A insatisfação necessária

terça-feira, julho 20, 2010 ·

A hora de agora pouco importa nesta manhã ainda de inverno. Terça-feira em que terminam minhas férias. Já houve épocas em que eu desejava o fim do descanso prolongado. Mas a vida muda e o faz sem avisar. De repente, o trabalho se tornou chato, até sem sentido. Mas se você é sincero consigo, faz a devida avaliação, verá que tudo não está muito legal. Neste caso, o problema é você, não as coisas da vida. Se o indivíduo percebe isto já é um passo.





Poucas vezes escrevi aqui no meu computador, em meu quarto. Quisera eu fazê-lo diariamente. Contudo, as palavras se escondem dentro de mim e eu não faço pressão alguma para extraí-las. Sou submisso a esta fase de silêncio. Acho que é otimismo, pois sempre penso que o desejo por textos voltará. Não como antes, em que eu escrevia no ônibus, metrô, na sala de espera, algum outro lugar público. A gente muda e isto é normal. E não importa se para melhor ou pior. Apenas mudamos.





Por esses dias tenho pensado muito na vida. Desejos de mudá-la me pressionam. Insatisfações minam meu olhar positivo para os fatos. É um descontentamento com a minha realidade. Estou naquela fase de achar que os outros estão melhores do eu. Pura ilusão. Mero engano. De qualquer forma, sigo convencido que a felicidade não tem um preço, uma condição. Ela se dá por nada. Basta que se tenha a tranqüilidade da alma. E, entre outros detalhes, que o eixo principal esteja muito bem, que é a auto-estima. Vale dizer a importância da boa saúde, como disse um grande pensador.



Houve épocas que eu condicionava a minha felicidade a um cargo melhor, uma aquisição, alguma outra mudança. Passava o tempo, eu conquistava tal coisa, e seguia descontente. Aprendi, então, que eu me enganava. O tempo passou mai s um pouco e eu regredi. Voltei a acreditar em condições para ser feliz. Impressionante isto, esta regressão. O mais estranho é que conscientemente sigo convencido de que a felicidade existe sem condições.



O fato é que atualmente sigo descontente. Tenho andado cabisbaixo. Insatisfeito com meu salário, meu trabalho, minha condição educacional, minha bagagem cultural. Claro que isto não é algo negativo. Na verdade, a insatisfação pode nos levar a movimentos fundamentais para o crescimento. O problema é o sujeito seguir descontente abraçado à inércia. Felizmente, eu tenho feito movimentos de mudança, bem como planejado decisões. E, sinceramente, acho que estou no caminho certo. Mais ainda, creio que esta minha fase é absolutamente positiva. Como disse meu irmão Adalmir Sandro, o conflito é absolutamente positivo.



Não nego que a inércia alheia me incomoda. Mas não posso condenar o sujeito que não se esforça por algum tipo de crescimento. Se eu o fizesse, de certo estaria pondo na cruz a minha imagem, não a da outra pessoa. Mas quem disse que não condeno? É complicado. Quem sabe um dia eu aprendo que as pessoas têm cada uma sua própria dinâmica. E somente algumas avançam. O que é normal. Mesmo porque não há espaço para todos. Em verdade, sou um sujeito que se cobra demais e realiza de menos. Mas um dia eu vou relaxar.



Já disse algumas vezes que escrever me serve para extirpar emoções. Não há dúvida que meu objetivo agora é exatamente isto. Ultimamente tenho sido mais introspectivo. E meus textos têm seguido nesta linha. De modo tal que não os tenho mandado para revisão, como forma de me preservar. Publico apenas, não divulgo. E escrevo muito mais para mim. Mas claro, alguém que fizer a leitura poderá se identificar, já que não somos tão diferentes um do outro.





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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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