Reflexões sobre o silêncio aqui

terça-feira, fevereiro 08, 2011 ·

Faz algum tempo que estou sem escrever. Este blog anda silencioso. Eu ando taciturno. Menos observador. O dia-a-dia passa por mim como se não passasse. Estou à deriva dos fatos. Estou neutro. Não intervenho com o olhar. Deixo para lá. Nem mesmo me importo.
-
Será esta uma fase? Será que passa? Ou de onde vieram textos já se esgotou a matéria-prima? Tenho indagações sem respostas. E nem sei se procuro respostas. O fato é que escrever deixou de ser como antes. Quando houve um tempo em que eu reclamava da falta de inspiração e disto fazia um texto. Até que me disseram que eu estava repetitivo. E eu dei atenção à dica. E de modo algum acho que errei ao aceitá-la. Era preciso inovar, eles tinham razão.
-
O tempo passou e eu me calei. Nem mesmo usei de reclamação por falta de inspiração. Eu não podia cair na mesmice. Preferi o silêncio. Mas ele se mostra tão longo que me incomoda. Passou o tempo em que adentrava ao ônibus, ou vagão de trem, escolhia um banco qualquer e me acomodava. Abria a mochila. Puxava caneta papel. E escrevia. Era bom esse tempo. Depois publicava e mandava o texto para as pessoas de meu contato. Vez ou outra ouvia um comentário sobre determinado texto. Era um tempo bom. E falando assim parece que ele está distante. O tempo vai passando.
- -
Às vezes me pergunto se ainda sei escrever. Se eu fosse trabalhar em uma redação se conseguiria escrever. Mesmo que me dessem um tema, eu já cheguei a duvidar da minha competência. Mas esta minha história que agora se escreve com poucas palavras é muito de mim realmente. Essa coisa de duvidar de si. Colocar obstáculo. Acreditar na dificuldade e mergulhar profundamente nela. Isto é meu. Bastante meu. E não será diferente de muitos por aí. O próprio blog explica que eu sou o outro, e no outro eu me vejo. O que quer dizer é que não somos tão diferentes assim.
-
Pode ser que eu escreva agora com a esperança de este texto ser um marco. Que após ele virão muitos outros textos. Mas confesso que não tenho tal pretensão. Eu sei que me tornei circunstancialmente cego, o que me traz esperança, já que é circunstancial.
-
Em algumas crônicas que escrevi, no ato literário, acaso o telefone tocasse, eu mencionava.
Era para dar mais veracidade ao texto. Para trazer o leitor para o meu momento. O telefone tocou há pouco. E, após atender à chamada, tive dificuldade em prosseguir. A única solução foi finalizar o parágrafo em que me encontrava. Iniciar outro, escrevendo a respeito. Mencionar o toque do telefone. E com isso ganhar mais um parágrafo.
-
Vai ser difícil dar um nome para este texto. Acho que vou chamá-lo de “reflexões”. Pois é isto que faço aqui. Reflito sobre o meu silêncio neste blog. E reparto com aqueles que vão ler este texto. E cuja explicação a respeito só terá quem chegar ao final. Quem ler este último parágrafo. Espero que muitos outros venham.



1 comentários:

Daniel Grecco disse...
fevereiro 08, 2011  

Eu vim, cheguei e estou contigo! Mas acho que a vida é um pouco disso mesmo. O negócio é pensar no tempo de infância e trazer para o dia na medida do possível. Criança não tem medida e para se conquistar é só assim, mano. Ao chegar no objetivo, o espírito infantil deverá continuar no cara. Senão ele perde tudo e volta a ser adulto... Pode não! Grande abraço!

Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br