Cafés por aí e emoções

terça-feira, agosto 23, 2011 · 0 comentários

Caberia mais um café, tão bom estava o papo. Claro, a carência pedia um flerte, mas não era o caso. De qualquer forma, eu a avaliei. Creio que isto seja da natureza. A gente quase sempre observa e julga a beleza do outro. Falamos sobre o SESC e o Centro de São Paulo. Não me lembro se houve outros assuntos. O papo nem foi tão longo assim.



Quando me despedi dela e do funcionário do SESC do Carmo, tive a impressão que ela se desapontou, o que não tenho certeza alguma. Creio que fosse eu quem queria ter conversado mais. Talvez eu fosse um daqueles personagens de cinema que sonha que seu par aparecerá do nada, de repente, sem mais nem menos. Que a vida parece cinema, não tenho dúvida. Mas não se pode esperar muita mágica dela. E isto não é reclamação. Sou do tipo que gosta da vida como ela é, conforme disse o escritor. Claro que às vezes me aborreço.


-
Não perguntei o nome da moça. Aliás, quase não fiz perguntas a ela. Este é um defeito meu. Indago muito pouco. As curiosidades vêm depois. Talvez eu tenha um ritmo e precise de mais tempo numa conversa. Mas é certo que eu deveria me portar mais como jornalista e perguntar mais.


-
Quando ganhei a rua, vibrava não pelo ocorrido, mas pela possibilidade em escrever. Afinal de contas não é todo dia que conversamos num café com alguém que não conhecemos. E já fazia alguns dias que eu não escrevia. De maneira que, no vagão do trem do Metrô, eu tentei por duas vezes um ou dois parágrafos. E não passei disto. Rapidamente, guardei meu pequeno caderno e nem me recordo se busquei alguma leitura. Acredito que não tenha feito, pois a estação final chegara logo. O fato é que demorei a encontrar um banco vazio. Parte da viagem foi em pé. Quando consegui me sentar, optei antes por leitura, que durou muito pouco. E quando tentei escrever, faltavam poucas estações.
-


O tempo passou e este texto ficou guardado. Eu fiz aposta nas lembranças. E agora me vejo traído por elas. Do café mencionado no início do texto, já me recordo muito pouco. Já nem sei o que escrever. Posso dizer que após me despedir, arrependido de minha saída repentina, tomei rumo para a minha casa. E desta noite até o dia de hoje, muitos cafés foram sorvidos. Teve bom encontro com irmão mais velho e mais sábio em Café de bom gosto na Rua São Bento. Café com a amiga em padaria em reforma lá em Moema, num dia em que eu não estava muito bem. E claro, muitos cafés solitários, estes que são em maioria. De lá pra cá, os dias foram se turvando e eu me tornei malabarista de minhas emoções, em que muitas vezes quase caio da corda bamba. Sigo me equilibrando enquanto busco soluções. E confesso que vejo muitos por aí na mesma situação.
-


Hoje o dia me convida para voltar ao SESC DO CARMO e ler mais uma vez as notícias de jornal. Quem sabe um café solitário. Quem sabe reencontro a moça tão educada e agradável do café do primeiro parágrafo. Mais um bom papo e o sentimento de pertencimento. Não, não é interesse sexual nem paixão, não é nada. Só o desejo de me comunicar a contento, o que nos últimos meses vem se deteriorando aos poucos. Mas estou atento e busco soluções. E aguardar é verbo imperativo nesta situação. É o que faço, embora cada vez mais impaciente. Mas essa é a única solução e a mais econômica. Do jeito que dá, sigo em frente. E até escrevo de vez em quando na clara intenção de dissipar sentimentos e emoções.



Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br