Lugar algum

terça-feira, julho 27, 2010 · 0 comentários

Será que caberia um texto, caso haja alguma ideia escondida? Como saber, senão escrevendo? É o que faço. E sigo sem fronteiras e sem rumo. Estou em lugar algum. Onde não há dono de nada. Aqui, neste faz de conta algum, as pessoas que existem não vivem apenas em seu mundo. Elas não têm fronteiras. E vivem dispersas e livres. Olham com tranquilidade da alma denotada em suas faces. Não pensam em dinheiro. Não têm aquele medo da falta de emprego, ou aquela angústia sobre o incerto. Elas, aliás, gostam mesmo é do improvável. E assim elas seguem suas vidas absolutamente tranquilas. São felizes? Talvez, ninguém nunca as perguntou. Mas vai ver que não se preocupam com essa chamada felicidade. Pois é possível que o sujeito dê tanta importância para isto exatamente por não ser feliz. O fato é que todos aqui desacreditam na felicidade inventada dos programas de televisão, das propagandas, ou de muitos filmes hollywoodianos. Mas enfim, as pessoas seguem quietas e as deixemos assim. Vamos para outro lugar, embora não haja fronteiras. Usemos da imaginação, então.


Neste outro lugar as pessoas quando se locomovem o fazem imersas em suas ilhas e nem olham muito para os lados. A pressão é grande e é melhor chegar logo ao destino. No caminho, todas elas - ninguém escapa -, são assediadas por propagandas no ônibus ou metrô. Antigamente havia os outdoors, mas felizmente uma lei derrubou todos eles. Melhor para nós. Aqui as pessoas não olham serenamente, aliás, eles nem olham. Parecem fechar o olhar para o chão e é melhor vê-lo do que um semelhante. Mas não pense que todos são assim. Tem gente tranquila aqui também. Muitas das quais até puxam assunto sem jamais tê-lo visto. Algumas parecem se divertir. E a maioria inventa sua própria felicidade. Elas compram, gostam de comprar. E de preferência o que está na moda ou é desejo geral. E podem parcelar, pois o crediário veio para aumentar as vendas. E a grande maioria se endivida, dando dinheiro para uma minoria que gosta de luxo e grana alheia. De tempos em tempos essas pessoas vão às urnas cheias de má vontade. É que não confiam em ninguém, nem no vizinho mais próximo. Acham que todos são ladrões. Dizem que são todos iguais. Estas mesmas pessoas que não acreditam em ninguém são as mesmas que dão propinas, passam o farol vermelho, ou quando na escola ou faculdade colaram na prova. Para elas, ninguém é honesto, nem elas. Mas não pense que este outro lugar que não parece inventado, nem é feito de meras coincidências, é assim tão áspero. Há nele espaço para belezas humanas ou não. É preciso procurar. Talvez a forma de encarar os fatos, o olhar de cada um para tudo isto, faça do lugar algo melhor. Vai ver que é preciso cada um reinventar sua própria existência. Às vezes, nada é assim tão ruim quanto pensamos. Melhor mesmo, vai ver, é mudar seu pensamento, sua postura. E ter o chamado “comportamento terapêutico”.



A insatisfação necessária

terça-feira, julho 20, 2010 · 0 comentários

A hora de agora pouco importa nesta manhã ainda de inverno. Terça-feira em que terminam minhas férias. Já houve épocas em que eu desejava o fim do descanso prolongado. Mas a vida muda e o faz sem avisar. De repente, o trabalho se tornou chato, até sem sentido. Mas se você é sincero consigo, faz a devida avaliação, verá que tudo não está muito legal. Neste caso, o problema é você, não as coisas da vida. Se o indivíduo percebe isto já é um passo.





Poucas vezes escrevi aqui no meu computador, em meu quarto. Quisera eu fazê-lo diariamente. Contudo, as palavras se escondem dentro de mim e eu não faço pressão alguma para extraí-las. Sou submisso a esta fase de silêncio. Acho que é otimismo, pois sempre penso que o desejo por textos voltará. Não como antes, em que eu escrevia no ônibus, metrô, na sala de espera, algum outro lugar público. A gente muda e isto é normal. E não importa se para melhor ou pior. Apenas mudamos.





Por esses dias tenho pensado muito na vida. Desejos de mudá-la me pressionam. Insatisfações minam meu olhar positivo para os fatos. É um descontentamento com a minha realidade. Estou naquela fase de achar que os outros estão melhores do eu. Pura ilusão. Mero engano. De qualquer forma, sigo convencido que a felicidade não tem um preço, uma condição. Ela se dá por nada. Basta que se tenha a tranqüilidade da alma. E, entre outros detalhes, que o eixo principal esteja muito bem, que é a auto-estima. Vale dizer a importância da boa saúde, como disse um grande pensador.



Houve épocas que eu condicionava a minha felicidade a um cargo melhor, uma aquisição, alguma outra mudança. Passava o tempo, eu conquistava tal coisa, e seguia descontente. Aprendi, então, que eu me enganava. O tempo passou mai s um pouco e eu regredi. Voltei a acreditar em condições para ser feliz. Impressionante isto, esta regressão. O mais estranho é que conscientemente sigo convencido de que a felicidade existe sem condições.



O fato é que atualmente sigo descontente. Tenho andado cabisbaixo. Insatisfeito com meu salário, meu trabalho, minha condição educacional, minha bagagem cultural. Claro que isto não é algo negativo. Na verdade, a insatisfação pode nos levar a movimentos fundamentais para o crescimento. O problema é o sujeito seguir descontente abraçado à inércia. Felizmente, eu tenho feito movimentos de mudança, bem como planejado decisões. E, sinceramente, acho que estou no caminho certo. Mais ainda, creio que esta minha fase é absolutamente positiva. Como disse meu irmão Adalmir Sandro, o conflito é absolutamente positivo.



Não nego que a inércia alheia me incomoda. Mas não posso condenar o sujeito que não se esforça por algum tipo de crescimento. Se eu o fizesse, de certo estaria pondo na cruz a minha imagem, não a da outra pessoa. Mas quem disse que não condeno? É complicado. Quem sabe um dia eu aprendo que as pessoas têm cada uma sua própria dinâmica. E somente algumas avançam. O que é normal. Mesmo porque não há espaço para todos. Em verdade, sou um sujeito que se cobra demais e realiza de menos. Mas um dia eu vou relaxar.



Já disse algumas vezes que escrever me serve para extirpar emoções. Não há dúvida que meu objetivo agora é exatamente isto. Ultimamente tenho sido mais introspectivo. E meus textos têm seguido nesta linha. De modo tal que não os tenho mandado para revisão, como forma de me preservar. Publico apenas, não divulgo. E escrevo muito mais para mim. Mas claro, alguém que fizer a leitura poderá se identificar, já que não somos tão diferentes um do outro.





Emoções e utopia

sábado, julho 03, 2010 · 0 comentários

Talvez falar de emoções me aproxime mais de você que lê este texto. Afinal de contas, temos muito em comum quando se tratade emoções. Claro que estamos cada qual de um jeito. De qualquer forma, esse jeito pode não ser lá tão diferente um do outro. Mas não há como nós dois termos certeza a respeito disto. No máximo, você poderá chegar a alguma conclusão, bastando para isso que eu fale como estou agora do ponto de vista emocional. Se irei dizer ou não, fazer a confissão proposta, não guardo certeza alguma. Talvez eu deixe para que você depreenda em minhas palavra, ou então eu diga tudo de forma clara, bem clara.


A emoção da manhã não é a de agora, pois estou bem melhor. Guardo comigo até algum entusiasmo. Acho até que já flertei hoje, não tenho certeza, mas sei que me interessei por ela. Talvez eu a reveja, é bem provável. É possível que você se pergunte por que pela manhã eu não estava lá tão bem. Sabe quando um trem descarrilado passa por um trilho torto de tanta emoção? Pois é, eu fora atropelado por ele. Mas tomei atitudes e apazigüei meus ânimos internos. Tudo se acalmou e o trem encontrou os trilhos em bom estado na viagem que prossegue. Mas o fato é que agora, já adentrando as últimas horas do dia, eu estou bem, e isso é bom.


Na sessão de acupuntura, a estagiária simpática perguntou-me se sou preocupado. Eu disse que não, e sabia que ela investigava as razões de minha circunstancial tristeza. Durante a sessão conversamos um pouco sobre questões e até uma ou outra futilidade. Ela pareceu-me agradável e eu reparei na grossura de suas pernas cobertas pelo jeans. Saí dali melhor do que cheguei. De maneira que gostei de estar em meio à tanta gente lá fora, posto que uma feira oriental se dava no local, no bairro da Liberdade. Olhei o cardápio de algumas barraquinhas, mas não fiz escolha alguma. No supermercado de produtos orientais, escolhia o que dava para comprar com cinco reais. Encontrei balas de milho em formato de espigas, o que me pareceu muito curioso. Eu as comprava para minha mãe, pois queria lhe fazer um agrado, como forma de expressar carinho. Acho que sou um tanto distante, reconheço...


Não me recordo como foi o caminho de volta para casa. Mas creio que tenha sido melhor do que muitos outros dias, principalmente por esses dias. Sim, as emoções andam castigando a minha alma, mas noto diferenças na minha reação e postura. Já houve épocas em que me afligia demais quando me entristecia. Agora, as coisas se passam de modo diferente. Possivelmente por que eu já não dê tanta importância para alguns detalhes da vida. Acho que cresci.


Não se trata de um beco sem saída, mas tenho uma decisão para tomar. Creio até que já a tenha tomado, só é preciso confirmar detalhes, um dos quais eu não tenho controle algum, senão a possibilidade da tentativa do êxito. Curioso é que um filme me trouxe inspiração a respeito e eu me vi pensando de modo diferente a respeito da decisão a tomar. Creio que é a primeira vez que um filme influencia tanto em minha vida, pois o que preciso decidir terá como conseqüência quatro anos pela frente. E essa decisão só será tomada se os sonhos dentro de mim para um país melhor não estiverem mortos.


Preciso confessar algo. Conversei com o possível leitor no início deste texto, mas ao vê-lo tão espelho de minha alma, já desejo que ninguém além de mim leia o que escrevo agora. Algum tipo de receio de minha parte? Pode ser, tenho lá minhas fragilidades...


A médica perguntou-me como está a minha vontade para as coisas da vida. Eu disse que não estava lá tão boa. Ela então fez uma sugestão que eu discordei. Ainda insistiu, mas depois aceitou minhas ponderações. Era uma aposta que eu fazia que aquela tristeza passaria. E para isso lançaria mão de acupuntura e de esporte. Não, eu não queria aumentar dose alguma. Confiava na medicina oriental. Tudo bem que no dia seguinte quase não parti o comprimido. Mas no decorrer da tarde tive a certeza de que ficaria bem e logo me livraria dos comprimidos que já se tornaram triviais.


Dei toda essa volta para confessar um sonho meu. As minhas emoções estão bem, posso confessá-lo agora. Não sei que tipo de Brasil você sonha, ou se você idealiza o país de uma forma coletiva. Tudo bem, eu quero ter meu carro e meu apartamento, mas sei que virão no decorrer da vida. Mas esses não são meus objetivos principais, nem poderiam ser, do contrário toda utopia em mim estaria morta, e eu estaria igual. Após assistir a um filme sobre a vida de um grande líder, pensei comigo qual a utopia possível dos tempos de hoje, visto que deixaram tudo muito parecido em termos de partidos políticos. Depreendi que só nos resta o combate à corrupção, e que este é hoje o nosso grande inimigo, cujo combate parece impossível. Talvez não seja possível extingui-la, senão apenas transformá-la em algo menor, até controlável. Mas isto é apenas um palpite, pois que não tenho elementos suficientes para refletir sobre esta questão. O que sei é que ela existe e precisa ser combatida. Que ela atrasa nosso país e provoca tantas perdas de futuros. Sei também que ela alimenta o luxo de muita gente rica neste país. E ainda que muitas pessoas trabalham para combatê-la. De minha parte, o máximo que faço é não cultivá-la em meus hábitos, bem como escolher bem as pessoas as quais eu deposito meu voto.


Falei de emoções e de um sonho meu. Não deixarei pedido algum a alguém no final deste texto. E agora eu me indago por que fiz tal mistura. Bom, eu desejei muito recriar uma utopia e assim ter um motivo maior para viver. Pois vi que apenas trabalhar e apenas comprar seria caro demais para mim: poderia custar a minha felicidade. Tudo bem que conheço boas pessoas que vivem assim e são felizes. Mas acho que são poucas as que me recordo. Mas cada um tem uma alma que lhe outorga o modo de ser. O meu é este, utópico. Eu preciso de utopias, concordo com o poeta. E acho que reencontrei uma. Engraçado, parece que a utopia é feita de um inimigo maior. Eu encontrei o meu. Que é de todos. Assim como são as emoções. De todos.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
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