Horário de almoço

segunda-feira, outubro 10, 2011 ·

texto escrito em 05 de outubro de 2011


Papel eu tinha. O que não encontrei foi caneta. No máximo, um lápis preto sem ponta, o que não ajudava em nada. Daí que me lembrei do celular. Não é a primeira vez que o utilizo para escrever. Serve bem. E é o que tenho. Assim eu me distraio durante a viagem do trabalho para casa. Mas confesso, escrever não é exatamente o que eu queria. Mas deixemos de lado meu real desejo. Pode ser mera ilusão.

No Centro de São Paulo há inúmeras opções de restaurante. Os preços variam muito. A clientela também. Há locais simples e aqueles mais requintados. Alto luxo, acredito que não exista, embora por aqui trabalhe muita gente endinheirada. Eu, hoje, não escolhi restaurante algum. Trouxe comida de casa. Cardápio simples. Às vezes faço isso. Outros funcionários aqui da empresa lançam mão disto vez em quando. Quanto aos restaurantes, variamos a freqüência.

Eu quis avisar que o dia mudou. Era para ter feito isto no parágrafo anterior. Até tentei, mas desisti de todas as construções. Talvez alguém reclame. Pode ser que o revisor deste texto diga que é melhor fazer de outro modo. De maneira que é como se eu perdesse a autonomia da escrita. Enfim, já não tenho certeza como ficará. Pode ser que fique assim mesmo.

Após o almoço fui até uma livraria. Não é que eu seja um freqüentador assíduo deste tipo de lugar. Só vou quando tenho um livro em mente. Compra certeira. Não namoro livros. A maioria dos que li não foram comprados por mim. E tive a sorte de ser bem orientado nas leituras, que ao longo da minha vida até aqui não foram muitas. Hoje compro livros em função do meu trabalho e dos estudos.

Havia o livro que eu buscava. Mas comprar pelo site custaria vinte reais a menos. Fiquei surpreso. Não sabia desta diferença. De certo, é uma questão de custos. Manter uma loja deve ser muito mais caro do que manter um site. Agradeci a atendente pela atenção e saí em direção a um Café. Eu ainda tinha uns trinta minutos.

Eu observava. Sentia-me literário, inspirado. Sabia que viria um texto posteriormente. Voltei a um restaurante dito bem freqüentado onde o café é muito bom. O atendimento agrada. O preço é justo, está de acordo com a qualidade do serviço. Fiquei ali ao balcão mesmo, não quis me sentar a uma das mesas. Fiz meu pedido e logo busquei meu açúcar preferido. Sobre o balcão, xícaras sujas que o funcionário foi tirando uma a uma. A louça suja se acumulava. Comentei com ele que uma máquina para lavar tudo ia bem. Ele concordou. Eu poderia fazer outra coisa enquanto a máquina trabalhasse. Pensei em sugerir isto para a gerência e desisti no mesmo instante.

Tive dúvida o que faria com os minutos que ainda me restavam. Entrei no Centro Cultural do Banco do Brasil. Li um aviso e uma programação. Olhei ao redor. Cumprimentei uma das funcionárias que não se mostrou muito à vontade com a minha tímida simpatia. Antes de sair reparei firmemente no corpo de uma mulher. Ao ver a aliança de casada em uma de suas mãos abandonei seu corpo. Olhei ainda em seu rosto e vi muita dignidade e seriedade. Não me pareceu o tipo de mulher que traísse o marido. Não que eu tivesse alguma intenção. Apenas fiz a avaliação. Mero intuito. Não importa muito se estou certo ou errado. Pode ser que outro homem tivesse outra impressão. O discurso depende muito da plateia.

Eu tinha algumas moedas no bolso, o suficiente para mais um café. Seria em local simples que frequento. Era coisa de caminhar um pouco e eu já estaria lá. Gastei ainda alguns minutos em frente a uma banca de jornal. Li manchetes. Reparei que o jornal sangrento atraia mais a atenção das demais pessoas que estavam ali. Todos os homens, se não me engano. Vi belas mulheres em capas de revista. Calculei que na vida real o Photoshop é a maquiagem e até o jeans apertado. Nós homens queremos ser enganados. A mulher tem que parecer bela. Compramos o discurso dela. Devo ser machista ao dizer isto.

Cheguei ao Regina’s. Sentei-me e observei. Os atendentes nem repararam a minha presença dada a correria. Havia muita gente. Queria sentar-me junto ao balcão. Esperei vagar uma banqueta e sentei-me. Cumprimentei os rapazes e pedi um café da garrafa. Este é mais barato e vem no copo e em bastante quantidade. Eu tinha tempo ainda e podia tomar calmamente o café enquanto observava. Uma briga lá fora chamou a atenção de todos, inclusive a minha. Piadas a respeito foram feitas. Eu ri levemente. Tomei o último gole, saquei as moedas e fui para o trabalho. Ainda faltavam alguns minutos para o término do horário de almoço. Caminhei tranquilamente. Dividi elevador com outros funcionários. Cada qual foi para seu andar. Eu fui para o meu. Não haveria o que fazer.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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