Café guia

terça-feira, janeiro 19, 2010 · 0 comentários

Parece, muitas vezes, que o café me guia. Quando vi, estava de volta a um Café de tantas reclamações, mas que motivo ali já houve para ebulição de hormônios ligados a libido. Pois bem, desta vez a razão de alguns cafés não estava presente. Em verdade, eu já desconfiava desta ausência, pois passara pelo local para fazer a devida verificação. Mas a gente sabe que ir atrás de informações resulta em certo prazer, ainda que elas sejam precárias.


A bela atendente mudara de empresa, e isto era previsível em função da enorme pressão que, suponho eu, é trabalhar ali. Em empresas assim ficam os menos qualificados, ou aqueles de maior resistência.


O café que me foi servido não estava bom. Sorvê-lo exigiu algum esforço discreto. Valeu pela espécie de espetáculo, quando o atendente brincava com a cliente, candidatando-se a genro. Nós brasileiros, quanto mais simples, maior parece ser o nosso traço humorístico.


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Um restinho ficou na xícara. Previ alguma indagação do motivo da pequena sobra, mas não declinei do desperdício. Errei quando à previsão, em verdade. Ao caixa, tentei aprofundar a informação que fui ali buscar. Descobri apenas o bairro em que ela trabalha, tão próximo do meu, mas que de certo jamais farei qualquer busca. Voltei ao local de trabalho na estação São Bento do metrô, e concluí que sou guiado pelos cafés...



Visitas do passado

quinta-feira, janeiro 07, 2010 · 1 comentários

Às vezes, e eu não sei dizer por que, o passado faz visitas. Curioso é que parece fazê-las em fragmentos, trocados, não apenas de uma vez e apenas uma. Mas essa visita é gostosa e parece que ajuda no autoconhecimento, este que não cessa. Se pela vida fazemos tantas leituras, a leitura de si não cessa. E, assim como qualquer coisa que a gente leia, o aborrecimento pode se dar ou não. Mas se aborrece mais aquele que leitura de si não faz qual seja ela.



Quando parti para aquela viagem, os pneus do carro do amigo desenharam um traçado tantas vezes desenhado em tempos de criança. Embora eu sempre admita que minha alma seja paulistana, parte dela é bastante mineira, e está presa ao campo, às pessoas de lá. Talvez por isso que eu me identifique tanto com a paisagem, os costumes, os moradores. Visitar Minas é poetar comigo, tocar emoções, enfrentar a mim.



Claro que o tempo passa e tudo muda, ou quase tudo. Até mesmo porque nem tudo deve mudar ou existe para tal. Como está é bom que fique. Acho que deveríamos colocar isto mais em prática em relação à natureza. Talvez até haja mais exemplos, não sei.



Naqueles anos viajava com pais e irmã. Algumas vezes, algum parente ia conosco. Era tão bom, que por mais esforço que eu faça, não consigo tocar a forma exata de descrever o que sentia. Sei que era bom, e acho que já está bom dizer assim.



Esta vez mais que estive nos traçados mineiros, não foi a vez de maior emoção. Não me recordo se escrevi a respeito, mas acho que sim. Rever lugares em que estive quando criança, um tanque em que tomei banho de água fria, caminhos que fiz, inexplicavelmente trouxeram-me boas emoções.



Mas não é apenas quando fazemos este tipo de viagem que o passado vem e se senta ao lado. De certo, há muitas maneiras de tal encontro. Às vezes, pode ser um e-mail que alguém importante que em outras noites esteve ao lado seu. Numa época de intenso romance, com diversas cartas escritas, bem como bilhetes espalhados por diversos cantos. É quando você vê que tudo está tão bem resolvido, que já não produz mais emoção alguma.



O fato é que reencontrar-se com o passado amacia a alma. Mina esse embrutecimento que costuma se dar. E então a gente se torna menos belicoso e mais enternecido com as pessoas próximas e até daquelas das quais a gente manteve agressivo distanciamento. Tudo que aqui é dito é como se valesse apenas para quem escreve, mas não somos tão diferentes assim.




Detalhes técnicos, alguns:
Texto escrito na casa do autor, em seu PC, lá pelas 22h de 06Jan2010
A criação se deu durante um bate-papo via MSN com a primeira revisora do blog, Lilian Guimãres
A intenção era fazer um texto reflexivo sobre a atual fase do blog, mas veio a ideia de escrever sobre o passado e o amaciamento da alma
Texto revisado em 07Jan2010 por Adalton César, sendo publicado nesta mesma data às 11h50min






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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



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