Arroz com linguiça

segunda-feira, fevereiro 01, 2010 ·

Aquele que tem como benefício trabalhista bom vale-refeição pode fazer uso cotidianamente de um restaurante que caiba no benefício. Para quem possui altos rendimentos de modo autônomo, um bom restaurante como opção é algo comum nas horas de intervalo para almoço. Mas para uma parcela dos trabalhadores o jeito é levar marmita de casa.

O sujeito não estava satisfeito com a academia que freqüentava. Bom, para dizer a verdade, não estava satisfeito com nada. Mas naquele momento elegera um alvo como forma de não resolver o motivo de tanta insatisfação. Antes de almoçar e ir para o trabalho, resolveu dar uma olhada naquela academia. Pior é que escolhera uma que não cabia no seu orçamento, era essa a desconfiança que trazia consigo. Mesmo assim, agendou uma entrevista com um consultor. Escolhera a unidade que fica em um dos endereços mais caros da cidade: Avenida Paulista.

Já no atendimento surpreendeu-se com a excelente forma física da recepcionista, o que lhe pareceu excelente tática de marketing. Mostrou-se inábil na comunicação com a simpática morena. Há dias que é assim mesmo, nem consegue ser simpático. Inseguro, aceitou preencher uma ficha, que funcionava como uma triagem, que depois seria encaminhada às mãos de um consultor, o qual o claudicante rapaz deveria esperar em uma das mesas ofertadas pela recepcionista.

Não se simpatizou com o consultor, e em dias de ebulição de emoções dificilmente se simpatizaria com alguém. Também lhe desagradou a comunicação mecânica daquele jovem que se mostrava um pouco tenso. Era uma manhã de um dia qualquer da semana e a academia estava cheia. Sim, realmente se tratava de um excelente local, freqüentado por gente endinheirada da cidade em busca de “resultados garantidos, ou o dinheiro de volta”. Para tanto, o preço a ser pago é bastante salgado.

À medida que o consultor mostrava a estrutura da academia, crescia em nosso candidato a aluno sincera preocupação quanto ao preço a pagar nas mensalidades. Declinou quando lhe foi perguntado se queria conhecer os vestiários. Foi objetivo na resposta e afirmou querer conhecer os planos de pagamento.

O jovem consultor, que é formado em nutrição, seguia à risca o script do atendimento com as táticas de vendas aprendidas em treinamento. Não, não era possível para o rapaz pagar o valor mínimo cobrado no débito automático, os trezentos reais ao mês. E de nada adiantou a oferta de desconto para que matrícula fosse feita agora.

Apressou-se em se despedir do consultor. Pegou sua mochila rasgada. Colocou-a às costas e saiu acompanhado de alguma frustração. Daqui a pouco, almoçaria solitariamente. Dentro da mochila, sua marmita com o par de alimentos. A lingüiça fora comprada em Minas. O arroz fora entregue na cesta básica que recebe todo mês.
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Detalhes técnicos
Texto escrito na estação São Bento do metrô
A criação do texto se deu enquanto o autor estava no stand da empresa em que trabalha, fazendo atendimento ao público
Texto escrito em 20Jan2010 em folha de rascunho; digitado em 01Fev2010 no computador do trabalho às 15h
Texto enviado para revisão ao término da digitação; revisão feita por Adalton César



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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