Confissões de um homem que se tornou tímido

quinta-feira, março 25, 2010 · 0 comentários

Os meus olhos não apenas buscavam os olhos dela, era mira na alma. Talvez eu desejasse tocar com faísca seus hormônios da atração. E que olhos lindos os meus viam diante de si! E tudo nela me parecia tão belo que por vezes eu sorria de contentamento e admiração. Mas não é fácil estar diante de tamanha beleza sem perder as rédeas. E eu já li que uma mulher bonita baixa a cognição de um homem. Eu estava um tanto perdido e tinha que lhe responder às perguntas sobre algo que em nada tinha a ver com meus anseios em relação a ela. Mas funcionava como pretexto. A dúvida era saber se pretexto apenas meu. Essa incerteza é que fazia viver minha esperança.

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Os minutos se passavam. Eu já dava como garantida frustração ao longo da noite. Logo ela se ia, seu tempo era curto. E em meio à minha circunstancial inabilidade para explicar o que fosse, ela ficou os poucos minutos, vinte talvez. Arrisquei algum outro assunto, eu tentava criar alguma intimidade. Sim, eu já a conheço há algum tempo. Já a achei linda diversas vezes. Mas nunca fiz aposta que fosse. Era apenas uma admiração, coisa normal.

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Pior é escrever isto, com o corpo ainda trêmulo, com a possibilidade de estar enganado. Acho que sou um pessimista do amor. Tudo bem que ela aceitou meu pré-convite. Consegui um gancho e fui certeiro na afirmação de que um dia a levaria para conhecer o jazz. E ela demonstrou afeição pelo meu gesto. E acho que fui discreto, não mergulhei de cabeça no pré-convite. Fui cuidadoso e acho que isso ajudou.

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Ao anotar seu telefone em meu celular, digitando precariamente os números que ela me dava, eu temi que ela percebesse minha tremedeira. Pois veja, eu tremia diante de uma mulher de vinte quatro anos. Que ainda até tem cara de menina. Vestida com seu jeans justo e botas pretas de salto alto. Uma mulher, em verdade, que me fazia recordar “Lua de Fel”, o filme. Refiro-me à linda atriz que fazia uma personagem que mudou do vinho pra água, ou vice-versa, não importa. Eu preciso de um copo d’agua!

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Ela levantou-se à minha frente e eu não entendi bem seu olhar, sei que gostei. E eu apenas olhei para seu rosto, embora meu desejo fosse percorrer meus olhos por seu belo corpo. Saiu pela única porta da sala, dizendo que não deixasse de ligar para ela. E já agora, mergulhado no pessimismo citado, carrego severas dúvidas de que ela de fato vá aceitar sair comigo. E se consigo burlar meu ceticismo, me vejo com ela à mesa absolutamente incerto de que poderei beijá-la, tocá-la. Penso comigo se ela apenas sair por sair. E já calculo não apenas absoluta inabilidade na sedução, bem como frustração garantida. Acho que me tornei neurótico nesta questão, isto me lembra Woody Allen.

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O fato é que a idade passa e se você acha que se fortalece, pelo contrário, alguma coragem que já tive na arte de seduzir se mostra adormecida, senão morta. Tornei-me mais seletivo com o passar da idade. Isso me foi dito por meu irmão mais velho, alguém bem mais experimentado do que eu. Mas eu sempre fui mais cara de pau. E agora o que sou, senão pote até aqui de insegurança? Chico Buarque falou das emoções e o pote. Ele que sempre foi um homem muito desejado por muitas mulheres. Será que Chico tornou-se momentaneamente vacilante?

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No rastro da memória, a imagem dela de preto e jeans. Linda, cabelos presos, sensual sem forçar a barra. Saindo pela porta e falando me olhando enviezado. No pescoço, a tatuagem que eu nunca reparara. Eu que sou tão careta e não me condeno por isto. E ela que é tão jovem, tão impossível. Enfim, estas palavras são o remédio de agora. Foi o jeito encontrado para descarregar essa energia que passa pelo meu corpo.



Botão para terminar

sexta-feira, março 05, 2010 · 0 comentários

Eu tomei meu café e acho que comi alguma coisa, mas talvez eu misture os dias. Paguei a conta e saí com rumo ditado pelo horário de trabalho, eu fazia meu intervalo. Na mesma calçada, não tão distante, vi um homem que me lembrou o Boris Casoy. Recordei-me imediatamente da mancada que ele deu no início do ano, aquela questão do gari. E me veio à mente também o dia em que ele deu uma entrevista para meu grupo de estudo lá na Praça Benedito Calixto. Éramos simples aprendizes de cinegrafistas. E o Boris foi muito gentil, muito simpático. Ricardo Kotscho escreveu em seu blog que quem conhece o Boris não se surpreendeu com seu comentário sobre o gari. E disse ainda que a maioria dos jornalistas pensa igual, assim mesmo, cheios de preconceitos. Bom, então estas pessoas não são lá muito diferentes da maioria de nós.

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Caminhei em direção à empresa, eu precisava chegar a tempo de bater o cartão. Falando assim parece que havia atraso, não havia. Era apenas cumprir a obrigação, no papel que eu exercia no ínterim. De certo, eu queira recordar algo que fosse para escrever aqui, mas não recordo.

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Levantei-me tarde novamente. Mais meia hora e já iria para o trabalho. Sempre que faço isso o arrependimento me domina. Mas lá na hora, deitado à cama, o desejo de permanecer debaixo do cobertor é forte demais. Já dei muita asa a ele, agora fica mais difícil dormir menos. Não é que eu me atrase para o trabalho, nada disso. Chego no horário. Mas é que é dormir demais, o humor não fica lá tão bom.

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Hoje é dia de pagamento, o dinheiro já caiu na conta. Já paguei algumas contas. Fiz cálculos, o dinheiro vai dar. Queria que fosse mais, sem dúvida. Nessa hora nem lembramos daqueles que têm renda baixa, ou nem renda têm. Queria comprar um carro, financiado mesmo. Queria que fosse pra já. Aprendi que tudo tem que ser para agora. Isso até dá angústia. Acho que saber esperar é a grande sabedoria. Mas difícil pôr em prático isso, complicado.
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Conversei com amigo que é bom na gestão do seu salário, eu precisava de referências. Ouvir a experiência alheia, num ato de humildade de quem reconhece sua inaptidão para finanças pessoais. A gente pega um toque aqui, um ali. Absorve. Depois vem a prática, que diz se você aprendeu ou não.

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O futuro perguntou-me o que eu planejava, o que eu queria. Senti-me aflito, estava em dúvida. Tinha que ter alguma perspectiva para dar sentido a tudo. Mas já perto dos quarenta a gente tem mais pressa. Devia ser ao contrário, com a maturidade. Cronologicamente está correto, o tempo é menor. A vida vai subtraindo anos. Acho que é assim, uma subtração, não uma soma. De qualquer forma, o prazo de validade pode ser alterado, vai do modo de vida. Afora as circunstâncias da vida, o inesperado, o improvável.

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Daqui a pouco já estou na cama novamente. Esse momento que temos. Que é hora de refletir, sentir-se protegido e acolhido. E quem não tem esse momento, como faz? Não zera tudo, vai acumulando mesmo. Mas será assim mesmo? Pode ser que a pessoa que dorme ao relento tenha sua adaptação, e assim mesmo zera tudo. Amanhã tem mais.

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Debaixo do coberto, nesse friozinho de verão. O clima já não parece ser dos mais acertados, faz tempo. A gente já se acostumou. Mas Sampa é assim não de agora. É preciso estar preparado para os climas de uma mesmo dia. Quando se fala assim, a platéia é a incluída. E isto até dá uma sensação de impotência. Não dá para mudar o mundo. Ele não vai ser como a gente quer. Vai seguir assim mesmo, cheio de deficiências. O jeito é fechar os olhos? Dormir?
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Para terminar o texto, faço um desenho virtual. Imagino simples botão e o aperto. Botão de uma vez só, apenas para desligar. É o jeito que encontrei de terminar este texto. Confesso que não tenho outro, já que ele é circular. Peço desculpas pelo jeito, a artimanha. Mas às vezes temos de usar artifícios. Podem chamar isso até de falta de criatividade. Podem chamar como quiser. Eu, de minha parte, apenas aperto o botão.



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


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