são revoluções armadas. Pelo menos, assim entendo. Para os que leram sobre a revolução francesa, sabem que o nosso caso é bem mais brando, digo, as nossas manifestações. A tomada da Bastilha foi sangrenta e poucos foram os nobres que sobreviveram para contar a história a partir de sua ótica opressora. Falando na ótica do opressor, qual seria ela em termos discursivos? Seria mais ou menos o que ouvimos nos noticiários da famigerada rede globo de televisão. Coisas do tipo “vândalos estão depredando o patrimônio público”. Entendam bem que não estou assumindo uma posição a favor da depredação de ônibus e prédios públicos. Porém, vejo que há uma forma simbólica nesses atos de se agredir o Estado agressor. Obviamente que existem os mais comedidos, que levam seus cartazes, e os mais radicais, que depredam prédios públicos.

A mídia, estrategicamente, faz o seguinte: volta a atenção de todos para os componentes do Black Block e outros com comportamento semelhante. Daí, passam a falar de destruição, exibem ônibus em chamas, agências de banco depredadas, etc. Tudo é transformado em um grande espetáculo visual e o principal fica de fora, o porquê desta forma de violência. Com o foco de nossa atenção no Black Block, somos induzidos a continuarmos sem pensar nas razões pelas quais realmente necessitamos de mudanças. Prestem atenção aos prédios públicos! São pobres em geral. As escolas públicas, principalmente as estaduais, parecem presídios, são desconfortáveis e mal equipadas. O transporte público é vergonhosamente ineficaz. Alguém de vocês já utilizou os trens da CPTM? Nem porcos seriam transportados nesses trens em países mais sérios. Sim, o patrimônio público está sendo depredado pelo próprio Estado. A vida dos cidadãos é uma vida depredada pelo fruto da corrupção, da verticalização do poder. As pessoas são subjugadas a um sistema financeiro aterrorizador, que as obriga a produzir para pagar suas dívidas. Dívidas intermináveis, que as mantêm sob controle. 

Os “vândalos” são o que os meios de comunicação precisavam para não revelar o câncer social. Falemos deles e todos ficarão desencorajados a fazer uma revolução. Eles são um vírus. É feio gritar e arrebentar, expor o ódio e a indignação contidos há cinco séculos de negligência administrativa no Brasil. Quem nunca sentiu vontade de quebrar os trens da CPTM, de arrebentar uma maldita porta giratória de um banco, que nos rouba a juros altíssimos pelos empréstimos que faz com um dinheiro que não é dele e ainda nos trata como marginais em suas portas? Medo!... Medo é o que sentem as instituições que mantêm o status de desigualdade irracional em que vivemos. A própria psicanálise fala do superego enquanto instância psíquica que internaliza as normas sociais e oprime o id, nossa instância mais agressiva e natural. Infelizmente, a psicanálise não teve um discurso politicamente forte o bastante para explicar porque existe o domínio dos poderosos. Esta é uma questão sociológica, ideológica, regida pelos grandes conglomerados financeiros, CIA, etc.

Falemos do Black Block, falemos do que eles quebram e assim ignoraremos os reais motivos pelos quais vivemos na merda social, comendo na latrina dos ricos, vivendo para acreditar que ser bem sucedido é poder comprar, fazer dívidas, alimentando, assim, a nossa abelha-rainha, o dinheiro, que, no fundo, sequer existe de fato. Aí está o vírus real!
Esta não é uma realidade brasileira, mas um fenômeno mundial. O Brasil é parte disto. A rede globo é paga para manter o status quo. Afinal de contas, ela deve, como todos nós devemos. Se alguém cortar a raiz do sistema, o marketing desaparecerá, Neymar (a figura, não a pessoa), Barcelona, Ford, Exxon e outros demônios pós-modernos desaparecerão.

Os mecanismos de controle ideológico são sutis e continuarão se aperfeiçoando enquanto for interessante para o pequeno percentual que controla quase toda a riqueza mundial e tem na desigualdade um fator necessário para seguir existindo. É isto mesmo: a desigualdade é fator necessário para a sobrevivência do sistema social em que vivemos. Ela é a grande condição para a perpetuação do capitalismo, do neoliberalismo. Ao se falar dos “vândalos”, não se fala destes detalhes sórdidos. A mídia acompanha tudo e adocica a boca de quem acredita nela. E assim vamos indo. Dá para ser feliz assim? Dá, claro que dá. A felicidade não supõe o torpor do raciocínio. Ninguém precisa ser ingênuo para ser feliz. Mas, ser feliz é mais uma luta por algo justo, do jeito que escolhermos lutar, do que um estado constante de bem-estar. Saber é sofrer, mas é, também, libertar-se, rir sabendo do que e porque se ri. Abraço a todos.

Sandro Luz

Terapeuta e professor de idiomas



Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br