Triste cabeleireiro

segunda-feira, maio 24, 2010 · 0 comentários

apenas impressões


Não costumo ir a estabelecimentos comerciais ou de serviços que não aceitam cartão. Sou do tipo que faz bom tempo não ando com notas de reais no bolso. Prefiro o chamado dinheiro de plástico, expressão que ouvi pela primeira vez de um grande amigo, Alan Davis. De qualquer forma, o campo da contradição possui forte atração e vez em quando eu me vejo dentro dele. Pois justamente no único local que corto meu cabelo não se aceita cartões de débito ou crédito. Como o lugar fica ao lado de um dos prédios da empresa em que trabalho, faço um saque antes de me dirigir ao salão.





Eu posso me perguntar por que escolhi aquele local para cortar meu cabelo. Muito provavelmente foi a localização que me fez optar por ele, dada a escassez de tempo que temos nesta vida rápida e gostosa, porém, absolutamente circunstancial, como diria o professor Trigo, que me deu aulas no curso de jornalismo e me ensinou algumas diferenças entre palavras, posto que é bom entendedor delas. Recordo-me que passei por lá e me informei sobre a aceitação ou não do famoso plástico. Pode até ser que eu tenha declinado da intenção de utilizar seus serviços quando da negativa na informação buscada. Mas quanto a isto guardo absoluta incerteza. O fato é que me tornei cliente, com o devido aviso que posso optar por outro a qualquer momento, posto que não sou aquele que cumpre o “volte sempre”.




Numa das vezes que voltei lá, Alan Davis me acompanhou. Ele também estava disposto a cortar seu cabelo no mesmo local. Mas havia um detalhe que eu já tinha lhe avisado e que foi comprovado, e que o fez declinar de sua intenção de corte. O fato literário é que para contar tal detalhe é preciso reiniciar a narrativa, de maneira que fica feito o pedido de licença.



Adentro ao salão de cabeleireiro e cumprimento a proprietária. Creio que seja a terceira vez que retorno. Informo que quero cortar uma vez mais com aquele profissional, que mal me cumprimenta, sem responder ao meu mecânico “tudo bem?”. Isto não me traz incômodo algum, posto que trago comigo a compreensão sobre aquele jovem rapaz. E ele, de modo igual aos outros dias, traz no semblante a marca de um estado visivelmente depressivo. Já não preciso dizer como quero corte e o atendimento é feito em absoluto silêncio de ambas as partes. E isto não é ruim a meu ver. Afinal de contas, o corriqueiro papo furado dos cabeleireiros de nada me vale.



Já troquei inúmeras vezes de salão. Dos tantos cortes feitos, poucos me agradaram. Passei até por escolas de formação destes profissionais de salão de beleza em tempos de vacas fracas e magras. Também já me arrisquei nas grifes do mercado. E em alguns que acertaram no corte eu confiei o retorno, porém o acerto anterior mostrou-se ter sido mero acidente. Sim, sou muito exigente neste aspecto. Acho que é vaidade, não sei. Também não importa. Se não me contento, não volto. E se volto, não significa que virei sempre. Sou um cliente inconstante, o mercado que me decifre.



Poucas vezes olhei nos olhos do jovem rapaz que corta meu cabelo, cujo nome não faço ideia. Há de nossa parte puro profissionalismo, mero rendimento à prestação de serviços. De qualquer forma, embora eu não queira puxar assunto, guardo comigo a curiosidade em saber o motivo de tanta tristeza nele. Um sujeito com severa deficiência de comunicação e que trabalha com o público. Calculo que diariamente ele tenha que vencer batalhas internas para estar ali.


Já faz quase duas semanas que estive lá para mais um corte, que novamente foi feito com grande competência. Todos sabemos que o cliente adora ser bem tratado, e que se for possível dosar afetividade no atendimento, a chance de cativá-lo será muito maior. Mas o cabeleireiro triste não traz consigo preocupação alguma em cativar aquele que se senta à cadeira para que ele opere pente, máquina e tesoura. É como se apostasse em seu grande talento para o corte e deixasse de lado qualquer tática de marketing, mesmo as intuitivas ou as aprendidas com o passar dos anos. De minha parte, sigo absolutamente satisfeito como cliente, posto que ele consegue resultados que não obtive em outros salões. Além disso, não preciso me preocupar em ser simpático, ou ter que falar sobre o tempo, ou coisas que em nada me interessam. Sento-me e aguardo o término da boa prestação do serviço. Pago e me despeço com cortesia.


Alan Davis quando me acompanhou ao local em questão, demonstrou indignação com tanta tristeza. De tal maneira, que declinou da intenção do corte. Como é um sujeito literário, percebeu no cabeleireiro um personagem para um texto. Falamos a respeito e eu confiei nele a minha intenção de escrever sobre o sujeito.


Em outros dias, às vezes, no caminho escolhido, passo em frente ao salão quando me dirijo ao trabalho. Já ouve ocasiões que vi o cabeleireiro ao ar livre fumando um cigarro. E fiz cálculo preciso de que nem precisava me preocupar em cumprimentá-lo, posto que para ele isto não faria diferença alguma. E assim foi, pois olhei em direção ao rapaz e não recebi gesto algum de quem esperava ser cumprimentado.


Na última vez que cortei o cabelo com ele, eu estava mais pensativo. Refletia comigo tratar-se de um sujeito com depressão e que se nega a algum tratamento. Prefere o enfrentamento da tristeza, ainda que nesta luta seu semblante diz de quem é a vitória. Trabalha ali também uma bela mulher negra e que parece ser a dona do estabelecimento. Na primeira vez que utilizei os serviços do local, reparei bastante nela, carregado de dúvida se ela não seria a esposa do cabeleireiro, ou algo do gênero. De maneira que nas vezes seguintes optei por não mais reparar. Já percebi que eles trocam algumas palavras. Já supus que de fato ela fosse sua esposa, e seria aquela que compreende o estado febril da alma do seu companheiro. Mas jamais tive coragem de perguntar.


Para não ser leviano, digo que ele já sorriu. Quando entendeu equivocamente que eu queria que penteasse meu cabelo após o término do corte feito. Aí é com você, disse de modo espontâneo e simpático. Pedi um creme para peinar e ele exagerou na dose. Enquanto eu penteava o cabelo, ele parecia sentir algum desconforto, que eu imaginava ser em função de suas emoções pela depressão presumida. Fiz o pagamento em papel moeda e outra vez mais apertei sua mão, sem receber dele neste momento alguma expressão de simpatia. E fui embora com o desejo de um texto. Mês que vem eu volto.















Na teoria é mais barato

quinta-feira, maio 06, 2010 · 1 comentários

um ex-perdulário e suas reflexões


Talvez tenha ido tomar um café como quem deixa a alma e leva apenas o corpo. Era um grito de liberdade. Mas tudo bem que todo grito dura pouco. Essas revoltas internas as têm todo e qualquer ser humano. E isso nem é ruim, ainda que momentaneamente incomode.


É um pequeno mercado o estabelecimento e há uma lanchonete muito bem instalada ali. Pediu um café e ao ver a máquina de espressos contentou-se de pronto. Mas não lhe serviram na xícara, senão no copo americano. Tudo bem, calculou consigo, este café é mais barato. Ademais, qualquer um estava bom. Talvez precisasse muito mais do ato do que do prazer do sabor. De maneira que, sentiu-se agraciado pela qualidade ruim da bebida servida. Via no exagero do açúcar pretexto para escrever.


É fato que tem diminuído os cafés por aí. Cansou de ser perdulário. De deixar dinheiro no caixa alheio e ver a conta bancária sempre vazia, quando não, negativa. Já ouviu dizer que o papel, submisso, aceita tudo. Mas foi somente quando usou deste que percebeu que as contas não fechavam. Antes, tudo era calculado mentalmente. E na mente, na idealização, o dinheiro pode tudo, dá para pagar mais essa conta. Bastou uma planilha para ver que tal desejo, aquele curso, uma viagem, ou o que fosse, não dava. E também que era imperioso diminuir os cafés e as porções.


Mas deixar de ser perdulário não se dá assim tão rapidamente. Pode ser que haja alguns escorregões ainda e algum dinheiro vá embora como água em torneira aberta. De certo, porque todo aprendizado requer tempo e atrito.


Já na batalha pelo equilíbrio das contas somou gastos supérfluos em restaurantes e lanchonetes. O resultado final deixou nele a marca da indignação. Eram gastos evitáveis, pensou consigo. Nos meses seguintes mais rigor e auto-fiscalização, determinou pra si.


Observou os indivíduos que possuem aquisições materiais, como um automóvel ou uma casa. Conversou com um ou outro. Extraiu conselhos. E aprendeu que sanar as dívidas é condição necessária para obter capacidade de poupança.


Mas não estava só, ele não era exceção, senão mais um que não é bom gestor de suas próprias finanças. Em verdade, a maioria das pessoas com quem conversou está em situação igual. Um exército de perdulários. Endividados até o pescoço com cartões de crédito, cheque especial e empréstimos.


Refletiu como estaria a economia se as pessoas gastassem mais com educação do que com juros. Passou a acreditar que as escolas financeiras deveriam ensinar gestão financeira doméstica, se este for o nome mais correto para isto. Como seria este ou qualquer país com mais recursos para a educação e não para os bancos em forma de juros, indaga-se. Fez a seguinte comparação como exemplo. Do empréstimo consignado que tem, é descontado determinado valor ao mês. Com esse dinheiro é possível pagar um curso de inglês em seu bairro, que em verdade, custa menos que o valor pago ao banco. Simples reflexão. O aprendizado da língua inglesa pode ajudar para um emprego melhor, bem como ganho cultural. O empréstimo foi feito para pagar outra dívida, cujos juros eram maiores.


O sujeito em questão precisou perder muito dinheiro com juros e projetos errantes para acordar e mudar seu comportamento financeiro. Isso quase aos quarenta anos de idade, quando parece sair de devaneio profundo de desmandos financeiros. De certo, faltou-lhe teoria, posto que aprendeu na prática, e o preço pago foi bastante alto. Fica a pergunta de como tornar sua experiência útil para os outros. Os mais jovens que adentram ao mercado de trabalho, ou aqueles que já estão na estrada faz tempo, escalpelados por tanta cobrança de juros. De certo, não será uma simples leitura que mudará isto. Mas como disse, é preciso teoria para evitar o aprendizado da forma já dita aqui. Assim é mais barato.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
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Revisão de textos
Adelcir Oliveira


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