Baldeações e despretensão

quarta-feira, novembro 23, 2011 · 0 comentários

Não sei se a hora importa ou faz diferença para o leitor. Sei que é manhã e que devo estar em meu destino às 10h. O dia está bonito, faz até sol. Pode ser que alguém diga que o dia frio também pode ser belo. Cada um tem seus próprios olhos e sua alma. “Olhos da alma”.

-

Mais uma vez estou num vagão de uma composição ferroviária. Metrô. São Paulo. Tucuruvi a Sé, sentido Barra Funda. Mas o destino final é outro e vai ser necessário utilizar os serviços da CPTM. É o que chamamos de Trem aqui em Sampa. Pegarei sentido Itapevi. Desembarco na Estação Lapa. Depois disto, mais alguns minutos de caminhada. Sigo para mais uma entrevista de emprego. Vou tão despretensioso que isto pode me ser desfavorável. De qualquer forma, visto-me bem. Terno e gravata. Sapato da marca que gosto. Vamos ver o que será. Depois disto é provável que eu visite agências de emprego. Mas deixo aqui uma confissão: o desejo de não ter mais patrão.

-

Estou na Linha Vermelha com destino à Barra Funda, conforme eu disse. Este é um trem reformado. O ar condicionado está forte, dá até para sentir frio na mão que segura um dos balaustres do vagão. Se antes havia lotação total, agora já não há tantas pessoas assim. Este trecho de viagem é curto. Sigo tranqüilo. O trem da CPTM acelera. Já, já estou na Lapa. Tudo está tranqüilo e “pelas ordens”.

-

Preciso reforçar meu café da manhã. E já o fiz, em verdade. Ocorre que escrevo com interrupções. Que se dão nas baldeações. E antes de pegar um ônibus, posto que declinei de fazer uma caminhada até a empresa onde busco uma vaga, reforcei meu desayuno em uma lanchonete sofrível e com atendimento precário e mal-humorado. No que se refere a atendimento há muito desaviso ainda. Diversos empresários alienados em relação às mudanças do Marketing. E não são apenas pequenas empresas. Muitas gigantes ainda estão em outra Era.

-

A entrevista já se deu. Surpreendi-me com a juventude do gerente, bem como com seu entusiasmo. Estive seguro e tranqüilo, mas creio que não serei selecionado. E o motivo é minha formação. E se eu te treino e você depois abandona a empresa para trabalhar com jornalismo? , desafiou-me o gerente. Entendo perfeitamente seu ponto de vista. E até vi a pergunta como um desafio em relação a meu comportamento frente a objeções. De minha parte estou tranqüilo. Volto para casa sem acreditar que uma nova entrevista será marcada.

-

Sigo para casa. Antes disso fiz a procura por um padre. Não, não se trata de qualquer padre, senão um ex-colega de trabalho. Gente muito boa que pediu-me que não desaparecesse. Faz alguns anos que não o vejo. Há uma minoria do passado que vale à pena reatar contato.

-

A fome já chegou. Vou almoçar em minha casa. À noite tenho um compromisso. Após isto, seguirei rumos afetivos. Terei a companhia de uma mulher muito agradável, que opta por discrição, assim como eu também opto.

-

Houve o telefonema. Uma segunda entrevista foi agendada. Refiro-me à empresa a qual fui hoje. Irei com a mesma tranqüilidade. Claro que desta vez mais preparado, posto que algumas perguntas podem se repetir, calculo. E vou mais uma vez despretensioso. Se der certo, deu.

https://mail.google.com/mail/images/cleardot.gif-

Já é noite. Mais uma vez me desloco nesta cidade grande. Um compromisso semanal onde exponho minha alma em busca de autoconhecimento. Algo que todos devem fazer. Conhecer-se é preciso. Os caminhos são variados. Cada um escolhe o seu.

(TEXTO SEM FINAL)



Olhar e decisão

quarta-feira, novembro 16, 2011 · 0 comentários

esquina da São João com a Ipiranga

Deixemos o espaço vazio. Não há mais ninguém. Não há mesas, garrafas ou copos. Silêncio de imagens. Vazio total. Nenhum burburinho. Tudo por um ou dois segundos. Exato instante da duração do olhar. Um vestido e pernas grossas à mostra. Classe e elegância. Assim que a viu entrar decidiu que a teria. Olhar e conclusão.

As horas foram passando e ele tramando. Precisava tirá-la dali. Banda tocando e pessoas dançando. Bebidas sendo servidas. Porções consumidas. Fotos. Noite, sábado e calor. Esquina da São João com a Ipiranga. Bar tradicional de São Paulo. -

Café na balada? Questionou-lhe o garçom de modo deselegante. Mas isso foi em outra noite, outro local, pessoas diferentes. Ali no Bar Brahma havia café e ele sabia disto. Não que fosse freqüentador assíduo, apenas estivera ali em certa tarde e tomara solitariamente um café. -

Você me acompanha em um café, perguntou-lhe delicadamente. Foi o modo que encontrou de ficar a sós com ela. Dali para outro ambiente. Agora era ele e ela, duas xícaras e carinho numa das mãos. Beijo na mesma mão. Encontro de lábios na sequência. Beijo curto. Contas pagas. Mãos dadas e Metrô. Mais café. Vinho. Risadas e noite adentro. Fechemos os olhos e respeitemos o encontro de dois corpos.



Sons de uma noite na metrópole

domingo, outubro 23, 2011 · 0 comentários

Ouço o som do despertador. Canção das horas que me agrada. Há outros sons. Do avião que passa. Da moto ao longe. De um portão que eu não sei abre ou fecha. Do alarme do carro. Do trânsito na avenida lá embaixo. São os indícios de que há vidas. Gente que ainda não dorme. Que retorna para casa ou segue para o trabalho, já que a cidade não para. E dessas pessoas pra lá e pra cá o que se tem de poético é cada uma delas com sua própria realidade, o que faz a realidade mais bela.

Os sons ainda prosseguem. As noites têm suas próprias canções. Digo no plural, pois cada canto deste mundo produz sons os mais variados. Basta você dormir em uma cidade pequena e sua experiência será diferente. Vale à pena fazer isto.

Eu imagino as pessoas que dormem lá no Centro. Refiro-me a São Paulo. Uma população de moradores de rua. Que canção da noite eles ouvem? Nas ruas do Centro Velho de São Paulo, por onde não passam carros, o silêncio impera. A esta hora ninguém passa por ali, a não ser aqueles que habitam essas ruas de pedra. Para alguns que se deitam sobre o chão e se protegem do frio com cobertores doados, o único som é o que vem da própria mente.

A madrugada já teve início. Sigo acordado, mas não é por insônia. Eu poderia estar preocupado com um fato ocorrido, mas sigo tranqüilo, mesmo incerto de como as coisas se resolverão. Olho para a vida e vejo que o centro do mundo não pode ser os nossos problemas, que muitas vezes são soluções disfarçadas.

Utilizo uma vez mais o celular para escrever. E o faço no escuro. São os tempos. Com aparelho mais avançado, eu poderia enviar o texto para revisão ao término da escrita. Não vai demorar, poderei fazer isto.

Os sons da noite prosseguem na metrópole. Eles se repetem. Não exatamente de modo igual. O único som que se mantém o mesmo desde o início deste texto é o tic-tac do relógio, que vez em quando eu nem me dou conta...



Horário de almoço

segunda-feira, outubro 10, 2011 · 0 comentários

texto escrito em 05 de outubro de 2011


Papel eu tinha. O que não encontrei foi caneta. No máximo, um lápis preto sem ponta, o que não ajudava em nada. Daí que me lembrei do celular. Não é a primeira vez que o utilizo para escrever. Serve bem. E é o que tenho. Assim eu me distraio durante a viagem do trabalho para casa. Mas confesso, escrever não é exatamente o que eu queria. Mas deixemos de lado meu real desejo. Pode ser mera ilusão.

No Centro de São Paulo há inúmeras opções de restaurante. Os preços variam muito. A clientela também. Há locais simples e aqueles mais requintados. Alto luxo, acredito que não exista, embora por aqui trabalhe muita gente endinheirada. Eu, hoje, não escolhi restaurante algum. Trouxe comida de casa. Cardápio simples. Às vezes faço isso. Outros funcionários aqui da empresa lançam mão disto vez em quando. Quanto aos restaurantes, variamos a freqüência.

Eu quis avisar que o dia mudou. Era para ter feito isto no parágrafo anterior. Até tentei, mas desisti de todas as construções. Talvez alguém reclame. Pode ser que o revisor deste texto diga que é melhor fazer de outro modo. De maneira que é como se eu perdesse a autonomia da escrita. Enfim, já não tenho certeza como ficará. Pode ser que fique assim mesmo.

Após o almoço fui até uma livraria. Não é que eu seja um freqüentador assíduo deste tipo de lugar. Só vou quando tenho um livro em mente. Compra certeira. Não namoro livros. A maioria dos que li não foram comprados por mim. E tive a sorte de ser bem orientado nas leituras, que ao longo da minha vida até aqui não foram muitas. Hoje compro livros em função do meu trabalho e dos estudos.

Havia o livro que eu buscava. Mas comprar pelo site custaria vinte reais a menos. Fiquei surpreso. Não sabia desta diferença. De certo, é uma questão de custos. Manter uma loja deve ser muito mais caro do que manter um site. Agradeci a atendente pela atenção e saí em direção a um Café. Eu ainda tinha uns trinta minutos.

Eu observava. Sentia-me literário, inspirado. Sabia que viria um texto posteriormente. Voltei a um restaurante dito bem freqüentado onde o café é muito bom. O atendimento agrada. O preço é justo, está de acordo com a qualidade do serviço. Fiquei ali ao balcão mesmo, não quis me sentar a uma das mesas. Fiz meu pedido e logo busquei meu açúcar preferido. Sobre o balcão, xícaras sujas que o funcionário foi tirando uma a uma. A louça suja se acumulava. Comentei com ele que uma máquina para lavar tudo ia bem. Ele concordou. Eu poderia fazer outra coisa enquanto a máquina trabalhasse. Pensei em sugerir isto para a gerência e desisti no mesmo instante.

Tive dúvida o que faria com os minutos que ainda me restavam. Entrei no Centro Cultural do Banco do Brasil. Li um aviso e uma programação. Olhei ao redor. Cumprimentei uma das funcionárias que não se mostrou muito à vontade com a minha tímida simpatia. Antes de sair reparei firmemente no corpo de uma mulher. Ao ver a aliança de casada em uma de suas mãos abandonei seu corpo. Olhei ainda em seu rosto e vi muita dignidade e seriedade. Não me pareceu o tipo de mulher que traísse o marido. Não que eu tivesse alguma intenção. Apenas fiz a avaliação. Mero intuito. Não importa muito se estou certo ou errado. Pode ser que outro homem tivesse outra impressão. O discurso depende muito da plateia.

Eu tinha algumas moedas no bolso, o suficiente para mais um café. Seria em local simples que frequento. Era coisa de caminhar um pouco e eu já estaria lá. Gastei ainda alguns minutos em frente a uma banca de jornal. Li manchetes. Reparei que o jornal sangrento atraia mais a atenção das demais pessoas que estavam ali. Todos os homens, se não me engano. Vi belas mulheres em capas de revista. Calculei que na vida real o Photoshop é a maquiagem e até o jeans apertado. Nós homens queremos ser enganados. A mulher tem que parecer bela. Compramos o discurso dela. Devo ser machista ao dizer isto.

Cheguei ao Regina’s. Sentei-me e observei. Os atendentes nem repararam a minha presença dada a correria. Havia muita gente. Queria sentar-me junto ao balcão. Esperei vagar uma banqueta e sentei-me. Cumprimentei os rapazes e pedi um café da garrafa. Este é mais barato e vem no copo e em bastante quantidade. Eu tinha tempo ainda e podia tomar calmamente o café enquanto observava. Uma briga lá fora chamou a atenção de todos, inclusive a minha. Piadas a respeito foram feitas. Eu ri levemente. Tomei o último gole, saquei as moedas e fui para o trabalho. Ainda faltavam alguns minutos para o término do horário de almoço. Caminhei tranquilamente. Dividi elevador com outros funcionários. Cada qual foi para seu andar. Eu fui para o meu. Não haveria o que fazer.



Movidos pela carência

segunda-feira, outubro 03, 2011 · 0 comentários

Eu estava ao telefone público, que eu e muitos chamamos de “orelhão”. A carência me fazia estar ali. Ela que é causa de muitos atos, os mais diferentes, como escrever, por exemplo. Eu olhava para uma garota de programa e a achava bela. Gostava do seu corpo e sorriso. Liga pra mim, disse ela com simpatia e sem originalidade. Eu apenas sorri e desejei conquistar seu corpo sem ter que pagar. Muitos homens tem essa fantasia. Coisas do ego.Influências. Outros precisam mesmo é pagar. Conheço o caso de homem que tem uma mulher cujo sangue ferve por sexo, mas prefere as ditas mulheres da vida, com a esposa o sexo é escasso. E ela se entrega a ele vez em quando premida pela necessidade. Preferia alguém que amasse.


Aqui um conflito. A mulher a que me refiro invade o texto e ameaça tornar-se tema central. Ela que visita meus pensamentos nos momentos em que o que me restam são lembranças. Quando o que se tem é só o passado. E agora ela resolve invadir o texto e me deixar confuso, de maneira que perdi o rumo. E agora?


Não consegui falar com o amigo. Em nenhuma das opções de números ele me atendeu. A garota de programa sumira. Resolvi deixar o local. Eu acabara de tomar uma Sminorffice e um café na Santa Tereza, tradicional padaria do Centro de São Paulo.


Caminhei vagarosamente até a estação Sé do Metrô. Estava inquieto. As emoções em mim se manifestavam. Felizmente a semana de trabalho terminava. Mas eu não ia para casa. Ainda tinha um compromisso comigo. Algo que é o novo para mim e me faz bem. Algo que eu preciso e que falarei a respeito em outra ocasião, quando for o caso, se for o caso.


A mulher que mencionei invadir este texto segue por aí com a sua realidade. Sua vida. Suas angústias e sofrimentos. Tem seus momentos de alegrias também. Sei pouco dela. E se um dia a decifrei como mulher o mesmo não fiz com sua alma. Talvez porque eu não pudesse ou porque não seja possível fazê-lo. Não sei ao certo.


Alguns dias se passaram e eu volto a este texto. Não sou o mesmo dos primeiros parágrafos. As emoções se aquietaram. Angústias calaram-se. Medos silenciaram. Exageros deixados de lado. Muitos reparos a serem feitos ainda, mas é preciso tempo e paciência.


Hoje estamos sem internet no trabalho, o que me agrada. Tudo parece que fica mais calmo. Menos informação, menos ansiedade. Já percebi que é preciso tomar cuidado com o excesso de informação e comunicação. Redes sociais, e-mails, blogues, mensagens instantâneas, celular, entre tantos outros modos de se conectar. Desconectar é preciso.


Queria um café agora. Estou no sexto andar. Dá vontade de descer e ir ao Regina’s tomar um espresso. O café não é bom, nem há glamour, mas o pessoal de lá me trata bem. Sinto-me à vontade no local. O cliente não quer apenas o produto, preço justo e glamour. Quer afetividade também. As empresas que conseguirem juntar tudo isto estarão na frente. É preciso atender às carências dos clientes, sobretudo as afetivas.


O texto deu volta. Consegui voltar ao tema central. A carência ainda me acompanha. E isto para mim é bom, é combustível. Tenho trocado mensagens com a mulher que invadiu este texto e depois saiu. Palavras de carinho e sabedoria. Somos sinceros um com o outro. Contamos nossas realidades. Ela é uma boa pessoa.


Uma mulher confessou-me que não tem nenhuma história de amor para contar. Esta é sua maior frustração. Ela tem sucesso profissional. É uma ótima pessoa. Excelente amiga. Mas carrega consigo esta dor. São as realidades de cada um. Todos temos nossos anseios e frustrações. Cada um lida de um modo. O olhar que damos aos problemas é muito importante. Este ensinamento não é meu.


Ela passou pelo saguão do prédio. Reparei lascivamente nela. Deu bom dia apenas ao porteiro. Fiquei apenas olhando. Desejo e carência. Um combustível do outro. Ela foi até o segundo andar. Sei quase nada dela. Apenas onde trabalha e costuma tomar seu café. Já pegamos elevador juntos e dei “bom dia”. Ela respondeu com pouca vontade. Olhou-se no espelho. Enquanto isso, eu reparava nela, que mexeu os cabelos antes de deixar o elevador. Ela não ficou muito nos meus pensamentos. Tem sido assim. Creio que seja o tamanho da cidade. Muita gente. Vejo outras mulheres e o interesse pela outra fica apenas guardado. Quem quer ser conquistado precisa estar presente, aparecer, se comunicar.


Já fui um cara conquistador. Não de ter várias mulheres. De certo, porque sempre busquei as que tinham interesse por mim. Sempre trabalhei com margem baixa de risco. De modo que foram poucos “foras”. Sempre me protegi. Não gosto da rejeição. Não estou só neste modo de ser. Como já disse, os seres humanos são muito parecidos.


Um bom professor da faculdade de Jornalismo ensinava que o ser humano é circunstancial. Um grande amigo tem um blog com este nome. As coisas mudam. Para melhor ou para pior. Circunstancialmente, não estou um cara paquerador. No preparo do meu jardim, muitas ervas-daninhas apareceram. As portas de saída já foram abertas.


Tenho tomado mais café. Gosto de pagar por isso. Meu irmão diz que não é a bebida que me atrai, mas o glamour. Ele pode ter razão. Consumir tem isso. Não é o produto que nos interessa de fato, mas o que ele nos proporciona.


Será que para entender o ser humano é preciso estudar Marketing? Afinal de contas, somos, acima de cidadãos, consumidores. E somos vistos por este prisma pelas empresas e pelo governo. A inclusão tem sido calculada pelo número de pessoas que adentram ao mercado consumidor e o aumento de suas rendas. Fala-se muito na nova classe C que tanto consome. A sociedade em que vivemos é de consumo. Você tem que se esforçar para não ser um consumidor fracassado. Mas, claro, nem todos ligam pra isso. Serão eles mais felizes? Não sei. Também não sei se são menos felizes as pessoas alienadas que fazem tudo igual. Mas eu ainda acredito que os que tentam viver de forma original são mais felizes e mais livres. O problema é saber se essa tal originalidade existe de fato.



Cafés por aí e emoções

terça-feira, agosto 23, 2011 · 0 comentários

Caberia mais um café, tão bom estava o papo. Claro, a carência pedia um flerte, mas não era o caso. De qualquer forma, eu a avaliei. Creio que isto seja da natureza. A gente quase sempre observa e julga a beleza do outro. Falamos sobre o SESC e o Centro de São Paulo. Não me lembro se houve outros assuntos. O papo nem foi tão longo assim.



Quando me despedi dela e do funcionário do SESC do Carmo, tive a impressão que ela se desapontou, o que não tenho certeza alguma. Creio que fosse eu quem queria ter conversado mais. Talvez eu fosse um daqueles personagens de cinema que sonha que seu par aparecerá do nada, de repente, sem mais nem menos. Que a vida parece cinema, não tenho dúvida. Mas não se pode esperar muita mágica dela. E isto não é reclamação. Sou do tipo que gosta da vida como ela é, conforme disse o escritor. Claro que às vezes me aborreço.


-
Não perguntei o nome da moça. Aliás, quase não fiz perguntas a ela. Este é um defeito meu. Indago muito pouco. As curiosidades vêm depois. Talvez eu tenha um ritmo e precise de mais tempo numa conversa. Mas é certo que eu deveria me portar mais como jornalista e perguntar mais.


-
Quando ganhei a rua, vibrava não pelo ocorrido, mas pela possibilidade em escrever. Afinal de contas não é todo dia que conversamos num café com alguém que não conhecemos. E já fazia alguns dias que eu não escrevia. De maneira que, no vagão do trem do Metrô, eu tentei por duas vezes um ou dois parágrafos. E não passei disto. Rapidamente, guardei meu pequeno caderno e nem me recordo se busquei alguma leitura. Acredito que não tenha feito, pois a estação final chegara logo. O fato é que demorei a encontrar um banco vazio. Parte da viagem foi em pé. Quando consegui me sentar, optei antes por leitura, que durou muito pouco. E quando tentei escrever, faltavam poucas estações.
-


O tempo passou e este texto ficou guardado. Eu fiz aposta nas lembranças. E agora me vejo traído por elas. Do café mencionado no início do texto, já me recordo muito pouco. Já nem sei o que escrever. Posso dizer que após me despedir, arrependido de minha saída repentina, tomei rumo para a minha casa. E desta noite até o dia de hoje, muitos cafés foram sorvidos. Teve bom encontro com irmão mais velho e mais sábio em Café de bom gosto na Rua São Bento. Café com a amiga em padaria em reforma lá em Moema, num dia em que eu não estava muito bem. E claro, muitos cafés solitários, estes que são em maioria. De lá pra cá, os dias foram se turvando e eu me tornei malabarista de minhas emoções, em que muitas vezes quase caio da corda bamba. Sigo me equilibrando enquanto busco soluções. E confesso que vejo muitos por aí na mesma situação.
-


Hoje o dia me convida para voltar ao SESC DO CARMO e ler mais uma vez as notícias de jornal. Quem sabe um café solitário. Quem sabe reencontro a moça tão educada e agradável do café do primeiro parágrafo. Mais um bom papo e o sentimento de pertencimento. Não, não é interesse sexual nem paixão, não é nada. Só o desejo de me comunicar a contento, o que nos últimos meses vem se deteriorando aos poucos. Mas estou atento e busco soluções. E aguardar é verbo imperativo nesta situação. É o que faço, embora cada vez mais impaciente. Mas essa é a única solução e a mais econômica. Do jeito que dá, sigo em frente. E até escrevo de vez em quando na clara intenção de dissipar sentimentos e emoções.



Restaurante SESC do Carmo

sexta-feira, julho 29, 2011 · 2 comentários

A fila vai depender do horário em que você chegar. Quando vou sozinho, chego 12h50min. Se vou com companheiros de trabalho, chego dez minutos mais tarde. Pego a bandeja e os talheres e vou para o final de uma das duas filas. A existência de duas filas tem lógica. Numa, você vai direto para os pratos quentes. Na outra, você pega salada, sobremesa e depois o prato quente. De qualquer forma, esta organização não é totalmente respeitada. Se você está na fila da salada, pode ser que alguém da outra fila peça licença e coloque em sua bandeja a salada e a sobremesa.


Nunca vi o salão vazio na hora do almoço. E já houve vezes de encontrá-lo repleto de gente, a ponto de ter de esperar mais talheres, pois não havia. Mas esta lacuna no atendimento foi rapidamente resolvida.


Saladas, sobremesas e bebidas, você mesmo pega. Já os pratos quentes, funcionários do SESC abastecem um prato a seu gosto e você o coloca na bandeja. A delicadeza do procedimento vai depender do funcionário, vai de cada um. Mas o trabalho deles é pesado, portanto manter o bom humor não é tarefa muito fácil. Melhor fazer seu pedido e não tentar muita intimidade.


Arroz branco ou integral. Quer feijão? Pegue uma cumbuca. Escolha entre as opções: carne, frango ou peixe. Vai depender do dia. Um legume ou verdura para acompanhar sempre tem. Dependendo do prato, pode ter uma farofa, por exemplo. E há dias que tem deliciosa feijoada, com água-ardente e cravo da Índia como ingredientes.


Hoje comi contra-filet ao molho provençal. Creme de milho. Arroz integral. A salada era formada pela dupla escarola e soja torrada. Temperei com uma boa pimenta que fica à disposição e com os temperos comuns de salada.


Da fila da bandeja, você vai para outra que é a do caixa. Ali, o funcionário pode se constranger ao olhar para os pratos dos clientes. Mas isto vai depender de como ele se relaciona com isto. Pode ser que nem ligue, já esteja acostumado. Eu mesmo não senti ninguém constrangido por olhar o meu prato. E pode até ser que algum cliente fique contrariado em ter alguém verificando o que ele vai comer. Tal prática é feita para que seja registrado na sua carteirinha tudo que você escolheu para comer. O pagamento é o último ato, vem depois que você já comeu.


Do caixa, você adentra ao refeitório, que é um belo salão com música de boa qualidade no ar. Quem for tímido não volta mais, pois é preciso chegar com delicadeza em uma das mesas e pedir licença, pois você vai se sentar com desconhecidos. Hoje mesmo sentei-me à mesa com alguns africanos, que conversavam em seu idioma natal. Se me xingavam, não faço ideia. Ocorre que tenho curiosidade em relação a eles e gostaria de saber um pouco de suas histórias. Talvez eu devesse aprender o idioma deles, mas isso tem cara de devaneio.
Embora tudo seja rápido no SESC, não há aquela pressão de fast-food para que você coma e suma da loja. Ali, você de fato vai comer e em seguida ir embora. Mas o fará tranquilamente em ambiente agradável e muito limpo, bem como organizado.
Você come, pega a sua bandeja e a leva até uma esteira, onde ela é recolhida para ser lavada pelas máquinas. O lixo você deixa nos cestos apropriados. Papel e plástico em outros, e assim por diante.


Agora é a fila do caixa. Felizmente, ela é rápida. O preço pode surpreendê-lo. Vai depender de que categoria você se encontra. Se for comerciário devidamente matriculado, você vai pagar pouco. Eu paguei R$ 5,90, incluindo um café.


O espresso você toma depois que pagar seu almoço. Do caixa, dá para ir direto para o Café, que é bem pequeno e simples. E é preciso atravessar a enorme fila para o almoço que já se formou desde que você chegou. A logística no restaurante e café do SESC do Carmo não é perfeita, mas funciona bem.
Não dá tempo para ler um jornal. Se você tem 1h de almoço, boa parte do tempo já se foi. Para mim, sobram sempre alguns minutos para caminhar até a empresa onde trabalho, que fica a dez minutos. Portanto, não é possível ao menos ler as manchetes dos jornais. Fica sempre para outra hora. À noite, quem sabe. E aí é possível saborear uma deliciosa sopa e tomar mais um cafezinho, vai ao gosto de cada um.





Serviço


rua do Carmo, 147
Centro
São Paulo - SP
cep 01019-020




segunda a sexta, das 9h às 20h



Sesc do Carmo e duas viagens de volta

sexta-feira, julho 08, 2011 · 0 comentários

Cará. Calabresa. Milho. E condimentos. Sopa camponesa. Preço para matriculado no SESC: R$ 2,70. Eu estava na unidade do Carmo. Havia cremes como opções também. A escolha se deu durante a fila, que era feita de pessoas simples em sua maioria, o que para mim torna o ambiente mais interessante. Ali, muitos personagens de cinema, senão todos. Eu, inclusive.

A sopa acompanhava torradas. Eu até me arrependera da minha escolha, mas experimentar implica riscos. Ao término do prato, resolvi tomar um café. Ainda na fila do caixa, vi o sujeito ser chamado de volta. A funcionária duvidou que ele tivesse pago. Mas o rapaz tinha o comprovante, o que o livrou da acusação. Os comentários posteriores foram que ele já saiu sem pagar uma vez. Eu ouvia com curiosidade. Para azar dela, o sujeito voltou e pareceu ter ouvido o que era dito a respeito dele. Ficou bravo. Esbravejou. “Cuidado com seu olho!”. Alguém sugeriu que chamassem o segurança por precaução, o que não careceu. Calculei que naquele lugar fossem comuns problemas deste tipo. Mas pode ser uma visão estereotipada de minha parte. Posso estar errado.

No Café, não tive um atendimento que me encantasse. Já me acostumei. Alguns funcionários do SESC são assim e destoam do lugar. Mas é bom deixar claro que as diferentes unidades têm como regra atender bem. Ainda não sei dizer por que algumas vezes isso não ocorre.

Agradeci o café e não me recordo se o rapaz respondeu. Detalhe que perdi. Eu já lera o jornal no andar de cima, na sala de jogos e leitura. É estranho que jogar e ler estejam no mesmo ambiente. Mas eu calculo que isso seja para beneficiar os inúmeros aposentados que vão ali se divertir e se informar. Ainda assim, preferiria os jornais na biblioteca, onde ficam as revistas e há conforto e silêncio.

Parti em direção ao meu refúgio, que é minha casa. Caminhei tranquilamente pela Rua do Carmo. Local sem beleza e com ares de abandono. Mas não é bem assim, o Estado está presente. Há um Poupa Tempo bem na esquina. Antes dele existe um prédio que teve sua construção abandonada. Inúmeras famílias ocupam o lugar. É possível ver as pessoas entrando e saindo pelo o que era para ser um estacionamento. Crianças brincam na rua. Homens jogam cartas. Há um bar logo adiante. Chama-se “Meu Cantinho”. Verifico se é possível estar ali com amigos. Não chego a conclusão alguma. A praça adiante me disseram que é a Clóvis. Não confiei muito na informação. É mal iluminada e dá sensação de insegurança. Um pipoqueiro ilumina o local com seu carrinho. Próximo à avenida, mais adiante, há uma banca no escuro. Já passou pela minha cabeça que ela pudesse ter sido assaltada várias vezes. Só vi policiamento ali uma vez e foi de dia. Sempre me causou estranheza a banca no escuro. Do outro lado da avenida fica a Praça da Sé, que é repleta de policiais, inclusive possui um posto da Guarda Municipal.

Já estive outras vezes no SESC do Carmo. Já tomei outras sopas. Jantei, até. Almocei. E sempre observei. É gostoso ver a diversidade de pessoas que vão ali. Causa-me curiosidade em ver tantos africanos no local, como se fosse um ponto de encontro deles, e pode ser que realmente o seja. Um dia ficarei sabendo, não tenho pressa.

Também já escrevi outro texto sobre este lugar, mas não gostei e desisti de publicá-lo. Isto após ter enviado para revisão, obtendo como resposta o pedido de uma ou duas correções. Fiz o que o revisor deste blog me pediu. Depois guardei o texto, pois ele carecia de confirmação de uma informação. E hoje, ao voltar ao Carmo, decidi que não publicaria. Concluí que precisava escrever algo melhor.

Caminhei da Rua do Carmo até a estação Sé do Metrô, que fica bastante próxima. Não olhei no relógio, mas sabia que ainda não eram nem oito horas. A noite estava fria, mas não o suficiente para causar algum sofrimento. Fiz uma foto do imenso corredor de acesso que me levava ao bloqueio, que é onde se paga a tarifa. Na plataforma de embarque, entrei e saí do vagão, para finalmente voltar a entrar. Resolvi que não esperaria o próximo trem e que viajaria em pé mesmo. Na estação Luz calculei que alguém deixaria algum banco vago. Olhei em redor para tentar adivinhar quem desceria ali. Durante a busca, via uma senhora se levantar e partir. Sentei-me imediatamente e comecei a escrever. Só não sabia que me estenderia tanto. De maneira que cheguei ao meu destino e não saí do trem. Resolvi que faria nova viagem para terminar o texto. Desceria apenas quando terminasse, mas optei por desembarcar na estação Ana Rosa, cuja plataforma de volta para o Tucuruvi carecia de poucos passos. Foi o tempo de sair de um trem e entrar no outro. Desta vez, ao término da minha segunda viagem de volta para casa, eu deveria ter terminado o texto. E isto se deu na estação Carandiru. Pensei num final que fosse interessante, mas não cheguei a conclusão alguma.

No dia seguinte, retomei o texto. Queria registrar que voltei ao SESC do Carmo, desta vez na hora do almoço. Fiz uma boa refeição, embora com pouco tempero, e gastei cinco reais. Poderia ter gasto menos, não fosse uma salada e uma porção de feijão. Declinei do café, pois meu horário de almoço se extinguia. Era gostoso estar ali novamente e ver tantas pessoas. Na fila conversei com um senhor e pedi informações sobre o funcionamento do restaurante. Sentamos à mesma mesa com outras pessoas desconhecidas, mas não trocamos quase palavra alguma. Somente uma senhora manifestava simpaticamente a falta de sal na comida, o que concordei plenamente. Desta vez não houve encrenca no caixa. A mesma funcionária de ontem estava lá, cumprindo suas obrigações. No Café, o mesmo sujeito de poucos sorrisos. Fui embora em direção ao Largo da Misericórdia, que é onde trabalho. Voltaria amanhã.



Um texto para me acompanhar

terça-feira, junho 21, 2011 · 3 comentários

Setenta centavos. Nem acreditei que um bloco de nota pudesse ser tão barato. Eu precisava de qualquer tipo de papel em que fosse possível escrever. A atendente entendeu minha necessidade e assim a venda se realizou. Eu queria papel e gastar pouco por isso.
-
Da papelaria me dirigi ao ponto de ônibus mais próximo. Eu estava na Voluntários da Pátria, em Santana. Uma rua que já foi repleta de camelôs. A administração Kassab retirou todos dali. A rua até está mais bonita e fácil para transitar pelas calçadas, mas eu sempre me pergunto para onde foram os camelôs, o que eles fizeram de suas vidas.
-
Meu rumo não era certo. Sabia que iria à Rua Augusta. Lá, decidiria em qual cinema iria. Poderia ser o CINESESC ou o Espaço Unibanco. Nem mesmo a qual filme pretendia assistir eu sabia. Minha única certeza era o café. O local iria escolher na hora. Quase tudo tão incerto quanto este texto.
-
O ônibus demorou a passar. Até que percebi que estava no ponto errado. Feita a correção, não demorou um coletivo que me levasse direto à Augusta. Logo que entrei, sentei-me, puxei o bloco de notas do bolso do blazer e comecei a escrever, coisa que eu não esperava. É que ando descrente da minha criatividade. Uma fase literária de poucos textos.
-
Passava pela Augusta e decidi que desceria na altura do 2075. CINESESC foi a escolha. Local que eu ainda não visitara. Até tentei uma vez. E quando o fiz estava acompanhado. Hoje estava só. E já faz tempo que é essa a minha condição. De tal maneira que vou me acostumando.
-
Já não tinha mais certeza se o ônibus passaria em frente ao local de destino. Mas isso não era um detalhe tão grave. Se ele não percorresse toda a Augusta e entrasse na Paulista, como desconfiei que pudesse fazer, desceria imediatamente e iria caminhando. Isso se acaso o CINESESC não estivesse tão longe. Do contrário, resolveria o que faria já com os pés na rua. A esta improvisação tento dar o nome de liberdade.
-
Demorou a cruzar a Paulista. O trânsito estava carregado na região da Augusta. São Paulo ferve por esses lados. E há pessoas de várias classes sociais, talvez de todas. Mas quanto a isto guardo incertezas. Desconfio mesmo que passear por aqui seja programa das classes médias.
-
A primeira vez não é muito fácil. Quando cheguei, o que fiz foi observar, depois de me encantar com o local. Não se tratava de um cinema trivial. A programação ficava em um mural, com as informações sobre os filmes impressas em sulfite branco. Tão simples que duvidei. De repente, na bilheteria o aviso para procurar outro guichê. Contudo, não havia outro guichê. Fiquei meio perdido. Resolvi ir ao Café do cinema. Fui lá e observei apenas. Voltei ao hall de entrada. Eu queria comprar o ingresso, decidir pelo filme.
-
Escolhi a sessão seguinte, que seria às 19h, com a exibição do filme árabe “Um a zero”. Confundi-me. Pensei que só tinha dez minutos para um café. Um detalhe que enriqueceria o texto. Eu acreditei no engano. Comprei porções de pães e um café espresso. Após me servir rapidamente, perguntei ao atendente do Café onde ficavam as salas. Ele se mostrou surpreso com a minha opção de já entrar à sala. Mostrou-me o caminho de forma cortês, foi quando aprendi que o CINESESC é feito de sala única.
-
Só depois que entrei e me sentei em uma poltrona qualquer é que percebi que ainda faltava uma hora para começar o filme para o qual comprara o direito de assistir. Em verdade, entrei no meio de outra sessão. Percebido o engano, levantei-me e saí da sala. Avisei ao funcionário do meu equívoco. Sentei-me num dos sofás do Café e passei a escrever enquanto aguardava a sessão das 19h.
-
Aos poucos foram chegando as pessoas. E o vazio do espaço já não era a realidade que encontrei assim que cheguei. Mas eu não estava tão observador. Quisera estar livre para tanto. Nem sempre observar me é fácil. São as amarras da mente, que para mim estão presentes em muitas pessoas, presas que estão em seu próprio medo. Não é dizer que seja cada um por si, mas sim cada um com medo do outro. A cara amarrada é só proteção. Janela fechada.
-
Percebi que escrever era uma forma de não observar, posto que eu não estava à vontade. Talvez faltasse com quem conversar. É possível que eu devesse reconhecer que estar sozinho me incomodava. Com a sala repleta, minha companhia era escrever. Um modo de fugir dali. Manter os olhos no papel. Olhar ao redor vez em quando. E me desagradar com isso.
-
-
-
Esperei o ônibus deixar a Augusta para voltar a escrever. Eu gosto de observá-la. Era o retorno para casa. O filme me agradou. Paguei apenas quatro reais pelo entretenimento. Pagaria apenas um real se estivesse com a matrícula no SESC em dia, detalhe que logo estará resolvido.
-
Desejei esticar a noite. Buscar uma cia. feminina. Conversar. Mas não o fiz. Conheço pouco da noite e não sou de baladas. Escolhi o retorno para casa. Outra vez fiz isso. E nesta opção não estava sozinho. Muitos também iam para casa. Descansar. Refugiar-se. Esquecer um pouco da vida. Curtir um momento de solidão. E enquanto isso a cidade ferve. De noite. De dia. A qualquer hora. E muitos não voltam para casa.




Perfeições capitalistas

sexta-feira, junho 17, 2011 · 2 comentários

Muitas propagandas. Discursos que penetram nossas almas. A imagem da perfeição. Empresas e profissionais que parecem sem falhas.Produtos perfeitos. Serviços adequados. Um mundo sem falhas. Propaganda e Marketing. Falsos discursos. Grandes enganos. Ilusões. E em nós a angústia. Não somos perfeitos assim. Somos tão frágeis, inseguros e cheios de falhas. Melhor desligar a TV. Sair do site. Tomar um livro de um grande mestre e mergulhar na alma dos personagens. Banho de realidade. Honestidade no texto.



Uma tarde de cinema

quarta-feira, maio 25, 2011 · 1 comentários

Devolveu-me o cartão de banco. Olhei outra vez em seu rosto. Queria me convencer de minha opinião. E uma vez mais não a achei bela. Quando me dirigi ao balcão, o café já estava pronto. Estranhei. Fiz menção de questionar, mas a atendente habilmente avisou que acabara de prepará-lo. Seu excesso de eficiência gerou em mim desconfiança. Pensei que o café pudesse estar frio. Sorvi a bebida quente e me fui. Voltaria depois, pois comprara ingresso para a sessão das 19h45min. Eu estava outra vez na Reserva Cultural.
-
Antes da sessão de cinema, eu precisava comprar algo para comer, pois sentiria fome durante o filme. Mas não estava fácil encontrar o que eu queria. Naquela praça de alimentação, daquele pequeno shopping, só havia lanches ou pratos prontos. Eu buscava um simples salgado. Saí do shopping e fui em direção a um café do outro lado da avenida. Não eram muitas as opções na Paulista. Mas no “Café Creme” encontrei o que queria. Fiz o pedido e me dirigi ao caixa. Ao voltar para o balcão, um pequeno jato de água me atingiu, pois um dos funcionários abastecia a máquina de chope com gelo. Olhei em direção a ele como quem busca um pedido de desculpas, mas ele nem percebeu o ocorrido. Pedi que o salgado fosse embalado para viagem e parti de volta ao cinema.
-
“Cisne Negro”. Desconfiava que fora sobre este filme que eu lera um artigo provocador de um colunista da Folha, Felipe Pondé. Não tinha certeza quanto a isto. Apostei na desconfiança e comprei o direito de sentar na poltrona E5. Na sala de cinema, após uma breve espera, errei o corredor. Minha poltrona ficava do outro lado. Sentei-me. Eu estava sozinho. Desconfiei que pudesse encontrar minha ex-namorada ali. Ela é freqüentadora de bons cinemas. Mas não foi desta vez. Quem sabe uma outra noite. Encontrar mulheres interessantes não é tarefa tão fácil, sobretudo se já foi sua namorada.
-
Fui um dos primeiros a sair da sala. Isso não significa que desgostei do filme. Até gostei, mas não sai com a alma elevada. Saí mais relaxado apenas. Não quis mais um café. Caminhei até a estação Trianon do Metrô. A noite estava deliciosa. Vi duas lindas garotas que não me notaram. Tomei um trem em direção à estação Paraíso. Troquei a Linha Verde pela Azul. O trem agora tinha ar-condicionado. Sentei-me. Escrevi. Estava cansado. Fui para casa. Amanhã teria mais.



Esperança verde

segunda-feira, maio 02, 2011 · 0 comentários

Parte do café que adiciono ao copinho de plástico vai para o lixo. Um desperdício que me contenta, já que café demais parece não ser lá muito bom para a saúde. Por outro lado, do ponto de vista ecológico, essa atitude não é nada consciente. O fato é que, apesar de obter sempre informações a respeito, ainda engatinho no que se refere a consumo sustentável. E isto me frustra.


-
Li num site de notícias que o governo de São Paulo e a associação de supermercados do estado fecharam um acordo. Vão retirar o serviço de sacolas plásticas "gratuitas". E vão colocar à disposição do cliente sacolas de amido de milho, que são ecologicamente corretas. Elas terão um preço a partir de então: dezenove centavos. A ideia é incentivar o consumidor a deixar de lado as sacolinhas.


-
Minha mãe reclama que eles só se preocupam com as sacolas de plástico. Afirma que muitas embalagens são feitas de materiais que agridem a natureza. Que, portanto, seria necessária uma mudança mais ampla. Indaga por que somente a preocupação com as sacolinhas.


-
Conheço uma empresa onde há latas para quatro tipos de lixo. Mas você pode jogar em qualquer um deles, pois é tudo balela. O lixo é misturado e colocado na rua para a coleta normal. Mero discurso ecológico sem a prática de fato.
-
Uma das questões que mais me interessa é a questão do lixo. Principalmente quando se fala em usinas para produzir energia a partir da combustão do gás metano. Mas o Brasil ainda engatinha nesta questão. Vai demorar para termos o reaproveitamento do lixo na produção de energia.
-
Não sei se meu bairro tem coleta seletiva. Estou para ligar para a prefeitura, mas sempre adio o telefonema. Quero contribuir de alguma forma, embora seja difícil mudar comportamentos. De qualquer modo, sigo atento às informações que chegam até a mim. Quem sabe um dia eu me torne um cidadão ecológico. Quem sabe São Paulo se torne uma cidade mais sustentável, com a participação das empresas e dos cidadãos, bem como do governo local. É uma esperança verde que está em mim. Talvez não esteja tão perto, mas nem tão longe.



Enquanto escrevo

segunda-feira, abril 18, 2011 · 0 comentários

Enquanto isso sorvo uma deliciosa xícara de café com leite. Já estive para retirar ingressos gratuitamente, mas de nada adiantou. Sessenta pessoas chegaram antes de mim. A outra opção seria uma segunda peça de teatro, mas, ainda na fila, descobri que não havia sistema para recebimento eletrônico. Era a minha vez, mas nada pude fazer senão deixar a bilheteria sem ingresso que fosse. Daí, pensei o que faria. Resolvi comer algo que fosse proteína e tomar outro café. Enquanto escrevo, sorvo um café-com-leite. Estou no Centro Cultural São Paulo, que eu chamo apenas pelos dois primeiros nomes.


Estive fora bom tempo. Não foi viagem alguma que fiz. E se estava preso, era dentro de mim. E agora sigo reaprendendo conforme me ensinaram. A tarefa é fazer tudo como antes. Por exemplo, ir ao teatro, tomar café, e escrever. E assim tenho garantido o reencontro comigo. -


O local está cheio. A temperatura é de outono. O público é predominantemente jovem. Muitos estão estudando. Há livros abertos, notebooks ligados e papos rolando solto. Sinto-me praticamente livre de qualquer emoção negativa. Visto-me bem e me vejo elegante. Quem sabe eu conheça alguma mulher interessante hoje. As armas estão recolhidas. -


É noite. No subsolo, canta Cauby Peixoto. O auditório, cujo nome não me recordo, está lotado. O lugar aqui é grande e há muitos espaços para a arte. Às 20h se inicia a peça teatral “Cabaré”, para a qual não consegui ingresso. Não fosse a ausência de caixa-eletrônico, assistiria à outra peça. Nem me preocuparia em ler a sinopse, pois este centro cultural se pauta por boa qualidade na programação. -


Daqui irei à Paulista, ao Reserva Cultural. Assistirei a um filme. Irei com a Cia que tenho, que é a minha, que muito me agrada. Lá, tomarei outro café. Observarei as pessoas. Verei belas mulheres.Algumas acompanhadas de amigas. Mas a maioria com seu par. Dificilmente verei alguma sozinha. -


A mesa em que estou fica ao ar livre. A iluminação me agrada. Há um jardim imenso bem ao lado do café. Um vento suave toca todas as peles aqui. Um casal conversa em diagonal à minha mesa. O rapaz estuda Matemática. Quanto à sua parceira, não me é possível ver os títulos de seus livros. Numa outra mesa, um sujeito lê solitariamente Renê Descartes. Parece concentrado e seguro. Duas jovens à minha frente conversam freneticamente, enquanto uma delas se serve de água tônica. É possível que haja encontros românticos por aqui. Eu mesmo poderia me lembra de um que tive, mas as lembranças são muito vagas, e já não é o caso de relembrar.


Daqui da mesa ouço a voz da mulher que faz dueto com Cauby. A voz dele ainda não nos foi trazida. Sobre esta mesa repousam livro, dicionário e guarda-chuva. Olho no relógio e são quinze para as sete. Está tão bom aqui que já não quero mais ir ao cinema da Paulista. Creio que seja isto mesmo. Ficarei por aqui. Posso terminar este texto. Ler o livro que trouxe. E ainda tomar outro café.



"Hi"

quinta-feira, março 03, 2011 · 1 comentários

Eu retornava. Era a minha segunda vez ali. A rádio estava sintonizada em uma estação erudita. Tocava música clássica. Sentei-me na única cadeira de plástico que havia, até que fui orientado a subir a escada em frente e me acomodar na sala de espera. Havia revistas e livros. Publicações em português e japonês. Sentei no sofá que era muito confortável. Um descendente de orientais estava no mesmo ambiente que eu, mas não nos cumprimentamos. Calculei que teria que esperar a minha vez e que ela demoraria a chegar, o que me aborreceu um pouco. Mas mal cheguei a folhear uma revista e o barbeiro apareceu e chamou um de nós dois. Nem fiz menção em me levantar, posto que o rapaz oriental chegara primeiro que eu. O barbeiro, que mal falava o português, apontou para mim, balbuciando qualquer coisa, indicando que iria me atender prontamente. Achei fantástico. A minha ansiedade fora saciada com a devida brevidade. Desci a escada e sentei-me na poltrona de frente ao espelho.
-
Eu ainda não sabia o nome do salão e não seria naquele dia que esse detalhe seria resolvido, embora eu pouco me importe com isto. A preparação para o corte de cabelo seguiu o mesmo ritual de sempre. Toalhas úmidas e quentes. Toalha seca. Um avental azul. E antes disto o convite gentil para me sentar.
-
De repente, o barbeiro ficou vacilante. O corte já havia se iniciado. As pontas dos cabelos na parte de cima já tinham sido subtraídas. Na dança da tesoura de lâminas afiadas, a vez agora seria do cabelo na parte de trás e dos lados da cabeça. Quando foi cortar atrás, o barbeiro titubeou. Resmungou. Ensaiou cortar. Mostrou-se indeciso, até indignado. E aí tomou a iniciativa. Meu cabelo estava com creme e precisava ser lavado, o que fez com o ritual inicial de toalhas e avental fosse em vão. Era voltar para o início de tudo. Ele parece-me frustrado com seu “erro”. Era experiência acumulada, pensei comigo. Mais uma lição em mais um corte.
-
Dirigi-me ao lavatório. Esta é a parte mais simples do salão, que de luxo não tem nada. Na verdade, ele é sóbrio e muito limpo, além de bem iluminado. É um lugar muito agradável e guarda consigo alguma beleza. E se destaca na qualidade do atendimento. Este é seu maior detalhe. Sentei-me de frente para a pia e curvei-me adiante para que meu cabelo fosse lavado. Não era muito confortável, mas nada que me desagradasse. Pelo contrário, gostava da novidade.
-
Agora, sim. Cabelos lavados para que a tesoura voltasse a dançar. A toalha seca foi novamente colocada no pescoço. A música clássica seguia soberana. Ao meu lado, outro cliente. Um senhor japonês, cuidadosamente atendido pela mulher oriental que me abriu a porta do salão naquela tarde de sábado. Dia em que bati melancolicamente o cartão de ponto para nada fazer.
-
Ao final do corte, o barbeiro, que aparenta uns cinqüenta anos, perguntou-me se eu queria que ele passasse creme em meus cabelos. Recusei a oferta para talvez enfatizar minha satisfação com o serviço prestado, dizendo que estava bom daquele modo. Levantei-me e antes de pagar confirmei o valor de vinte e cinco reais. Recebi o troco e fui gentilmente direcionado à porta de saída, que é por onde se entra também. A última palavra que ouvi foi “hi”.



Reflexões sobre o silêncio aqui

terça-feira, fevereiro 08, 2011 · 1 comentários

Faz algum tempo que estou sem escrever. Este blog anda silencioso. Eu ando taciturno. Menos observador. O dia-a-dia passa por mim como se não passasse. Estou à deriva dos fatos. Estou neutro. Não intervenho com o olhar. Deixo para lá. Nem mesmo me importo.
-
Será esta uma fase? Será que passa? Ou de onde vieram textos já se esgotou a matéria-prima? Tenho indagações sem respostas. E nem sei se procuro respostas. O fato é que escrever deixou de ser como antes. Quando houve um tempo em que eu reclamava da falta de inspiração e disto fazia um texto. Até que me disseram que eu estava repetitivo. E eu dei atenção à dica. E de modo algum acho que errei ao aceitá-la. Era preciso inovar, eles tinham razão.
-
O tempo passou e eu me calei. Nem mesmo usei de reclamação por falta de inspiração. Eu não podia cair na mesmice. Preferi o silêncio. Mas ele se mostra tão longo que me incomoda. Passou o tempo em que adentrava ao ônibus, ou vagão de trem, escolhia um banco qualquer e me acomodava. Abria a mochila. Puxava caneta papel. E escrevia. Era bom esse tempo. Depois publicava e mandava o texto para as pessoas de meu contato. Vez ou outra ouvia um comentário sobre determinado texto. Era um tempo bom. E falando assim parece que ele está distante. O tempo vai passando.
- -
Às vezes me pergunto se ainda sei escrever. Se eu fosse trabalhar em uma redação se conseguiria escrever. Mesmo que me dessem um tema, eu já cheguei a duvidar da minha competência. Mas esta minha história que agora se escreve com poucas palavras é muito de mim realmente. Essa coisa de duvidar de si. Colocar obstáculo. Acreditar na dificuldade e mergulhar profundamente nela. Isto é meu. Bastante meu. E não será diferente de muitos por aí. O próprio blog explica que eu sou o outro, e no outro eu me vejo. O que quer dizer é que não somos tão diferentes assim.
-
Pode ser que eu escreva agora com a esperança de este texto ser um marco. Que após ele virão muitos outros textos. Mas confesso que não tenho tal pretensão. Eu sei que me tornei circunstancialmente cego, o que me traz esperança, já que é circunstancial.
-
Em algumas crônicas que escrevi, no ato literário, acaso o telefone tocasse, eu mencionava.
Era para dar mais veracidade ao texto. Para trazer o leitor para o meu momento. O telefone tocou há pouco. E, após atender à chamada, tive dificuldade em prosseguir. A única solução foi finalizar o parágrafo em que me encontrava. Iniciar outro, escrevendo a respeito. Mencionar o toque do telefone. E com isso ganhar mais um parágrafo.
-
Vai ser difícil dar um nome para este texto. Acho que vou chamá-lo de “reflexões”. Pois é isto que faço aqui. Reflito sobre o meu silêncio neste blog. E reparto com aqueles que vão ler este texto. E cuja explicação a respeito só terá quem chegar ao final. Quem ler este último parágrafo. Espero que muitos outros venham.



Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br