Progresso e Meio Ambiente

terça-feira, outubro 19, 2010 ·

por Adalton Oliveira

-



Para o físico brasileiro Rogério C. Cerqueira Leite[1], se a Terra fosse a uma consulta médica, o diagnóstico seria de que ela está com um parasita, o Homo Sapiens. Há parasitas que se aproveitam do hospedeiro sem matá-lo, mas há os que o exploram até a extinção. Resta-nos saber a que classe de hospedeiros pertencemos.
A ação destrutiva do homem sobre a Natureza vem de tempos remotos, desde que começou a desmatar e a irrigar o solo para o cultivo agrícola. Há evidências de que as concentrações de CO2 começaram a subir há cerca de 8 mil anos atrás – 3 mil anos depois do aparecimento da agricultura - e foram praticamente constantes até o início da revolução industrial, de fins do século XVIII. É provável que o impacto da agricultura sobre o clima da Terra tenha sido compensado pelos próprios ciclos orbitais do planeta que estavam causando uma tendência paralela de resfriamento. Dessa forma, uma atividade humana, a agricultura, teria evitado o início de um novo ciclo de glaciação.
Contudo, as novas formas de organização da sociedade – com base no consumo massificado e no intenso uso de energia derivada de combustíveis fósseis -, estão impactando o clima do planeta de maneira inédita. Desde o advento da Revolução Industrial, a temperatura no planeta à superfície cresceu entre 0,6ºC e 0,7ºC em média e as previsões são de que a temperatura média da Terra suba entre 1,5ºC a 4,5ºC nos próximos 100 anos, valor suficiente para elevar o nível dos oceanos de forma considerável. Esta elevação de temperatura poderá ser – por exemplo - suficiente para derreter a capa de gelo que recobre as terras da Groenlândia, elevando o nível dos oceanos em 5 metros, o que seria catastrófico para aquelas populações que vivem em áreas litorâneas, obrigando milhões de pessoas a procurarem novos lugares para viver, o que provocaria profundos impactos sobre todas a regiões do planeta. Os efeitos dessa elevação de temperatura sobre a agricultura seriam terríveis, com crescente redução das áreas agriculturáveis, pois regiões hoje férteis se transformariam em desertos. Quanto aos efeitos sobre a biodiversidade do planeta, teríamos uma extinção em massa sem precedentes na história.
A ideia de progresso desde sempre dominou a mente humana. Podemos entender como progresso a mudanças feitas no presente e que conduzem a uma situação melhor do que aquela que se vivenciou no passado. Chamou-se de obscurantista aos que se opunham às mudanças trazidas por um pretenso progresso e, assim, poucas vezes os resultados desse progresso foram discutidos. Questões éticas foram postas em segundo plano ou negligenciadas, dando lugar às vantagens econômicas e de poder que o progresso traria. Os estudos sobre o átomo levaram à bomba atômica – vista como um grande avanço na área militar – mas, antes de Hiroshima e Nagasaki, não se discutiu se seria ética sua utilização.
O mundo idílico prometido pelo progresso nunca se realizou, o que vimos foi o aumento da degradação ambiental, paralelo ao crescimento da pobreza, ao advento de guerras, ao surgimento de doenças trazidas pela modernidade, como a depressão e a ansiedade. Obviamente, não se está aqui a se opor ao progresso, estamos tratando da ausência de questionamentos sobre as conseqüências deste ou daquele avanço sobre a devastação de largas áreas do planeta e a destruição de inúmeros habitats.
Em sua arrogância, o homem se propôs a conquistar a Natureza e a usá-la em seu proveito próprio, sem preocupações com os danos a ela causados. Portamo-nos como se estivéssemos imunes aos efeitos nocivos provocados ao planeta, como se nós mesmos não fizéssemos parte do delicado equilíbrio do globo. Antecipando as preocupações ecológicas do final do século XX, o grande filósofo Walter Benjamin dizia sonhar com um novo pacto entre os humanos e seu meio-ambiente, opondo-se à ideologia “progressista” de um certo socialismo “científico” e de um ideal utilitarista que reduziu a natureza a uma matéria-prima da indústria, a uma mercadoria “gratuita”, a um objeto de dominação e de exploração ilimitada.
Para a Economia, mais propriamente para as correntes do pensamento neoclássico, somos maximadores de utilidade, criaturas hedonistas insaciáveis. Dessa forma, o progresso está ligado à ideia de produção de mercadorias e serviços ad infinitum. Não se questiona se tal produção destrói a base sobre a qual se sustenta, ou seja, o esgotamento dos recursos gratuitos oferecidos pela Natureza não é levado em consideração. Para a Economia neoclássica, se a quantidade obtida de peixe numa certa área se reduziu em função da atividade pesqueira intensiva, a solução é pôr ali mais barcos pesqueiros. Um contrassenso!
Mesmo a ideia de crescimento sustentável parece vaga. Não se define exatamente o que deve crescer de maneira sustentável. Seria o produto interno bruto (PIB), a riqueza ou o nível de satisfação da sociedade? Não se sabe. A melhor definição de crescimento sustentável que conheço é aquela formulada pelos economistas ecológicos, que diz: “desenvolvimento sustentável é aquele que supre as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender suas próprias necessidades”. Como fazê-lo? Eis o grande desafio atual da humanidade. Mas, como dizia Karl Marx, a humanidade não se propõe problemas que ela não possa resolver. Esperemos que ele esteja certo.

-


-


[1] LEITE, Rogério C. Cerqueira. “Energia renovável: sonho ou realidade?” em A Terra na Estufa, Scientific American, edição especial nº 12, setembro de 2005.



0 comentários:

Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br