"Amigo de viagens"

quarta-feira, setembro 29, 2010 · 1 comentários

pílula literária do cotidiano*

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A primeira comunicação deve ter sido um olhar. As palavras iniciais foram as de cumprimentos de praxe. Depois disto, teve início o papo que se seguiria até o final da viagem, quando ambos desceriam na mesma estação de metrô na zona leste de São Paulo.

- Quer que eu segure a sua mochila?
- Sim, por favor.

Alguns minutos depois ele se sentou ao lado dela. Estava cansado. Mas a semana seria mais curta, até quinta-feira. O motivo era uma ordem do TRE (Tribunal Regional Eleitoral), em função das eleições no próximo domingo. O prédio da faculdade em que trabalha teria que estar vazio a partir do dia determinado. Ela estranhou.
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- Que faculdade você trabalha?
- FMU

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Pronto, ela teve a certeza de sua gafe. Estava conversando com a pessoa errada. Pensou que fosse aquele “amigo de viagem” de outras viagens. Mesmo assim, preferiu não revelar seu engano. E seguiu a viagem num excelente bate-papo. O sujeito era solteiro e sua família estava longe, lá no nordeste. Desceram na estação Artur Alvim. Despediram-se. Ele elogiou a simpatia da moça. Cada um para um lado. E ela com história para contar, que contou para este blog. Coisas do cotidiano.



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*ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis
http://circunstanciall.wordpress.com/



Deslize ético masculino

terça-feira, setembro 28, 2010 · 0 comentários

pílula literária do cotidiano*
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Qual deslize eu cometia ao olhar lascivamente aquela mulher acompanhada? O problema é que eu carreguei dúvidas de que se tratasse de um casal. Vi apenas o rapaz afagar seus cabelos, tentar enlaçá-la, receber recusas. Aliás, a linda morena se mostrava muito constrangida. Nem percebi, já olhava mais com curiosidade do que com interesse sexual. Fazia cálculos. Pensei que se tratasse de universitários que marcaram um encontro. Talvez ela não esperasse aquilo dele, por isso esse constrangimento. E ficava linda daquele modo envergonhada. Um charme lindo em meio a um público de shopping. De repente, ela deu o comando e ambos saíram andando. O rapaz parecia frustrado e levava as mãos nos bolsos e os ombros encolhidos. E eu fiquei com minhas dúvidas. Queria saber como acabaria tal encontro...


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*ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis
http://circunstanciall.wordpress.com/



Pílula literária do cotidiano*

quinta-feira, setembro 23, 2010 · 0 comentários

terceira dose

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Era o mesmo cobrador de outra viagem de ônibus. Sentei-me lá no fundão, numas das duas opções de banco vazio que tinha. De repente, vejo o que não sabia se era uma discussão. O cobrador defendia seu trabalho junto a um passageiro. Este dizia que aquilo não era trabalho, mas sim passeio. E eles foram debatendo. O cobrador mantinha a calma. Mas eu sempre buscava indícios de que ele estivesse irritado. Em verdade, eu queria a certeza de que aquilo era uma briga ou não. A certa altura, o cobrador tentou colocar no mesmo time o motorista.

- Olha aí, fulano. Ele disse que nós não trabalhamos.

Seu pseudo algoz rebateu prontamente:

- “Nós” não, você! Eu falei que você não trabalha!

Ao final da viagem, o sujeito se levantou. Vestia uniforme da SPTrans, que gere o transporte público de ônibus em São Paulo. O cobrador ainda parecia debater a questão. Havia sorrisos. E, então, calculei que não se tratava de uma discussão, senão aquelas famosas brincadeiras de mau gosto entre colegas de trabalho.




*ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis
http://circunstanciall.wordpress.com/



Pílula literária do cotidiano*

segunda-feira, setembro 20, 2010 · 1 comentários

segunda dose
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Há cenas do cotidiano que parecem saídas das telas de cinema. O sujeito tomando um café muito amigável com duas deficientes visuais, uma das quais parecia ser sua namorada. Na hora calculei o grau de confiança entre os três. Ele tinha um semblante tranqüilo, que transmitia algo bom. Eu tomava meu café, em pé, enquanto observava. Depois disto, voltei para o local de trabalho. Já no final do expediente vi o mesmo rapaz guiando as duas ceguinhas. Neste momento, eu me senti “homem –máquina”, transformado em câmera. Eles cruzaram minha lente ocular e a cena terminou com o trio passando ao lado de um grupo de surdos-mudos que conversavam animadamente. Era noite em São Paulo, num shopping da zona sul.

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*ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis
http://circunstanciall.wordpress.com/



Pílula literária do cotidiano*

quinta-feira, setembro 09, 2010 · 0 comentários

primeira dose

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Tomo o corredor rumo à minha sala. Estou no trabalho. Logo à frente, vejo Lidiana** com sua jaqueta de outras vezes. Ela enche uma garrafa d'agua. Toco suas costas com uma das mãos e pergunto se está tudo bem. Ela se assusta. Mostra-se simpática. Faz tempo que não a vejo. Lidiana diz achar estranho esse modo de falar. Faz tempo que não te vejo. Assim é mais informal, explico em tom professoral. Vou direto ao assunto: Assessoria de imprensa. Convido-a para ir até a minha sala. Ela se mostra solícita. Exibo o livro que comprei sobre o assunto em questão. E ela me dá uma dica: pra trabalhar nesta área é preciso saber se relacionar com a imprensa, que é igual a se relacionar com pessoas. Pergunta-me se falo inglês, pois sabe de uma vaga que pede fluência no idioma. Informo que começo o curso no mês que vem, do básico ao intermediário, de modo que está respondida a sua indagação.

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Nossa conversa é rápida. Ela foge da aula do professor Perilo, conhecido por contar histórias, numa mistura entre tema acadêmico e vida particular. Lidiana reclama de falta de ar. Respira profundamente como quem está aborrecida. Informa que voltará para a sala de aula. Dou-lhe outro beijo na face e ela se vai sem que eu fique a admirá-la. De certo, porque em momento algum a achei bonita, pelo contrário. Após isto, sento e abro meu e-mail e escrevo para um amigo contando do fato.



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* ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis


**nome fictício



Xadrez com a vida

sexta-feira, setembro 03, 2010 · 0 comentários

Ao datar a folha que utilizo para escrever vi o dia passar, o ato de agora se tornar passado, tudo muito rápido, fugaz. Nisto, vi também que deixara de lado a pauta imaginada, a ideia tramada. Claro que gastei alguns segundos para me decidir. Fiquei com a declinação. E já agora sigo sem rumo definido.


Caminhei pelas ruas do bairro Santa Cecília, no centro de São Paulo. Inventei satisfação por estar ali, mas não me convenci. Inventei até saudades. Ledo estelionato de emoções. Dirigi-me à FESP, faculdade onde já tentei dois cursos, mas as circunstâncias me desfavoreceram. A região ali me agrada muito, de fato. E estudar na FESP tornou-se uma meta. Não quero mais Sociologia, desejo mesmo é Sócio-Psicologia, que é uma Pós- Graduação. Em verdade, eu me matriculara neste curso, mas o horário de trabalho me impediu de estudar. Terá sido um dano moral? Penso que se trata de uma partida de xadrez, em que terei que mover as pedras de modo melhor para efetuar a jogada desejada. Além disso, saber esperar.


Quando voltei à FESP, ainda estava vacilante. Na secretaria pedi reabertura da matrícula de Sociologia, que é uma graduação de quatro anos. O que me impediu foi a informação de que o desconto que me garantia pagar metade do da mensalidade não estava garantido. Foi quando solicitei averiguação, tempo que ganhei para pensar e mais tarde declinar. Esse mar de incerteza tragou-me por vários dias, consumindo meus pensamentos e me afogando em angústia.


Você já se viu indeciso sobre o rumo a tomar? Talvez tenham lhe ensinado que indecisão é proibido. Pura balela. De certo, a imensa maioria segue levada por águas de incerteza. E boa parte dos decididos provalvemente segue mergulhada em águas profundas de arrependimento quando mais tarde da decisão tomada.


O fato é que conversei com pessoas e olhei para dentro de mim. Também refleti sobre o que mais me interessa do ponto de vista intelectual. E o gosto que tenho pela alma humana me fez decidir pela área de Psicologia Social.


Meu cálculo é que tais estudos me darão os subsídios que preciso para refletir. A graduação que atingi é de jornalismo, que do ponto de vista intelectual quase nada me trouxe, dada a generalidade do curso. Neste sentido, entendo que jornalismo deva ser uma especialização, de modo que teríamos profissionais de diversas áreas aptos a escrever em jornais e revistas.


Quando assentei pensamentos, fiz decisão precisa, e tracei objetivos, os dias se tornaram mais tranqüilos. Mas há obstáculos a serem transpostos. Meu atual emprego é um deles. O horário que devo cumprir na empresa que me emprega inviabiliza os estudos na faculdade escolhida. Neste sentido, o caminho é a troca do horário ou a mudança de emprego. A partida de xadrez da vida prossegue e lentamente as pedras são movimentadas.


Ao fazer essa analogia com o xadrez, recordo-me de um filme: “O sétimo selo”, do sueco Ingmar Bergman. Nele, a morte vem buscar o sujeito, que propõe uma partida de xadrez para a execução ou não do serviço final, depende de quem ganhar. A morte aceita serenamente a proposta. Ambos jogam muito bem. Mas a morte leva uma vantagem, pois não tem com o que se preocupar, ou angustiar-se, nem decisões a tomar, ao contrário do sujeito encomendado por ela.


No meu caso, na analogia em questão, a partida de xadrez não é com a morte, mas com a vida. Ainda assim, como o sujeito que jogou com a morte, eu não quero perder. Neste sentido, espero ter mais sorte que a dele.



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
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