Sem rumo literário

terça-feira, abril 27, 2010 · 0 comentários

O papel dobrado recebe passivamente as palavras de agora. Não há rumo literário. Objetivo que existe é tecer palavras sem mensagem que seja. Apenas desreprimir vocabulário preso em mim por razões que desconheço. Este não é um texto para o leitor.

Sentando, estou onde já estive em diversas viagens. Pela janela não olho a paisagem de tantas vezes. Nessa caixa de metal, de nome vagão, diversas pessoas dividem civilizadamente este circunstancial espaço.

Travo, pois não é fácil a desrepressão literária. Tudo bem, não me angustio. Faço do bloqueio tema deste parágrafo. Isto eu já fiz diversas vezes, e recebi conselhos para não mais fazê-lo.

Tenho lembranças comigo. De fatos. De leituras. De alguma emoção. Mas não utilizo de nada disto. Prefiro este vazio de ideias. Por ora, é só o que tenho.

Música popular brasileira. Dois jovens se sentam aqui ao lado meu, agora. É fato que utilizo agora. Eles cantam, fazem o dueto urbano. E cantam com talento. É um presente ganho sem pedir. Mas não me iludo, já houve vezes em que o que se tinha era aparelho eletrônico ligado e funk em volume alto.

Belas pernas estão sobre salto alto de cor azul-piscina. Ela já tem alguma idade. Segue viagem em pé. Olho lascivamente enquanto delineo palavras. Mas não busco um flerte. Apenas olho gostosamente o que se mostra belo para mim. A MPB prossegue...

Já faz tempo guardei bastante papel na mochila. As folhas estão manchadas não apenas pelo tempo, calculo. Seguiram à espera de mim, e eu também me esperei. Mas nas esquinas de encontros, eu não compareci. Dormi, e acho que exagerei. Foi um silêncio sem esforço. Fechei questão, estava vazio, na havia o que escrever. E hoje estou aqui neste texto em frangalhos.

Cada folha branca aqui foi dividida ao meio pela dobradura do papel. Isto ajuda na organização do texto, bem como trás facilidade anatômica. E isto é apenas dito. Alguém vai me perguntar o motivo de dizer isto? Alguém pode responder se tudo precisa de motivo?

Três estações do metrô e um parágrafo para terminar o texto. A letra em garrancho é até proposital. É blindagem contra olhos alheios. Depois me viro para reler e digitar o texto. Mas isto também não importa. Façamos o seguinte, daqui até o final deste parágrafo nada deve importar. Informação alguma deve ser dada. Usemos de a estação que falta para fazer silêncio absoluto. De palavras, de pensamentos...



Antes da última estação

quinta-feira, abril 15, 2010 · 0 comentários

O que gostaria de fazer ao entrar foi possível fazê-lo, que era tecer algumas palavras. Um fluir de bons sentimentos é que lhe davam o apetite literário. Ali, parado à espera do embarque de volta para sua casa, debatia para si o seu futuro. A resolução de incertezas traziam-lhe certas esperanças. Recordou com satisfação tantas indecisões, e calculou que elas eram fruto de falsas crenças, bem como medos criados. Agora o tempo lhe abria os olhos e o chão se mostrava mais firme. A melhor opção, calculou, seria a que trouxesse mudança no menor espaço de tempo.


Seguia para casa, onde teria alguns momentos com pequeno ser, sobrinho seu. Já optara faz tempo por não ter filhos, gosto maior que tem pela liberdade. Refletia. Concluíra que falar de si é falar pelo outro, posto que vê poucas diferenças entre as pessoas. Muitas vezes até os problemas são os mesmos. De todo modo, à medida que escrevia sentia o crescer da frustração. Não se convencia que a soma produzida de palavras fosse algo que lhe agradasse. Pensava mesmo que produzia certa pobreza literária. Assim mesmo, e sem saber por que, não desistiu, e nem pensava em desistir. Era o fio de esperança de no decorrer da escrita encontrar uma ideia que lhe desse o presente do bom texto, o que se tratava, evidentemente, de uma incerteza.


Foi então que comparou o momento com outros vividos, quando de grandes dúvidas, incertezas, sobre novos rumos da vida. Talvez, ao contrário de agora, sentisse o medo de tempo perdido. Não queria errar ou dar passos em vão. A soma de passos errantes o fizera mais reticente, cauteloso, o que, evidentemente, é positivo. Mas nas crises sentia-se inábil para tomar uma decisão. Foi preciso que se passassem os dias para perceber que se tornara alguém mais ponderado, reflexivo.


No passar da paisagem lá fora, a constatação de que a vida ganhou do texto. Se ao conseguir decidir sobre seu futuro e se perceber obteve prazer, conforto, ao escrever não foi assim. Antes do término da viagem resolveu dar cabo do ato da escrita, quase que com a coincidência da última estação.



Durma bem

domingo, abril 04, 2010 · 0 comentários

Luz apagada. Lucidez de devaneios. Contestações a cerca da realidade vivida. Portas que se mostram. Fios de esperança. Ali, em meio à escuridão e o som do computador ligado para tarefa necessária, a construção de um texto. Uma insistência e o surgimento de uma idéia qualquer. Como que forçasse a caneta no papel, pressionada entre os dedos, sem ver tinta alguma sair. Não havia papel, nem havia caneta que fosse. Mas o que tinha era o principal de tudo: palavras. Uma a uma foi surgindo na escuridão no quarto seu de dormir. E foi então, considerando a novidade da idéia, que se acendeu a única lâmpada que ilumina o pequeno quadrado de quatro paredes, todas forradas de papel decorativo. Tomou-se folhas com os versos em branco , e antes disto a caneta esferográfica azul.





Sim, houve algum entusiasmo, espécie de comemoração. Ultimamente não se tem escrito quase nada, ou mesmo nada. E não se deixa de fazê-lo sem se incomodar, muito embora escrever não provenha sustento seu. Agora, sob luz amarelada, olhos a percorrem o quarto em busca de algo a dizer. Talvez a luz que ilumina seja espécie de obstáculo, como que envergonhasse a criatividade. Mas isto não se pode considerar como verdade, do contrário o que se teria agora era silêncio de palavras. O engano, o motivo dele, é possível indagar razões, descobrir o que seja que explique, mas declinar é opção escolhida.



Não demora, a luz será outra vez apagada, sem sequer dar um “boa noite”. E não que algum sono se anuncie. Vai-se mesmo é buscar o refúgio da escuridão, sem significar isto algum sofrimento instalado. É que é gostosa a escuridão do quarto protetor. Diferentemente de outras escuridões, sobretudo às de ruas desconhecidas. Muitas das quais, a esta hora, dormem inúmeras pessoas. Elas que surgem aqui sem pedir licença alguma. Mudam o rumo do texto. E o fazem sem antes dar um “boa noite” de quem chega. Essas mesmas pessoas que ao dormirem ninguém lhes deseja um “durma bem”. Mas isto é dito de modo bem incerto. Vai ver que entre elas há o desejo proferido de quem quer pra si o que deseja ao outro.



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
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