Um texto para me acompanhar

terça-feira, junho 21, 2011 ·

Setenta centavos. Nem acreditei que um bloco de nota pudesse ser tão barato. Eu precisava de qualquer tipo de papel em que fosse possível escrever. A atendente entendeu minha necessidade e assim a venda se realizou. Eu queria papel e gastar pouco por isso.
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Da papelaria me dirigi ao ponto de ônibus mais próximo. Eu estava na Voluntários da Pátria, em Santana. Uma rua que já foi repleta de camelôs. A administração Kassab retirou todos dali. A rua até está mais bonita e fácil para transitar pelas calçadas, mas eu sempre me pergunto para onde foram os camelôs, o que eles fizeram de suas vidas.
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Meu rumo não era certo. Sabia que iria à Rua Augusta. Lá, decidiria em qual cinema iria. Poderia ser o CINESESC ou o Espaço Unibanco. Nem mesmo a qual filme pretendia assistir eu sabia. Minha única certeza era o café. O local iria escolher na hora. Quase tudo tão incerto quanto este texto.
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O ônibus demorou a passar. Até que percebi que estava no ponto errado. Feita a correção, não demorou um coletivo que me levasse direto à Augusta. Logo que entrei, sentei-me, puxei o bloco de notas do bolso do blazer e comecei a escrever, coisa que eu não esperava. É que ando descrente da minha criatividade. Uma fase literária de poucos textos.
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Passava pela Augusta e decidi que desceria na altura do 2075. CINESESC foi a escolha. Local que eu ainda não visitara. Até tentei uma vez. E quando o fiz estava acompanhado. Hoje estava só. E já faz tempo que é essa a minha condição. De tal maneira que vou me acostumando.
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Já não tinha mais certeza se o ônibus passaria em frente ao local de destino. Mas isso não era um detalhe tão grave. Se ele não percorresse toda a Augusta e entrasse na Paulista, como desconfiei que pudesse fazer, desceria imediatamente e iria caminhando. Isso se acaso o CINESESC não estivesse tão longe. Do contrário, resolveria o que faria já com os pés na rua. A esta improvisação tento dar o nome de liberdade.
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Demorou a cruzar a Paulista. O trânsito estava carregado na região da Augusta. São Paulo ferve por esses lados. E há pessoas de várias classes sociais, talvez de todas. Mas quanto a isto guardo incertezas. Desconfio mesmo que passear por aqui seja programa das classes médias.
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A primeira vez não é muito fácil. Quando cheguei, o que fiz foi observar, depois de me encantar com o local. Não se tratava de um cinema trivial. A programação ficava em um mural, com as informações sobre os filmes impressas em sulfite branco. Tão simples que duvidei. De repente, na bilheteria o aviso para procurar outro guichê. Contudo, não havia outro guichê. Fiquei meio perdido. Resolvi ir ao Café do cinema. Fui lá e observei apenas. Voltei ao hall de entrada. Eu queria comprar o ingresso, decidir pelo filme.
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Escolhi a sessão seguinte, que seria às 19h, com a exibição do filme árabe “Um a zero”. Confundi-me. Pensei que só tinha dez minutos para um café. Um detalhe que enriqueceria o texto. Eu acreditei no engano. Comprei porções de pães e um café espresso. Após me servir rapidamente, perguntei ao atendente do Café onde ficavam as salas. Ele se mostrou surpreso com a minha opção de já entrar à sala. Mostrou-me o caminho de forma cortês, foi quando aprendi que o CINESESC é feito de sala única.
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Só depois que entrei e me sentei em uma poltrona qualquer é que percebi que ainda faltava uma hora para começar o filme para o qual comprara o direito de assistir. Em verdade, entrei no meio de outra sessão. Percebido o engano, levantei-me e saí da sala. Avisei ao funcionário do meu equívoco. Sentei-me num dos sofás do Café e passei a escrever enquanto aguardava a sessão das 19h.
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Aos poucos foram chegando as pessoas. E o vazio do espaço já não era a realidade que encontrei assim que cheguei. Mas eu não estava tão observador. Quisera estar livre para tanto. Nem sempre observar me é fácil. São as amarras da mente, que para mim estão presentes em muitas pessoas, presas que estão em seu próprio medo. Não é dizer que seja cada um por si, mas sim cada um com medo do outro. A cara amarrada é só proteção. Janela fechada.
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Percebi que escrever era uma forma de não observar, posto que eu não estava à vontade. Talvez faltasse com quem conversar. É possível que eu devesse reconhecer que estar sozinho me incomodava. Com a sala repleta, minha companhia era escrever. Um modo de fugir dali. Manter os olhos no papel. Olhar ao redor vez em quando. E me desagradar com isso.
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Esperei o ônibus deixar a Augusta para voltar a escrever. Eu gosto de observá-la. Era o retorno para casa. O filme me agradou. Paguei apenas quatro reais pelo entretenimento. Pagaria apenas um real se estivesse com a matrícula no SESC em dia, detalhe que logo estará resolvido.
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Desejei esticar a noite. Buscar uma cia. feminina. Conversar. Mas não o fiz. Conheço pouco da noite e não sou de baladas. Escolhi o retorno para casa. Outra vez fiz isso. E nesta opção não estava sozinho. Muitos também iam para casa. Descansar. Refugiar-se. Esquecer um pouco da vida. Curtir um momento de solidão. E enquanto isso a cidade ferve. De noite. De dia. A qualquer hora. E muitos não voltam para casa.




3 comentários:

=^.^=Débora=^.^= disse...
junho 21, 2011  

A solidão num grau maior ou menor atinge à todos. Não se preocupe.

Excelente escolha do filme :)

Leco Vilela disse...
junho 21, 2011  

Como eu te disse no dia do lançamento do livro do Moretti, adoro escrever do gente antigo. Papel e caneta me desafiam a desenhar as letras no papel.

Anônimo disse...
julho 06, 2011  

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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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