Águas da vida

terça-feira, junho 22, 2010 ·

Quando ao chegar da rua, reclamei a mim a ausência de um texto fervilhando em minha mente. Cobrei-me ideias, ou ao menos um pequeno desejo de escrever. Mas o que constatei foi a ausência do conteúdo das cobranças. Deitei-me e peguei um livro para ler. E após nem ao menos uma página de leitura, fui tomado por pensamentos sobre o futuro. Invadiu-me certa idéia de determinada decisão. E fiquei com ela, de maneira a declinar do livro. Debati em silêncio a questão referente à decisão que não revelo. Apaguei a luz e fiquei com meus pensamentos. E se esperei o sono, foi em vão. Nada indicava que ele pudesse chegar de maneira breve. Levantei-me e ascendi a luz do quarto. Olhei o relógio e vi que já era madrugada de segunda-feira, o início dela. Encontrei em minha mochila o papel e a caneta. E errei o primeiro parágrafo, para depois encontrar este que é dos mais longos.


O fato, confesso, é que tenho me ocupado mais do futuro do que do presente. Talvez eu até negligencie o tempo de agora, desperdiçando-o. De qualquer forma, as resoluções que procuro são de curto prazo. Um futuro tão próximo que é quase presente. E se considerarmos o modo tão rápido que se vai o tempo, talvez possamos desprezar as divisões feitas pelo o homem. Bom seria que sempre que o sono demorasse eu fizesse par com o ato da escrita. Mas devo lamentar a enorme escassez de ideias.


Sim, eu já vivi sem razão de viver. Mais ou menos já toquei o barco sem direção. Bom, na verdade o barco de minha vida já seguiu sem rumo algum. Até que ele atracou em uma ilha de muita tristeza. Dias cinzas se seguiram, então. Iniciava-se uma revolução triste e silenciosa. Não era possível evitar um mergulho em mim. Eu estava naufragado em minhas emoções. Entrei por portas e saí por outras. Reclamei. Silenciei. Busquei esta ou aquela ajuda. De certo, perdi a maior parte do meu tempo. Escrevi de modo a deitar a minha alma no papel. Vi o sol nascer e se pôr novamente. Vivi as minhas inconstâncias. Sofri as minhas dificuldades. E ainda assim eu segui, mesmo que bastante errante. E quantas vezes eu desisti! Tudo bem, com o tempo aprendi a enxergar melhor e vi que não estava sozinho. Vi muita gente igual a mim. Muitas das quais em silêncio ou sob pretensa alegria.


Foi o tempo e voltei para as águas da vida. De volta ao meu barco, remei adiante. Levado pela correnteza, ela nem sempre se mostrou tranqüila. As turbulências sempre voltaram. Demorou em aprender que elas sempre voltariam. Foi só muito depois que aprendi a conviver com elas. Talvez possamos chamar isto de amadurecimento emocional .


De repente, resolvi construir um novo barco. Adentrar por novos caminhos, mudar algumas coisas. Uma delas, a forma de gerir minhas finanças. Precisava poupar, fazer conquistas. Organizei-me. Defini um prazo. E sigo com meu novo barco atrás do objetivo traçado. Ao olhar no retrovisor, desejei apenas não cometer enganos de antes, que me custaram parte do ouro para minhas pretensões materiais.


No continuar do remar da vida, temi sinceramente o capítulo da revolta. Por momentos pareci mergulhado nele. E dele para o da frustração pareceu-me perto demais. Mas virei o jogo e resignei-me. E vi que isto é o que de melhor pode acontecer para uma pessoa. De qualquer forma, vez ou outra o mar se agita. Mas aprendi que isto é bom. A revolução de si se dá a partir de alguma revolta. O que não dá é ficar neste sentimento de modo inerte. E talvez observar nos outros aflições iguais ajude de alguma forma.


Repentinamente o mar se acalmou. Tudo estaria sob controle. Mas logo eu me mostrei um navegante que escolhe os caminhos mais tortuosos. Alguns dos quais levam até ao retrocesso. E se diversas vezes tive que escolher este ou aquele caminho, eu me vi indeciso e confuso. Mas o barco, levado pelo tempo, seguiu rumo ou falta dele. E ainda que eu não quisesse seguir, as águas da vida foram me levando. E eu já não me iludo quando o mar se acalma. Já não peço que fique sempre assim. Pouco a pouco, vou me tornando mais preparado para essas águas da vida...



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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