Baldeações e despretensão

quarta-feira, novembro 23, 2011 ·

Não sei se a hora importa ou faz diferença para o leitor. Sei que é manhã e que devo estar em meu destino às 10h. O dia está bonito, faz até sol. Pode ser que alguém diga que o dia frio também pode ser belo. Cada um tem seus próprios olhos e sua alma. “Olhos da alma”.

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Mais uma vez estou num vagão de uma composição ferroviária. Metrô. São Paulo. Tucuruvi a Sé, sentido Barra Funda. Mas o destino final é outro e vai ser necessário utilizar os serviços da CPTM. É o que chamamos de Trem aqui em Sampa. Pegarei sentido Itapevi. Desembarco na Estação Lapa. Depois disto, mais alguns minutos de caminhada. Sigo para mais uma entrevista de emprego. Vou tão despretensioso que isto pode me ser desfavorável. De qualquer forma, visto-me bem. Terno e gravata. Sapato da marca que gosto. Vamos ver o que será. Depois disto é provável que eu visite agências de emprego. Mas deixo aqui uma confissão: o desejo de não ter mais patrão.

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Estou na Linha Vermelha com destino à Barra Funda, conforme eu disse. Este é um trem reformado. O ar condicionado está forte, dá até para sentir frio na mão que segura um dos balaustres do vagão. Se antes havia lotação total, agora já não há tantas pessoas assim. Este trecho de viagem é curto. Sigo tranqüilo. O trem da CPTM acelera. Já, já estou na Lapa. Tudo está tranqüilo e “pelas ordens”.

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Preciso reforçar meu café da manhã. E já o fiz, em verdade. Ocorre que escrevo com interrupções. Que se dão nas baldeações. E antes de pegar um ônibus, posto que declinei de fazer uma caminhada até a empresa onde busco uma vaga, reforcei meu desayuno em uma lanchonete sofrível e com atendimento precário e mal-humorado. No que se refere a atendimento há muito desaviso ainda. Diversos empresários alienados em relação às mudanças do Marketing. E não são apenas pequenas empresas. Muitas gigantes ainda estão em outra Era.

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A entrevista já se deu. Surpreendi-me com a juventude do gerente, bem como com seu entusiasmo. Estive seguro e tranqüilo, mas creio que não serei selecionado. E o motivo é minha formação. E se eu te treino e você depois abandona a empresa para trabalhar com jornalismo? , desafiou-me o gerente. Entendo perfeitamente seu ponto de vista. E até vi a pergunta como um desafio em relação a meu comportamento frente a objeções. De minha parte estou tranqüilo. Volto para casa sem acreditar que uma nova entrevista será marcada.

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Sigo para casa. Antes disso fiz a procura por um padre. Não, não se trata de qualquer padre, senão um ex-colega de trabalho. Gente muito boa que pediu-me que não desaparecesse. Faz alguns anos que não o vejo. Há uma minoria do passado que vale à pena reatar contato.

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A fome já chegou. Vou almoçar em minha casa. À noite tenho um compromisso. Após isto, seguirei rumos afetivos. Terei a companhia de uma mulher muito agradável, que opta por discrição, assim como eu também opto.

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Houve o telefonema. Uma segunda entrevista foi agendada. Refiro-me à empresa a qual fui hoje. Irei com a mesma tranqüilidade. Claro que desta vez mais preparado, posto que algumas perguntas podem se repetir, calculo. E vou mais uma vez despretensioso. Se der certo, deu.

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Já é noite. Mais uma vez me desloco nesta cidade grande. Um compromisso semanal onde exponho minha alma em busca de autoconhecimento. Algo que todos devem fazer. Conhecer-se é preciso. Os caminhos são variados. Cada um escolhe o seu.

(TEXTO SEM FINAL)



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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