"Hi"

quinta-feira, março 03, 2011 ·

Eu retornava. Era a minha segunda vez ali. A rádio estava sintonizada em uma estação erudita. Tocava música clássica. Sentei-me na única cadeira de plástico que havia, até que fui orientado a subir a escada em frente e me acomodar na sala de espera. Havia revistas e livros. Publicações em português e japonês. Sentei no sofá que era muito confortável. Um descendente de orientais estava no mesmo ambiente que eu, mas não nos cumprimentamos. Calculei que teria que esperar a minha vez e que ela demoraria a chegar, o que me aborreceu um pouco. Mas mal cheguei a folhear uma revista e o barbeiro apareceu e chamou um de nós dois. Nem fiz menção em me levantar, posto que o rapaz oriental chegara primeiro que eu. O barbeiro, que mal falava o português, apontou para mim, balbuciando qualquer coisa, indicando que iria me atender prontamente. Achei fantástico. A minha ansiedade fora saciada com a devida brevidade. Desci a escada e sentei-me na poltrona de frente ao espelho.
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Eu ainda não sabia o nome do salão e não seria naquele dia que esse detalhe seria resolvido, embora eu pouco me importe com isto. A preparação para o corte de cabelo seguiu o mesmo ritual de sempre. Toalhas úmidas e quentes. Toalha seca. Um avental azul. E antes disto o convite gentil para me sentar.
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De repente, o barbeiro ficou vacilante. O corte já havia se iniciado. As pontas dos cabelos na parte de cima já tinham sido subtraídas. Na dança da tesoura de lâminas afiadas, a vez agora seria do cabelo na parte de trás e dos lados da cabeça. Quando foi cortar atrás, o barbeiro titubeou. Resmungou. Ensaiou cortar. Mostrou-se indeciso, até indignado. E aí tomou a iniciativa. Meu cabelo estava com creme e precisava ser lavado, o que fez com o ritual inicial de toalhas e avental fosse em vão. Era voltar para o início de tudo. Ele parece-me frustrado com seu “erro”. Era experiência acumulada, pensei comigo. Mais uma lição em mais um corte.
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Dirigi-me ao lavatório. Esta é a parte mais simples do salão, que de luxo não tem nada. Na verdade, ele é sóbrio e muito limpo, além de bem iluminado. É um lugar muito agradável e guarda consigo alguma beleza. E se destaca na qualidade do atendimento. Este é seu maior detalhe. Sentei-me de frente para a pia e curvei-me adiante para que meu cabelo fosse lavado. Não era muito confortável, mas nada que me desagradasse. Pelo contrário, gostava da novidade.
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Agora, sim. Cabelos lavados para que a tesoura voltasse a dançar. A toalha seca foi novamente colocada no pescoço. A música clássica seguia soberana. Ao meu lado, outro cliente. Um senhor japonês, cuidadosamente atendido pela mulher oriental que me abriu a porta do salão naquela tarde de sábado. Dia em que bati melancolicamente o cartão de ponto para nada fazer.
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Ao final do corte, o barbeiro, que aparenta uns cinqüenta anos, perguntou-me se eu queria que ele passasse creme em meus cabelos. Recusei a oferta para talvez enfatizar minha satisfação com o serviço prestado, dizendo que estava bom daquele modo. Levantei-me e antes de pagar confirmei o valor de vinte e cinco reais. Recebi o troco e fui gentilmente direcionado à porta de saída, que é por onde se entra também. A última palavra que ouvi foi “hi”.



1 comentários:

Flavia Arcanjo disse...
março 05, 2011  

Amei! É incrível o quão sensível é a sua alma!

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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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