O aluno vermelho

segunda-feira, novembro 22, 2010 · 0 comentários

A professora desconfiava que o aluno fosse alcoólatra. Era pelo vermelho da pele e dos olhos. Chegou a afirmar que sentira cheiro de pinga. Comentou com a sua colega de trabalho. Esta disse que talvez ele bebesse no intervalo entre a aula teórica e a prática. Tratava-se do curso de educação física em uma faculdade particular de São Paulo.

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Não era um bom aluno em se tratando de notas. Mas sempre ia às aulas e participava de todas as atividades acadêmicas. Era considerado esforçado. Seu único problema era a pinga que não bebia.

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Um dia ele se achegou à professora e contou sobre sua vida. Lamentou-se por não conseguir acompanhar o curso. Revelou que sempre que ia estudar em casa dormia sobre os cadernos. O motivo era um excessivo cansaço. Trabalhava duro para pagar a faculdade. Era camelô no Bom Retiro.

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A professora então depreendeu o vermelho nele. E contou o fato à colega desconfiada. O aluno confessou que não agüentava mais aquele ritmo. Saía de madrugada para trabalhar. À noite ia para a faculdade. Ao chegar em casa desabava na cama. Dormia pouco. No dia seguinte tinha que acordar bem cedo para o trabalho.

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Ele contou à professora que queria sair daquela vida. E sabia que o único caminho era o estudo. Mas sentia-se muito cansado, já não agüentava mais. Fatalmente desistiria do curso. E assim o fez.

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A professora, ao saber da desistência do aluno, sentiu-se muito mal. Ficou tocada. Fazer o quê? Realidade brasileira. Um dia, passeando pelo Bom Retiro, avistou o aluno vendendo seus produtos. Teve ímpeto em falar com ele. Mas este ao vê-la recolheu sua lona com seus materiais e desapareceu entre a multidão. Talvez tenha se sentido envergonhado. A professora ficou outra vez chateada. Dura realidade que ela não podia mudar. Revoltou-se com os demais alunos de classe média daquela classe. Muitos dos quais não se dedicavam ao curso e faziam a faculdade de maneira precária, sem esforço e comprometimento. A professora sentiu-se muito revoltada com isso. De certo, voltará ao Bom Retiro. Se vir o aluno, terá que fingir que não viu. É o modo que terá encontrado de respeitá-lo.
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Uma noite e dois dias de pausa

segunda-feira, novembro 01, 2010 · 1 comentários

Sentei-me. Eu estava cansado. Não dancei. Não danço. Aborreci-me com a insistência da moça. Sua indelicadeza fez de mim um antipático. Faltou-lhe habilidade de comunicação para depreender o outro. Exatamente o que não faltou em meu bom amigo, que me convidara para aquela festa sem graça.


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Desculpe-me, mas na dança vejo muito mais sensualidade que alegria. Chego a achar patético às vezes. Mas o que mais gosto na dança é observar algumas mulheres mexendo o corpo sensualmente. Quanto a mim, terceirizo o ato.


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Pensei que não dormiria. Sei quando a insônia vem. Não acendi a luz do quarto. Fiquei no escuro com meus pensamentos. Não rezei. Não sou religioso. Apenas divaguei na escuridão que me escondia. A noite não me foi boa. Há pouco no sofá uma cia feminina. Tentei beijá-la como da outra vez. Acho que no primeiro encontro tudo começou em outro sofá. Não, não foi isso, recordo-me agora. Era mesa de bar...
Hoje ela não quis nada. Negou-me o beijo com toda a sua delicadeza. Não insisti. Nem tentei outra vez. Eram 2h da manhã. Uma quinta-feira. Conversamos sobre algumas coisas. Eu não estava nem simpático, nem engraçado. A última frase que ouvi dela foi que sou “muito certinho”.


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Alguns minutos sob a escuridão da madrugada. A campainha tocou. Era o dono do apartamento. Conversamos. Eu queria saber se dera tudo certo com a moça. Ele a levara em casa. Tudo tramado para acontecer. Mas ela falou demais. E destampou a falar sobre o ex-namorado. Papo suficientemente chato para aborrecer o amigo. Não tentou com ela nem ao menos um beijo. Ela até pediu contatos. Não obteve êxito, senão indicações de como fazê-lo. Uma mulher bonita e atraente. O que será que se passou pela cabeça dela?


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Devo ter dormido um pouco. Mas não o suficiente para sentir-me melhor no dia seguinte. Pela manhã, tomei um banho. Improvisei no barbear, pois não havia um creme adequado. O jeito foi usar uma loção hidratante e água. O amigo, enquanto isso, fez o café. Ao passo que me vestia, ouvi dele que eu deveria ler a Bíblia. Narrei-lhe um pequeno fato. Uma professora de antropologia contou que dissera numa aula que o conteúdo da Bíblia não passa de mito. A aluna levantou-se e saiu da sala, para nunca mais voltar àquela faculdade. A Bíblia impediu-lhe de obter formação cultural. Digo isto sem saber se ela procurou outra instituição.


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Não leio a Bíblia, nem pretendo fazê-lo. Mas se disser que jamais li, estarei mentindo. Li e a erudição do texto é admirável. O conteúdo é para ser interpretado. Não se trata de acreditar ou não.


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Os dias se passaram. Entre os dois últimos parágrafos deste texto houve dois dias de pausa. Não podemos chamar de silêncio, pois os fatos se sucederam. O que se deu é que o texto ficou quieto, à espreita, creio. Tempo para escrever, houve. O fato exato da pausa, eu não sei.



Progresso e Meio Ambiente

terça-feira, outubro 19, 2010 · 0 comentários

por Adalton Oliveira

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Para o físico brasileiro Rogério C. Cerqueira Leite[1], se a Terra fosse a uma consulta médica, o diagnóstico seria de que ela está com um parasita, o Homo Sapiens. Há parasitas que se aproveitam do hospedeiro sem matá-lo, mas há os que o exploram até a extinção. Resta-nos saber a que classe de hospedeiros pertencemos.
A ação destrutiva do homem sobre a Natureza vem de tempos remotos, desde que começou a desmatar e a irrigar o solo para o cultivo agrícola. Há evidências de que as concentrações de CO2 começaram a subir há cerca de 8 mil anos atrás – 3 mil anos depois do aparecimento da agricultura - e foram praticamente constantes até o início da revolução industrial, de fins do século XVIII. É provável que o impacto da agricultura sobre o clima da Terra tenha sido compensado pelos próprios ciclos orbitais do planeta que estavam causando uma tendência paralela de resfriamento. Dessa forma, uma atividade humana, a agricultura, teria evitado o início de um novo ciclo de glaciação.
Contudo, as novas formas de organização da sociedade – com base no consumo massificado e no intenso uso de energia derivada de combustíveis fósseis -, estão impactando o clima do planeta de maneira inédita. Desde o advento da Revolução Industrial, a temperatura no planeta à superfície cresceu entre 0,6ºC e 0,7ºC em média e as previsões são de que a temperatura média da Terra suba entre 1,5ºC a 4,5ºC nos próximos 100 anos, valor suficiente para elevar o nível dos oceanos de forma considerável. Esta elevação de temperatura poderá ser – por exemplo - suficiente para derreter a capa de gelo que recobre as terras da Groenlândia, elevando o nível dos oceanos em 5 metros, o que seria catastrófico para aquelas populações que vivem em áreas litorâneas, obrigando milhões de pessoas a procurarem novos lugares para viver, o que provocaria profundos impactos sobre todas a regiões do planeta. Os efeitos dessa elevação de temperatura sobre a agricultura seriam terríveis, com crescente redução das áreas agriculturáveis, pois regiões hoje férteis se transformariam em desertos. Quanto aos efeitos sobre a biodiversidade do planeta, teríamos uma extinção em massa sem precedentes na história.
A ideia de progresso desde sempre dominou a mente humana. Podemos entender como progresso a mudanças feitas no presente e que conduzem a uma situação melhor do que aquela que se vivenciou no passado. Chamou-se de obscurantista aos que se opunham às mudanças trazidas por um pretenso progresso e, assim, poucas vezes os resultados desse progresso foram discutidos. Questões éticas foram postas em segundo plano ou negligenciadas, dando lugar às vantagens econômicas e de poder que o progresso traria. Os estudos sobre o átomo levaram à bomba atômica – vista como um grande avanço na área militar – mas, antes de Hiroshima e Nagasaki, não se discutiu se seria ética sua utilização.
O mundo idílico prometido pelo progresso nunca se realizou, o que vimos foi o aumento da degradação ambiental, paralelo ao crescimento da pobreza, ao advento de guerras, ao surgimento de doenças trazidas pela modernidade, como a depressão e a ansiedade. Obviamente, não se está aqui a se opor ao progresso, estamos tratando da ausência de questionamentos sobre as conseqüências deste ou daquele avanço sobre a devastação de largas áreas do planeta e a destruição de inúmeros habitats.
Em sua arrogância, o homem se propôs a conquistar a Natureza e a usá-la em seu proveito próprio, sem preocupações com os danos a ela causados. Portamo-nos como se estivéssemos imunes aos efeitos nocivos provocados ao planeta, como se nós mesmos não fizéssemos parte do delicado equilíbrio do globo. Antecipando as preocupações ecológicas do final do século XX, o grande filósofo Walter Benjamin dizia sonhar com um novo pacto entre os humanos e seu meio-ambiente, opondo-se à ideologia “progressista” de um certo socialismo “científico” e de um ideal utilitarista que reduziu a natureza a uma matéria-prima da indústria, a uma mercadoria “gratuita”, a um objeto de dominação e de exploração ilimitada.
Para a Economia, mais propriamente para as correntes do pensamento neoclássico, somos maximadores de utilidade, criaturas hedonistas insaciáveis. Dessa forma, o progresso está ligado à ideia de produção de mercadorias e serviços ad infinitum. Não se questiona se tal produção destrói a base sobre a qual se sustenta, ou seja, o esgotamento dos recursos gratuitos oferecidos pela Natureza não é levado em consideração. Para a Economia neoclássica, se a quantidade obtida de peixe numa certa área se reduziu em função da atividade pesqueira intensiva, a solução é pôr ali mais barcos pesqueiros. Um contrassenso!
Mesmo a ideia de crescimento sustentável parece vaga. Não se define exatamente o que deve crescer de maneira sustentável. Seria o produto interno bruto (PIB), a riqueza ou o nível de satisfação da sociedade? Não se sabe. A melhor definição de crescimento sustentável que conheço é aquela formulada pelos economistas ecológicos, que diz: “desenvolvimento sustentável é aquele que supre as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender suas próprias necessidades”. Como fazê-lo? Eis o grande desafio atual da humanidade. Mas, como dizia Karl Marx, a humanidade não se propõe problemas que ela não possa resolver. Esperemos que ele esteja certo.

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[1] LEITE, Rogério C. Cerqueira. “Energia renovável: sonho ou realidade?” em A Terra na Estufa, Scientific American, edição especial nº 12, setembro de 2005.



"Amigo de viagens"

quarta-feira, setembro 29, 2010 · 1 comentários

pílula literária do cotidiano*

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A primeira comunicação deve ter sido um olhar. As palavras iniciais foram as de cumprimentos de praxe. Depois disto, teve início o papo que se seguiria até o final da viagem, quando ambos desceriam na mesma estação de metrô na zona leste de São Paulo.

- Quer que eu segure a sua mochila?
- Sim, por favor.

Alguns minutos depois ele se sentou ao lado dela. Estava cansado. Mas a semana seria mais curta, até quinta-feira. O motivo era uma ordem do TRE (Tribunal Regional Eleitoral), em função das eleições no próximo domingo. O prédio da faculdade em que trabalha teria que estar vazio a partir do dia determinado. Ela estranhou.
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- Que faculdade você trabalha?
- FMU

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Pronto, ela teve a certeza de sua gafe. Estava conversando com a pessoa errada. Pensou que fosse aquele “amigo de viagem” de outras viagens. Mesmo assim, preferiu não revelar seu engano. E seguiu a viagem num excelente bate-papo. O sujeito era solteiro e sua família estava longe, lá no nordeste. Desceram na estação Artur Alvim. Despediram-se. Ele elogiou a simpatia da moça. Cada um para um lado. E ela com história para contar, que contou para este blog. Coisas do cotidiano.



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*ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis
http://circunstanciall.wordpress.com/



Deslize ético masculino

terça-feira, setembro 28, 2010 · 0 comentários

pílula literária do cotidiano*
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Qual deslize eu cometia ao olhar lascivamente aquela mulher acompanhada? O problema é que eu carreguei dúvidas de que se tratasse de um casal. Vi apenas o rapaz afagar seus cabelos, tentar enlaçá-la, receber recusas. Aliás, a linda morena se mostrava muito constrangida. Nem percebi, já olhava mais com curiosidade do que com interesse sexual. Fazia cálculos. Pensei que se tratasse de universitários que marcaram um encontro. Talvez ela não esperasse aquilo dele, por isso esse constrangimento. E ficava linda daquele modo envergonhada. Um charme lindo em meio a um público de shopping. De repente, ela deu o comando e ambos saíram andando. O rapaz parecia frustrado e levava as mãos nos bolsos e os ombros encolhidos. E eu fiquei com minhas dúvidas. Queria saber como acabaria tal encontro...


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*ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis
http://circunstanciall.wordpress.com/



Pílula literária do cotidiano*

quinta-feira, setembro 23, 2010 · 0 comentários

terceira dose

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Era o mesmo cobrador de outra viagem de ônibus. Sentei-me lá no fundão, numas das duas opções de banco vazio que tinha. De repente, vejo o que não sabia se era uma discussão. O cobrador defendia seu trabalho junto a um passageiro. Este dizia que aquilo não era trabalho, mas sim passeio. E eles foram debatendo. O cobrador mantinha a calma. Mas eu sempre buscava indícios de que ele estivesse irritado. Em verdade, eu queria a certeza de que aquilo era uma briga ou não. A certa altura, o cobrador tentou colocar no mesmo time o motorista.

- Olha aí, fulano. Ele disse que nós não trabalhamos.

Seu pseudo algoz rebateu prontamente:

- “Nós” não, você! Eu falei que você não trabalha!

Ao final da viagem, o sujeito se levantou. Vestia uniforme da SPTrans, que gere o transporte público de ônibus em São Paulo. O cobrador ainda parecia debater a questão. Havia sorrisos. E, então, calculei que não se tratava de uma discussão, senão aquelas famosas brincadeiras de mau gosto entre colegas de trabalho.




*ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis
http://circunstanciall.wordpress.com/



Pílula literária do cotidiano*

segunda-feira, setembro 20, 2010 · 1 comentários

segunda dose
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Há cenas do cotidiano que parecem saídas das telas de cinema. O sujeito tomando um café muito amigável com duas deficientes visuais, uma das quais parecia ser sua namorada. Na hora calculei o grau de confiança entre os três. Ele tinha um semblante tranqüilo, que transmitia algo bom. Eu tomava meu café, em pé, enquanto observava. Depois disto, voltei para o local de trabalho. Já no final do expediente vi o mesmo rapaz guiando as duas ceguinhas. Neste momento, eu me senti “homem –máquina”, transformado em câmera. Eles cruzaram minha lente ocular e a cena terminou com o trio passando ao lado de um grupo de surdos-mudos que conversavam animadamente. Era noite em São Paulo, num shopping da zona sul.

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*ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis
http://circunstanciall.wordpress.com/



Pílula literária do cotidiano*

quinta-feira, setembro 09, 2010 · 0 comentários

primeira dose

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Tomo o corredor rumo à minha sala. Estou no trabalho. Logo à frente, vejo Lidiana** com sua jaqueta de outras vezes. Ela enche uma garrafa d'agua. Toco suas costas com uma das mãos e pergunto se está tudo bem. Ela se assusta. Mostra-se simpática. Faz tempo que não a vejo. Lidiana diz achar estranho esse modo de falar. Faz tempo que não te vejo. Assim é mais informal, explico em tom professoral. Vou direto ao assunto: Assessoria de imprensa. Convido-a para ir até a minha sala. Ela se mostra solícita. Exibo o livro que comprei sobre o assunto em questão. E ela me dá uma dica: pra trabalhar nesta área é preciso saber se relacionar com a imprensa, que é igual a se relacionar com pessoas. Pergunta-me se falo inglês, pois sabe de uma vaga que pede fluência no idioma. Informo que começo o curso no mês que vem, do básico ao intermediário, de modo que está respondida a sua indagação.

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Nossa conversa é rápida. Ela foge da aula do professor Perilo, conhecido por contar histórias, numa mistura entre tema acadêmico e vida particular. Lidiana reclama de falta de ar. Respira profundamente como quem está aborrecida. Informa que voltará para a sala de aula. Dou-lhe outro beijo na face e ela se vai sem que eu fique a admirá-la. De certo, porque em momento algum a achei bonita, pelo contrário. Após isto, sento e abro meu e-mail e escrevo para um amigo contando do fato.



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* ideia original sacada do blog Circunstanciall, de Alan Davis


**nome fictício



Xadrez com a vida

sexta-feira, setembro 03, 2010 · 0 comentários

Ao datar a folha que utilizo para escrever vi o dia passar, o ato de agora se tornar passado, tudo muito rápido, fugaz. Nisto, vi também que deixara de lado a pauta imaginada, a ideia tramada. Claro que gastei alguns segundos para me decidir. Fiquei com a declinação. E já agora sigo sem rumo definido.


Caminhei pelas ruas do bairro Santa Cecília, no centro de São Paulo. Inventei satisfação por estar ali, mas não me convenci. Inventei até saudades. Ledo estelionato de emoções. Dirigi-me à FESP, faculdade onde já tentei dois cursos, mas as circunstâncias me desfavoreceram. A região ali me agrada muito, de fato. E estudar na FESP tornou-se uma meta. Não quero mais Sociologia, desejo mesmo é Sócio-Psicologia, que é uma Pós- Graduação. Em verdade, eu me matriculara neste curso, mas o horário de trabalho me impediu de estudar. Terá sido um dano moral? Penso que se trata de uma partida de xadrez, em que terei que mover as pedras de modo melhor para efetuar a jogada desejada. Além disso, saber esperar.


Quando voltei à FESP, ainda estava vacilante. Na secretaria pedi reabertura da matrícula de Sociologia, que é uma graduação de quatro anos. O que me impediu foi a informação de que o desconto que me garantia pagar metade do da mensalidade não estava garantido. Foi quando solicitei averiguação, tempo que ganhei para pensar e mais tarde declinar. Esse mar de incerteza tragou-me por vários dias, consumindo meus pensamentos e me afogando em angústia.


Você já se viu indeciso sobre o rumo a tomar? Talvez tenham lhe ensinado que indecisão é proibido. Pura balela. De certo, a imensa maioria segue levada por águas de incerteza. E boa parte dos decididos provalvemente segue mergulhada em águas profundas de arrependimento quando mais tarde da decisão tomada.


O fato é que conversei com pessoas e olhei para dentro de mim. Também refleti sobre o que mais me interessa do ponto de vista intelectual. E o gosto que tenho pela alma humana me fez decidir pela área de Psicologia Social.


Meu cálculo é que tais estudos me darão os subsídios que preciso para refletir. A graduação que atingi é de jornalismo, que do ponto de vista intelectual quase nada me trouxe, dada a generalidade do curso. Neste sentido, entendo que jornalismo deva ser uma especialização, de modo que teríamos profissionais de diversas áreas aptos a escrever em jornais e revistas.


Quando assentei pensamentos, fiz decisão precisa, e tracei objetivos, os dias se tornaram mais tranqüilos. Mas há obstáculos a serem transpostos. Meu atual emprego é um deles. O horário que devo cumprir na empresa que me emprega inviabiliza os estudos na faculdade escolhida. Neste sentido, o caminho é a troca do horário ou a mudança de emprego. A partida de xadrez da vida prossegue e lentamente as pedras são movimentadas.


Ao fazer essa analogia com o xadrez, recordo-me de um filme: “O sétimo selo”, do sueco Ingmar Bergman. Nele, a morte vem buscar o sujeito, que propõe uma partida de xadrez para a execução ou não do serviço final, depende de quem ganhar. A morte aceita serenamente a proposta. Ambos jogam muito bem. Mas a morte leva uma vantagem, pois não tem com o que se preocupar, ou angustiar-se, nem decisões a tomar, ao contrário do sujeito encomendado por ela.


No meu caso, na analogia em questão, a partida de xadrez não é com a morte, mas com a vida. Ainda assim, como o sujeito que jogou com a morte, eu não quero perder. Neste sentido, espero ter mais sorte que a dele.



Em busca de caminhos literários

terça-feira, agosto 31, 2010 · 0 comentários

texto treinamento

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Enquanto tocava com os pés os degraus, eu buscava de fato palavras. Pouco me importava seguir o caminho. Era-me apenas interessante investigar e descobrir caminhos para um texto. Desconfiava que o flerte com a poesia seria a melhor porta de entrada para me expressar. Mas tal conclusão em nada me ajudava, posto que não sou poeta.


Conforme eu dava passos diminuíam as possibilidades. Seria chegar aqui e silenciar-me. De certo, alguma angústia isto me trazia. De algum modo, eu me cobrava.


Parece que observar o outro já não me vale como antes. Vejo, até reflito, e deixo tudo sem sequer uma palavra. Feito cupim, que da madeira apenas se alimenta, fica com ela e nada além disso. Da alma alheia já não tiro ideias como antes. Devo indagar-me a razão? Ou apenas cerrar os olhos e deixar para lá? Por ora, cabe-me apenas perguntar.


Posso dividir os dias em etapas. Esta seria a segunda delas. E o que se deu antes interessa? O que vi e observei, senti e refleti, interessa? Pode ser que os fatos tivessem importância, o que dependeria do modo como foram observados. Houve personagens, comportamentos, não desejos. Havia riqueza humana. Mas disto nada teço, apenas enterro e deixo pra lá, esqueço.


Olho em redor e busco um final para o que aqui escrevo. Não há nenhuma ideia. Na escuridão do túnel segue o trem. Nesse breu de ideias apenas termino. E outra vez mais faço par com o silêncio, que tomou gosto por me fazer companhia.



Frio. Trabalho. Mulheres. Desconexão

segunda-feira, agosto 16, 2010 · 0 comentários

Noite fria e silenciosa. O prédio parece vazio, mas certamente está repleto de alunos. Trabalho em uma universidade faz quase cinco anos. Tempo demais para se estar numa empresa e no mesmo cargo. Mas houve mudanças. Fui transferido de unidades. Aumentaram a minha carga-horária. E passei a trabalhar de sábado. De qualquer forma, já não me sinto estimulado como antes. Eu mudei. E isso é bom. Não é lamento o que escrevo agora. Apenas me veio sem eu pedir.

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Entre uma mesa e outra, escolhi a que me permitia maior isolamento. Estava acompanhado. Fazia tempo que não aparecia naquele bar jazz. Senti falta daquela garçonete com um jeitinho encantador. Ela me cativava. Eu até a cumprimentava com um beijo. Mas não houve flerte, jamais a cantei. Creio até que me achasse o tipo cafajeste, dado que me vira com diferentes mulheres naquele mesmo local. No final de semana passado, ao ligar para reservar uma mesa, desejei que ela atendesse. Mas do outro lado uma voz rouca que não reconheci. Ainda tive esperança de vê-la no bar. Contudo, não a vi. Acho que deve ter conseguido um emprego melhor. Bom para ela se assim for. Não nego, todavia, que gostaria de revê-la.

Ao longo da minha vida conheci três mulheres que muito me encantaram. Nenhuma delas eu tive. E não cito o nome delas que é para me preservar. Mulheres serenas, elegantes e sensuais. Uma loira, outra morena e uma descendente de japoneses. Em verdade, tentei algo com as três. Mas não obtive êxito e no máximo cheguei bem próximo de ter duas delas. Normal. Não dá para conseguir tudo. O que me valeu foi minha admiração por todas elas, cada uma a seu tempo. Classes sociais diferentes. Todas honestas e de bom caráter. Mulheres lindas, tranqüilas e equilibradas.

Tenho trocado e-mails com a única mulher que amei em minha existência até os dias de hoje. Claro que gosto dessa troca de palavras. Somos gentis um com o outro. Ficou o respeito. Lembranças de noites de amor de parte a parte já se apagaram. O tempo levou tudo, ou quase tudo. Levou até boa parte do meu romantismo que já não expresso com mulher que seja. Num encontro, na esquina qualquer, ficou ali o lado romântico, e seguiu em frente o lado que apenas seduz, mas trata bem, muito bem...

Faz um frio severo. Duas jaquetas me protegem, mas calculo que lá fora o vento irá castigar minha face e meu corpo ainda que protegido. Noites frias são mais românticas. Mas a noite quente, com lua brilhando, também é romântica. O que vale é a circunstância, não o clima. Este pouco importa. Poderá haver noites de solidão em qualquer estação. E na mesma possibilidade, noites de amor e muito romance.

Parágrafos sem conexão. Mas nada tão desconexo. Há de certo alguma ligação entre eles. Talvez na ideia. Falei aqui do frio, do romantismo, das mulheres, de mim. E acho que tudo isso combina. Felizmente, aprendi a tratar bem uma mulher, e creio que isso se dê muito mais pelo meu respeito ao ser humano do que qualquer outra coisa. Mas não nego que eu gosto de respeitar a delicadeza delas. E não pense que sou inocente e estendo minha mão para qualquer mulher. Em verdade, a porteira quase sempre está fechada. A senha para passar por ela não é conquistada sem mais, nem menos. A isso dá-se o nome de seletividade.



Livro da vida

sexta-feira, agosto 06, 2010 · 0 comentários

Por esses dias que tem passado tenho andado prisioneiro de meu mundo. De modo tal que não me tem sido possível observar e analisar os fatos, as pessoas, ou até mesmo extrair algo que seja dos simples acontecimentos ou daqueles que considero mais pitorescos. A conseqüência disto tem sido menos textos e, dos poucos que escrevo, são eles mais introspectivos. Comparando isto com a vida, podemos dizer que escrever também é feito de fases. O interessante é que não se escreve sobre a maior parte daquilo que acontece conosco. Muito se perde, mesmo porque nem tudo é interessante, além do fator esquecimento.


Dia destes ocorreu-me uma ideia. A de que todos devêssemos escrever o livro de nossas próprias vidas. Isto se daria ao longo dos dias, com o passar dos anos. E este livro ficaria junto ao túmulo da pessoa em formato digital, o que para tanto seria necessário um pequeno terminal. O acesso seria livre, sendo possível fazê-lo de sua própria casa pela internet. Mas o que me parece mais interessante é poder consultar a história daquela pessoa junto ao túmulo dela. Pode ser que isto seja um pequeno devaneio de minha parte. Mas eu não duvido que isso um dia venha a ocorrer. E não precisa ser um livro, pode ser um álbum digital de fotos, um vídeo, qualquer registro que conte sobre a vida daquela pessoa.


Minha mensagem aqui é a de que escrever sobre si é terapêutico. Eu, por exemplo, valho-me disto diversas vezes. Claro que você não pode ser tão explícito, pois assim correria o risco de se expor à maldade alheia. Neste sentido, vale usar da construção de entrelinhas, ou utilizar um modo poético de escrever, algo criativo que seja. Aliás, a poesia talvez seja a melhor ferramenta para falar profundamente de si para si.


Agora, como seria bom se o simples ato da escrita trouxesse alívio às emoções incômodas. Se assim fosse, muitos problemas, angústias, teriam simples solução. Por outro lado, se fosse tão simples assim teríamos menos criações literárias. De qualquer forma, é válido escrever para extirpar emoções, ainda que de forma diminuta.


A questão é que poucos são poetas. Talvez seja o gênero literário mais difícil de se escrever. Para quem não é poeta, a solução é apenas o flerte com ela. Eu, que desejaria poetar, lanço mão de simples flerte, todos bem discretos.


Para finalizar este texto, respondo a uma pergunta que uma ex-colega de classe se fez de modo indignado, ao indagar-se por que eu escrevia tais textos neste blog. Embora a resposta esteja inserida neste texto, eu facilito as coisas. O motivo o qual escrevia e ainda escrevo é simples: é para extirpar emoções.



Lugar algum

terça-feira, julho 27, 2010 · 0 comentários

Será que caberia um texto, caso haja alguma ideia escondida? Como saber, senão escrevendo? É o que faço. E sigo sem fronteiras e sem rumo. Estou em lugar algum. Onde não há dono de nada. Aqui, neste faz de conta algum, as pessoas que existem não vivem apenas em seu mundo. Elas não têm fronteiras. E vivem dispersas e livres. Olham com tranquilidade da alma denotada em suas faces. Não pensam em dinheiro. Não têm aquele medo da falta de emprego, ou aquela angústia sobre o incerto. Elas, aliás, gostam mesmo é do improvável. E assim elas seguem suas vidas absolutamente tranquilas. São felizes? Talvez, ninguém nunca as perguntou. Mas vai ver que não se preocupam com essa chamada felicidade. Pois é possível que o sujeito dê tanta importância para isto exatamente por não ser feliz. O fato é que todos aqui desacreditam na felicidade inventada dos programas de televisão, das propagandas, ou de muitos filmes hollywoodianos. Mas enfim, as pessoas seguem quietas e as deixemos assim. Vamos para outro lugar, embora não haja fronteiras. Usemos da imaginação, então.


Neste outro lugar as pessoas quando se locomovem o fazem imersas em suas ilhas e nem olham muito para os lados. A pressão é grande e é melhor chegar logo ao destino. No caminho, todas elas - ninguém escapa -, são assediadas por propagandas no ônibus ou metrô. Antigamente havia os outdoors, mas felizmente uma lei derrubou todos eles. Melhor para nós. Aqui as pessoas não olham serenamente, aliás, eles nem olham. Parecem fechar o olhar para o chão e é melhor vê-lo do que um semelhante. Mas não pense que todos são assim. Tem gente tranquila aqui também. Muitas das quais até puxam assunto sem jamais tê-lo visto. Algumas parecem se divertir. E a maioria inventa sua própria felicidade. Elas compram, gostam de comprar. E de preferência o que está na moda ou é desejo geral. E podem parcelar, pois o crediário veio para aumentar as vendas. E a grande maioria se endivida, dando dinheiro para uma minoria que gosta de luxo e grana alheia. De tempos em tempos essas pessoas vão às urnas cheias de má vontade. É que não confiam em ninguém, nem no vizinho mais próximo. Acham que todos são ladrões. Dizem que são todos iguais. Estas mesmas pessoas que não acreditam em ninguém são as mesmas que dão propinas, passam o farol vermelho, ou quando na escola ou faculdade colaram na prova. Para elas, ninguém é honesto, nem elas. Mas não pense que este outro lugar que não parece inventado, nem é feito de meras coincidências, é assim tão áspero. Há nele espaço para belezas humanas ou não. É preciso procurar. Talvez a forma de encarar os fatos, o olhar de cada um para tudo isto, faça do lugar algo melhor. Vai ver que é preciso cada um reinventar sua própria existência. Às vezes, nada é assim tão ruim quanto pensamos. Melhor mesmo, vai ver, é mudar seu pensamento, sua postura. E ter o chamado “comportamento terapêutico”.



A insatisfação necessária

terça-feira, julho 20, 2010 · 0 comentários

A hora de agora pouco importa nesta manhã ainda de inverno. Terça-feira em que terminam minhas férias. Já houve épocas em que eu desejava o fim do descanso prolongado. Mas a vida muda e o faz sem avisar. De repente, o trabalho se tornou chato, até sem sentido. Mas se você é sincero consigo, faz a devida avaliação, verá que tudo não está muito legal. Neste caso, o problema é você, não as coisas da vida. Se o indivíduo percebe isto já é um passo.





Poucas vezes escrevi aqui no meu computador, em meu quarto. Quisera eu fazê-lo diariamente. Contudo, as palavras se escondem dentro de mim e eu não faço pressão alguma para extraí-las. Sou submisso a esta fase de silêncio. Acho que é otimismo, pois sempre penso que o desejo por textos voltará. Não como antes, em que eu escrevia no ônibus, metrô, na sala de espera, algum outro lugar público. A gente muda e isto é normal. E não importa se para melhor ou pior. Apenas mudamos.





Por esses dias tenho pensado muito na vida. Desejos de mudá-la me pressionam. Insatisfações minam meu olhar positivo para os fatos. É um descontentamento com a minha realidade. Estou naquela fase de achar que os outros estão melhores do eu. Pura ilusão. Mero engano. De qualquer forma, sigo convencido que a felicidade não tem um preço, uma condição. Ela se dá por nada. Basta que se tenha a tranqüilidade da alma. E, entre outros detalhes, que o eixo principal esteja muito bem, que é a auto-estima. Vale dizer a importância da boa saúde, como disse um grande pensador.



Houve épocas que eu condicionava a minha felicidade a um cargo melhor, uma aquisição, alguma outra mudança. Passava o tempo, eu conquistava tal coisa, e seguia descontente. Aprendi, então, que eu me enganava. O tempo passou mai s um pouco e eu regredi. Voltei a acreditar em condições para ser feliz. Impressionante isto, esta regressão. O mais estranho é que conscientemente sigo convencido de que a felicidade existe sem condições.



O fato é que atualmente sigo descontente. Tenho andado cabisbaixo. Insatisfeito com meu salário, meu trabalho, minha condição educacional, minha bagagem cultural. Claro que isto não é algo negativo. Na verdade, a insatisfação pode nos levar a movimentos fundamentais para o crescimento. O problema é o sujeito seguir descontente abraçado à inércia. Felizmente, eu tenho feito movimentos de mudança, bem como planejado decisões. E, sinceramente, acho que estou no caminho certo. Mais ainda, creio que esta minha fase é absolutamente positiva. Como disse meu irmão Adalmir Sandro, o conflito é absolutamente positivo.



Não nego que a inércia alheia me incomoda. Mas não posso condenar o sujeito que não se esforça por algum tipo de crescimento. Se eu o fizesse, de certo estaria pondo na cruz a minha imagem, não a da outra pessoa. Mas quem disse que não condeno? É complicado. Quem sabe um dia eu aprendo que as pessoas têm cada uma sua própria dinâmica. E somente algumas avançam. O que é normal. Mesmo porque não há espaço para todos. Em verdade, sou um sujeito que se cobra demais e realiza de menos. Mas um dia eu vou relaxar.



Já disse algumas vezes que escrever me serve para extirpar emoções. Não há dúvida que meu objetivo agora é exatamente isto. Ultimamente tenho sido mais introspectivo. E meus textos têm seguido nesta linha. De modo tal que não os tenho mandado para revisão, como forma de me preservar. Publico apenas, não divulgo. E escrevo muito mais para mim. Mas claro, alguém que fizer a leitura poderá se identificar, já que não somos tão diferentes um do outro.





Emoções e utopia

sábado, julho 03, 2010 · 0 comentários

Talvez falar de emoções me aproxime mais de você que lê este texto. Afinal de contas, temos muito em comum quando se tratade emoções. Claro que estamos cada qual de um jeito. De qualquer forma, esse jeito pode não ser lá tão diferente um do outro. Mas não há como nós dois termos certeza a respeito disto. No máximo, você poderá chegar a alguma conclusão, bastando para isso que eu fale como estou agora do ponto de vista emocional. Se irei dizer ou não, fazer a confissão proposta, não guardo certeza alguma. Talvez eu deixe para que você depreenda em minhas palavra, ou então eu diga tudo de forma clara, bem clara.


A emoção da manhã não é a de agora, pois estou bem melhor. Guardo comigo até algum entusiasmo. Acho até que já flertei hoje, não tenho certeza, mas sei que me interessei por ela. Talvez eu a reveja, é bem provável. É possível que você se pergunte por que pela manhã eu não estava lá tão bem. Sabe quando um trem descarrilado passa por um trilho torto de tanta emoção? Pois é, eu fora atropelado por ele. Mas tomei atitudes e apazigüei meus ânimos internos. Tudo se acalmou e o trem encontrou os trilhos em bom estado na viagem que prossegue. Mas o fato é que agora, já adentrando as últimas horas do dia, eu estou bem, e isso é bom.


Na sessão de acupuntura, a estagiária simpática perguntou-me se sou preocupado. Eu disse que não, e sabia que ela investigava as razões de minha circunstancial tristeza. Durante a sessão conversamos um pouco sobre questões e até uma ou outra futilidade. Ela pareceu-me agradável e eu reparei na grossura de suas pernas cobertas pelo jeans. Saí dali melhor do que cheguei. De maneira que gostei de estar em meio à tanta gente lá fora, posto que uma feira oriental se dava no local, no bairro da Liberdade. Olhei o cardápio de algumas barraquinhas, mas não fiz escolha alguma. No supermercado de produtos orientais, escolhia o que dava para comprar com cinco reais. Encontrei balas de milho em formato de espigas, o que me pareceu muito curioso. Eu as comprava para minha mãe, pois queria lhe fazer um agrado, como forma de expressar carinho. Acho que sou um tanto distante, reconheço...


Não me recordo como foi o caminho de volta para casa. Mas creio que tenha sido melhor do que muitos outros dias, principalmente por esses dias. Sim, as emoções andam castigando a minha alma, mas noto diferenças na minha reação e postura. Já houve épocas em que me afligia demais quando me entristecia. Agora, as coisas se passam de modo diferente. Possivelmente por que eu já não dê tanta importância para alguns detalhes da vida. Acho que cresci.


Não se trata de um beco sem saída, mas tenho uma decisão para tomar. Creio até que já a tenha tomado, só é preciso confirmar detalhes, um dos quais eu não tenho controle algum, senão a possibilidade da tentativa do êxito. Curioso é que um filme me trouxe inspiração a respeito e eu me vi pensando de modo diferente a respeito da decisão a tomar. Creio que é a primeira vez que um filme influencia tanto em minha vida, pois o que preciso decidir terá como conseqüência quatro anos pela frente. E essa decisão só será tomada se os sonhos dentro de mim para um país melhor não estiverem mortos.


Preciso confessar algo. Conversei com o possível leitor no início deste texto, mas ao vê-lo tão espelho de minha alma, já desejo que ninguém além de mim leia o que escrevo agora. Algum tipo de receio de minha parte? Pode ser, tenho lá minhas fragilidades...


A médica perguntou-me como está a minha vontade para as coisas da vida. Eu disse que não estava lá tão boa. Ela então fez uma sugestão que eu discordei. Ainda insistiu, mas depois aceitou minhas ponderações. Era uma aposta que eu fazia que aquela tristeza passaria. E para isso lançaria mão de acupuntura e de esporte. Não, eu não queria aumentar dose alguma. Confiava na medicina oriental. Tudo bem que no dia seguinte quase não parti o comprimido. Mas no decorrer da tarde tive a certeza de que ficaria bem e logo me livraria dos comprimidos que já se tornaram triviais.


Dei toda essa volta para confessar um sonho meu. As minhas emoções estão bem, posso confessá-lo agora. Não sei que tipo de Brasil você sonha, ou se você idealiza o país de uma forma coletiva. Tudo bem, eu quero ter meu carro e meu apartamento, mas sei que virão no decorrer da vida. Mas esses não são meus objetivos principais, nem poderiam ser, do contrário toda utopia em mim estaria morta, e eu estaria igual. Após assistir a um filme sobre a vida de um grande líder, pensei comigo qual a utopia possível dos tempos de hoje, visto que deixaram tudo muito parecido em termos de partidos políticos. Depreendi que só nos resta o combate à corrupção, e que este é hoje o nosso grande inimigo, cujo combate parece impossível. Talvez não seja possível extingui-la, senão apenas transformá-la em algo menor, até controlável. Mas isto é apenas um palpite, pois que não tenho elementos suficientes para refletir sobre esta questão. O que sei é que ela existe e precisa ser combatida. Que ela atrasa nosso país e provoca tantas perdas de futuros. Sei também que ela alimenta o luxo de muita gente rica neste país. E ainda que muitas pessoas trabalham para combatê-la. De minha parte, o máximo que faço é não cultivá-la em meus hábitos, bem como escolher bem as pessoas as quais eu deposito meu voto.


Falei de emoções e de um sonho meu. Não deixarei pedido algum a alguém no final deste texto. E agora eu me indago por que fiz tal mistura. Bom, eu desejei muito recriar uma utopia e assim ter um motivo maior para viver. Pois vi que apenas trabalhar e apenas comprar seria caro demais para mim: poderia custar a minha felicidade. Tudo bem que conheço boas pessoas que vivem assim e são felizes. Mas acho que são poucas as que me recordo. Mas cada um tem uma alma que lhe outorga o modo de ser. O meu é este, utópico. Eu preciso de utopias, concordo com o poeta. E acho que reencontrei uma. Engraçado, parece que a utopia é feita de um inimigo maior. Eu encontrei o meu. Que é de todos. Assim como são as emoções. De todos.



Águas da vida

terça-feira, junho 22, 2010 · 0 comentários

Quando ao chegar da rua, reclamei a mim a ausência de um texto fervilhando em minha mente. Cobrei-me ideias, ou ao menos um pequeno desejo de escrever. Mas o que constatei foi a ausência do conteúdo das cobranças. Deitei-me e peguei um livro para ler. E após nem ao menos uma página de leitura, fui tomado por pensamentos sobre o futuro. Invadiu-me certa idéia de determinada decisão. E fiquei com ela, de maneira a declinar do livro. Debati em silêncio a questão referente à decisão que não revelo. Apaguei a luz e fiquei com meus pensamentos. E se esperei o sono, foi em vão. Nada indicava que ele pudesse chegar de maneira breve. Levantei-me e ascendi a luz do quarto. Olhei o relógio e vi que já era madrugada de segunda-feira, o início dela. Encontrei em minha mochila o papel e a caneta. E errei o primeiro parágrafo, para depois encontrar este que é dos mais longos.


O fato, confesso, é que tenho me ocupado mais do futuro do que do presente. Talvez eu até negligencie o tempo de agora, desperdiçando-o. De qualquer forma, as resoluções que procuro são de curto prazo. Um futuro tão próximo que é quase presente. E se considerarmos o modo tão rápido que se vai o tempo, talvez possamos desprezar as divisões feitas pelo o homem. Bom seria que sempre que o sono demorasse eu fizesse par com o ato da escrita. Mas devo lamentar a enorme escassez de ideias.


Sim, eu já vivi sem razão de viver. Mais ou menos já toquei o barco sem direção. Bom, na verdade o barco de minha vida já seguiu sem rumo algum. Até que ele atracou em uma ilha de muita tristeza. Dias cinzas se seguiram, então. Iniciava-se uma revolução triste e silenciosa. Não era possível evitar um mergulho em mim. Eu estava naufragado em minhas emoções. Entrei por portas e saí por outras. Reclamei. Silenciei. Busquei esta ou aquela ajuda. De certo, perdi a maior parte do meu tempo. Escrevi de modo a deitar a minha alma no papel. Vi o sol nascer e se pôr novamente. Vivi as minhas inconstâncias. Sofri as minhas dificuldades. E ainda assim eu segui, mesmo que bastante errante. E quantas vezes eu desisti! Tudo bem, com o tempo aprendi a enxergar melhor e vi que não estava sozinho. Vi muita gente igual a mim. Muitas das quais em silêncio ou sob pretensa alegria.


Foi o tempo e voltei para as águas da vida. De volta ao meu barco, remei adiante. Levado pela correnteza, ela nem sempre se mostrou tranqüila. As turbulências sempre voltaram. Demorou em aprender que elas sempre voltariam. Foi só muito depois que aprendi a conviver com elas. Talvez possamos chamar isto de amadurecimento emocional .


De repente, resolvi construir um novo barco. Adentrar por novos caminhos, mudar algumas coisas. Uma delas, a forma de gerir minhas finanças. Precisava poupar, fazer conquistas. Organizei-me. Defini um prazo. E sigo com meu novo barco atrás do objetivo traçado. Ao olhar no retrovisor, desejei apenas não cometer enganos de antes, que me custaram parte do ouro para minhas pretensões materiais.


No continuar do remar da vida, temi sinceramente o capítulo da revolta. Por momentos pareci mergulhado nele. E dele para o da frustração pareceu-me perto demais. Mas virei o jogo e resignei-me. E vi que isto é o que de melhor pode acontecer para uma pessoa. De qualquer forma, vez ou outra o mar se agita. Mas aprendi que isto é bom. A revolução de si se dá a partir de alguma revolta. O que não dá é ficar neste sentimento de modo inerte. E talvez observar nos outros aflições iguais ajude de alguma forma.


Repentinamente o mar se acalmou. Tudo estaria sob controle. Mas logo eu me mostrei um navegante que escolhe os caminhos mais tortuosos. Alguns dos quais levam até ao retrocesso. E se diversas vezes tive que escolher este ou aquele caminho, eu me vi indeciso e confuso. Mas o barco, levado pelo tempo, seguiu rumo ou falta dele. E ainda que eu não quisesse seguir, as águas da vida foram me levando. E eu já não me iludo quando o mar se acalma. Já não peço que fique sempre assim. Pouco a pouco, vou me tornando mais preparado para essas águas da vida...



Triste cabeleireiro

segunda-feira, maio 24, 2010 · 0 comentários

apenas impressões


Não costumo ir a estabelecimentos comerciais ou de serviços que não aceitam cartão. Sou do tipo que faz bom tempo não ando com notas de reais no bolso. Prefiro o chamado dinheiro de plástico, expressão que ouvi pela primeira vez de um grande amigo, Alan Davis. De qualquer forma, o campo da contradição possui forte atração e vez em quando eu me vejo dentro dele. Pois justamente no único local que corto meu cabelo não se aceita cartões de débito ou crédito. Como o lugar fica ao lado de um dos prédios da empresa em que trabalho, faço um saque antes de me dirigir ao salão.





Eu posso me perguntar por que escolhi aquele local para cortar meu cabelo. Muito provavelmente foi a localização que me fez optar por ele, dada a escassez de tempo que temos nesta vida rápida e gostosa, porém, absolutamente circunstancial, como diria o professor Trigo, que me deu aulas no curso de jornalismo e me ensinou algumas diferenças entre palavras, posto que é bom entendedor delas. Recordo-me que passei por lá e me informei sobre a aceitação ou não do famoso plástico. Pode até ser que eu tenha declinado da intenção de utilizar seus serviços quando da negativa na informação buscada. Mas quanto a isto guardo absoluta incerteza. O fato é que me tornei cliente, com o devido aviso que posso optar por outro a qualquer momento, posto que não sou aquele que cumpre o “volte sempre”.




Numa das vezes que voltei lá, Alan Davis me acompanhou. Ele também estava disposto a cortar seu cabelo no mesmo local. Mas havia um detalhe que eu já tinha lhe avisado e que foi comprovado, e que o fez declinar de sua intenção de corte. O fato literário é que para contar tal detalhe é preciso reiniciar a narrativa, de maneira que fica feito o pedido de licença.



Adentro ao salão de cabeleireiro e cumprimento a proprietária. Creio que seja a terceira vez que retorno. Informo que quero cortar uma vez mais com aquele profissional, que mal me cumprimenta, sem responder ao meu mecânico “tudo bem?”. Isto não me traz incômodo algum, posto que trago comigo a compreensão sobre aquele jovem rapaz. E ele, de modo igual aos outros dias, traz no semblante a marca de um estado visivelmente depressivo. Já não preciso dizer como quero corte e o atendimento é feito em absoluto silêncio de ambas as partes. E isto não é ruim a meu ver. Afinal de contas, o corriqueiro papo furado dos cabeleireiros de nada me vale.



Já troquei inúmeras vezes de salão. Dos tantos cortes feitos, poucos me agradaram. Passei até por escolas de formação destes profissionais de salão de beleza em tempos de vacas fracas e magras. Também já me arrisquei nas grifes do mercado. E em alguns que acertaram no corte eu confiei o retorno, porém o acerto anterior mostrou-se ter sido mero acidente. Sim, sou muito exigente neste aspecto. Acho que é vaidade, não sei. Também não importa. Se não me contento, não volto. E se volto, não significa que virei sempre. Sou um cliente inconstante, o mercado que me decifre.



Poucas vezes olhei nos olhos do jovem rapaz que corta meu cabelo, cujo nome não faço ideia. Há de nossa parte puro profissionalismo, mero rendimento à prestação de serviços. De qualquer forma, embora eu não queira puxar assunto, guardo comigo a curiosidade em saber o motivo de tanta tristeza nele. Um sujeito com severa deficiência de comunicação e que trabalha com o público. Calculo que diariamente ele tenha que vencer batalhas internas para estar ali.


Já faz quase duas semanas que estive lá para mais um corte, que novamente foi feito com grande competência. Todos sabemos que o cliente adora ser bem tratado, e que se for possível dosar afetividade no atendimento, a chance de cativá-lo será muito maior. Mas o cabeleireiro triste não traz consigo preocupação alguma em cativar aquele que se senta à cadeira para que ele opere pente, máquina e tesoura. É como se apostasse em seu grande talento para o corte e deixasse de lado qualquer tática de marketing, mesmo as intuitivas ou as aprendidas com o passar dos anos. De minha parte, sigo absolutamente satisfeito como cliente, posto que ele consegue resultados que não obtive em outros salões. Além disso, não preciso me preocupar em ser simpático, ou ter que falar sobre o tempo, ou coisas que em nada me interessam. Sento-me e aguardo o término da boa prestação do serviço. Pago e me despeço com cortesia.


Alan Davis quando me acompanhou ao local em questão, demonstrou indignação com tanta tristeza. De tal maneira, que declinou da intenção do corte. Como é um sujeito literário, percebeu no cabeleireiro um personagem para um texto. Falamos a respeito e eu confiei nele a minha intenção de escrever sobre o sujeito.


Em outros dias, às vezes, no caminho escolhido, passo em frente ao salão quando me dirijo ao trabalho. Já ouve ocasiões que vi o cabeleireiro ao ar livre fumando um cigarro. E fiz cálculo preciso de que nem precisava me preocupar em cumprimentá-lo, posto que para ele isto não faria diferença alguma. E assim foi, pois olhei em direção ao rapaz e não recebi gesto algum de quem esperava ser cumprimentado.


Na última vez que cortei o cabelo com ele, eu estava mais pensativo. Refletia comigo tratar-se de um sujeito com depressão e que se nega a algum tratamento. Prefere o enfrentamento da tristeza, ainda que nesta luta seu semblante diz de quem é a vitória. Trabalha ali também uma bela mulher negra e que parece ser a dona do estabelecimento. Na primeira vez que utilizei os serviços do local, reparei bastante nela, carregado de dúvida se ela não seria a esposa do cabeleireiro, ou algo do gênero. De maneira que nas vezes seguintes optei por não mais reparar. Já percebi que eles trocam algumas palavras. Já supus que de fato ela fosse sua esposa, e seria aquela que compreende o estado febril da alma do seu companheiro. Mas jamais tive coragem de perguntar.


Para não ser leviano, digo que ele já sorriu. Quando entendeu equivocamente que eu queria que penteasse meu cabelo após o término do corte feito. Aí é com você, disse de modo espontâneo e simpático. Pedi um creme para peinar e ele exagerou na dose. Enquanto eu penteava o cabelo, ele parecia sentir algum desconforto, que eu imaginava ser em função de suas emoções pela depressão presumida. Fiz o pagamento em papel moeda e outra vez mais apertei sua mão, sem receber dele neste momento alguma expressão de simpatia. E fui embora com o desejo de um texto. Mês que vem eu volto.















Na teoria é mais barato

quinta-feira, maio 06, 2010 · 1 comentários

um ex-perdulário e suas reflexões


Talvez tenha ido tomar um café como quem deixa a alma e leva apenas o corpo. Era um grito de liberdade. Mas tudo bem que todo grito dura pouco. Essas revoltas internas as têm todo e qualquer ser humano. E isso nem é ruim, ainda que momentaneamente incomode.


É um pequeno mercado o estabelecimento e há uma lanchonete muito bem instalada ali. Pediu um café e ao ver a máquina de espressos contentou-se de pronto. Mas não lhe serviram na xícara, senão no copo americano. Tudo bem, calculou consigo, este café é mais barato. Ademais, qualquer um estava bom. Talvez precisasse muito mais do ato do que do prazer do sabor. De maneira que, sentiu-se agraciado pela qualidade ruim da bebida servida. Via no exagero do açúcar pretexto para escrever.


É fato que tem diminuído os cafés por aí. Cansou de ser perdulário. De deixar dinheiro no caixa alheio e ver a conta bancária sempre vazia, quando não, negativa. Já ouviu dizer que o papel, submisso, aceita tudo. Mas foi somente quando usou deste que percebeu que as contas não fechavam. Antes, tudo era calculado mentalmente. E na mente, na idealização, o dinheiro pode tudo, dá para pagar mais essa conta. Bastou uma planilha para ver que tal desejo, aquele curso, uma viagem, ou o que fosse, não dava. E também que era imperioso diminuir os cafés e as porções.


Mas deixar de ser perdulário não se dá assim tão rapidamente. Pode ser que haja alguns escorregões ainda e algum dinheiro vá embora como água em torneira aberta. De certo, porque todo aprendizado requer tempo e atrito.


Já na batalha pelo equilíbrio das contas somou gastos supérfluos em restaurantes e lanchonetes. O resultado final deixou nele a marca da indignação. Eram gastos evitáveis, pensou consigo. Nos meses seguintes mais rigor e auto-fiscalização, determinou pra si.


Observou os indivíduos que possuem aquisições materiais, como um automóvel ou uma casa. Conversou com um ou outro. Extraiu conselhos. E aprendeu que sanar as dívidas é condição necessária para obter capacidade de poupança.


Mas não estava só, ele não era exceção, senão mais um que não é bom gestor de suas próprias finanças. Em verdade, a maioria das pessoas com quem conversou está em situação igual. Um exército de perdulários. Endividados até o pescoço com cartões de crédito, cheque especial e empréstimos.


Refletiu como estaria a economia se as pessoas gastassem mais com educação do que com juros. Passou a acreditar que as escolas financeiras deveriam ensinar gestão financeira doméstica, se este for o nome mais correto para isto. Como seria este ou qualquer país com mais recursos para a educação e não para os bancos em forma de juros, indaga-se. Fez a seguinte comparação como exemplo. Do empréstimo consignado que tem, é descontado determinado valor ao mês. Com esse dinheiro é possível pagar um curso de inglês em seu bairro, que em verdade, custa menos que o valor pago ao banco. Simples reflexão. O aprendizado da língua inglesa pode ajudar para um emprego melhor, bem como ganho cultural. O empréstimo foi feito para pagar outra dívida, cujos juros eram maiores.


O sujeito em questão precisou perder muito dinheiro com juros e projetos errantes para acordar e mudar seu comportamento financeiro. Isso quase aos quarenta anos de idade, quando parece sair de devaneio profundo de desmandos financeiros. De certo, faltou-lhe teoria, posto que aprendeu na prática, e o preço pago foi bastante alto. Fica a pergunta de como tornar sua experiência útil para os outros. Os mais jovens que adentram ao mercado de trabalho, ou aqueles que já estão na estrada faz tempo, escalpelados por tanta cobrança de juros. De certo, não será uma simples leitura que mudará isto. Mas como disse, é preciso teoria para evitar o aprendizado da forma já dita aqui. Assim é mais barato.



Sem rumo literário

terça-feira, abril 27, 2010 · 0 comentários

O papel dobrado recebe passivamente as palavras de agora. Não há rumo literário. Objetivo que existe é tecer palavras sem mensagem que seja. Apenas desreprimir vocabulário preso em mim por razões que desconheço. Este não é um texto para o leitor.

Sentando, estou onde já estive em diversas viagens. Pela janela não olho a paisagem de tantas vezes. Nessa caixa de metal, de nome vagão, diversas pessoas dividem civilizadamente este circunstancial espaço.

Travo, pois não é fácil a desrepressão literária. Tudo bem, não me angustio. Faço do bloqueio tema deste parágrafo. Isto eu já fiz diversas vezes, e recebi conselhos para não mais fazê-lo.

Tenho lembranças comigo. De fatos. De leituras. De alguma emoção. Mas não utilizo de nada disto. Prefiro este vazio de ideias. Por ora, é só o que tenho.

Música popular brasileira. Dois jovens se sentam aqui ao lado meu, agora. É fato que utilizo agora. Eles cantam, fazem o dueto urbano. E cantam com talento. É um presente ganho sem pedir. Mas não me iludo, já houve vezes em que o que se tinha era aparelho eletrônico ligado e funk em volume alto.

Belas pernas estão sobre salto alto de cor azul-piscina. Ela já tem alguma idade. Segue viagem em pé. Olho lascivamente enquanto delineo palavras. Mas não busco um flerte. Apenas olho gostosamente o que se mostra belo para mim. A MPB prossegue...

Já faz tempo guardei bastante papel na mochila. As folhas estão manchadas não apenas pelo tempo, calculo. Seguiram à espera de mim, e eu também me esperei. Mas nas esquinas de encontros, eu não compareci. Dormi, e acho que exagerei. Foi um silêncio sem esforço. Fechei questão, estava vazio, na havia o que escrever. E hoje estou aqui neste texto em frangalhos.

Cada folha branca aqui foi dividida ao meio pela dobradura do papel. Isto ajuda na organização do texto, bem como trás facilidade anatômica. E isto é apenas dito. Alguém vai me perguntar o motivo de dizer isto? Alguém pode responder se tudo precisa de motivo?

Três estações do metrô e um parágrafo para terminar o texto. A letra em garrancho é até proposital. É blindagem contra olhos alheios. Depois me viro para reler e digitar o texto. Mas isto também não importa. Façamos o seguinte, daqui até o final deste parágrafo nada deve importar. Informação alguma deve ser dada. Usemos de a estação que falta para fazer silêncio absoluto. De palavras, de pensamentos...



Antes da última estação

quinta-feira, abril 15, 2010 · 0 comentários

O que gostaria de fazer ao entrar foi possível fazê-lo, que era tecer algumas palavras. Um fluir de bons sentimentos é que lhe davam o apetite literário. Ali, parado à espera do embarque de volta para sua casa, debatia para si o seu futuro. A resolução de incertezas traziam-lhe certas esperanças. Recordou com satisfação tantas indecisões, e calculou que elas eram fruto de falsas crenças, bem como medos criados. Agora o tempo lhe abria os olhos e o chão se mostrava mais firme. A melhor opção, calculou, seria a que trouxesse mudança no menor espaço de tempo.


Seguia para casa, onde teria alguns momentos com pequeno ser, sobrinho seu. Já optara faz tempo por não ter filhos, gosto maior que tem pela liberdade. Refletia. Concluíra que falar de si é falar pelo outro, posto que vê poucas diferenças entre as pessoas. Muitas vezes até os problemas são os mesmos. De todo modo, à medida que escrevia sentia o crescer da frustração. Não se convencia que a soma produzida de palavras fosse algo que lhe agradasse. Pensava mesmo que produzia certa pobreza literária. Assim mesmo, e sem saber por que, não desistiu, e nem pensava em desistir. Era o fio de esperança de no decorrer da escrita encontrar uma ideia que lhe desse o presente do bom texto, o que se tratava, evidentemente, de uma incerteza.


Foi então que comparou o momento com outros vividos, quando de grandes dúvidas, incertezas, sobre novos rumos da vida. Talvez, ao contrário de agora, sentisse o medo de tempo perdido. Não queria errar ou dar passos em vão. A soma de passos errantes o fizera mais reticente, cauteloso, o que, evidentemente, é positivo. Mas nas crises sentia-se inábil para tomar uma decisão. Foi preciso que se passassem os dias para perceber que se tornara alguém mais ponderado, reflexivo.


No passar da paisagem lá fora, a constatação de que a vida ganhou do texto. Se ao conseguir decidir sobre seu futuro e se perceber obteve prazer, conforto, ao escrever não foi assim. Antes do término da viagem resolveu dar cabo do ato da escrita, quase que com a coincidência da última estação.



Durma bem

domingo, abril 04, 2010 · 0 comentários

Luz apagada. Lucidez de devaneios. Contestações a cerca da realidade vivida. Portas que se mostram. Fios de esperança. Ali, em meio à escuridão e o som do computador ligado para tarefa necessária, a construção de um texto. Uma insistência e o surgimento de uma idéia qualquer. Como que forçasse a caneta no papel, pressionada entre os dedos, sem ver tinta alguma sair. Não havia papel, nem havia caneta que fosse. Mas o que tinha era o principal de tudo: palavras. Uma a uma foi surgindo na escuridão no quarto seu de dormir. E foi então, considerando a novidade da idéia, que se acendeu a única lâmpada que ilumina o pequeno quadrado de quatro paredes, todas forradas de papel decorativo. Tomou-se folhas com os versos em branco , e antes disto a caneta esferográfica azul.





Sim, houve algum entusiasmo, espécie de comemoração. Ultimamente não se tem escrito quase nada, ou mesmo nada. E não se deixa de fazê-lo sem se incomodar, muito embora escrever não provenha sustento seu. Agora, sob luz amarelada, olhos a percorrem o quarto em busca de algo a dizer. Talvez a luz que ilumina seja espécie de obstáculo, como que envergonhasse a criatividade. Mas isto não se pode considerar como verdade, do contrário o que se teria agora era silêncio de palavras. O engano, o motivo dele, é possível indagar razões, descobrir o que seja que explique, mas declinar é opção escolhida.



Não demora, a luz será outra vez apagada, sem sequer dar um “boa noite”. E não que algum sono se anuncie. Vai-se mesmo é buscar o refúgio da escuridão, sem significar isto algum sofrimento instalado. É que é gostosa a escuridão do quarto protetor. Diferentemente de outras escuridões, sobretudo às de ruas desconhecidas. Muitas das quais, a esta hora, dormem inúmeras pessoas. Elas que surgem aqui sem pedir licença alguma. Mudam o rumo do texto. E o fazem sem antes dar um “boa noite” de quem chega. Essas mesmas pessoas que ao dormirem ninguém lhes deseja um “durma bem”. Mas isto é dito de modo bem incerto. Vai ver que entre elas há o desejo proferido de quem quer pra si o que deseja ao outro.



Confissões de um homem que se tornou tímido

quinta-feira, março 25, 2010 · 0 comentários

Os meus olhos não apenas buscavam os olhos dela, era mira na alma. Talvez eu desejasse tocar com faísca seus hormônios da atração. E que olhos lindos os meus viam diante de si! E tudo nela me parecia tão belo que por vezes eu sorria de contentamento e admiração. Mas não é fácil estar diante de tamanha beleza sem perder as rédeas. E eu já li que uma mulher bonita baixa a cognição de um homem. Eu estava um tanto perdido e tinha que lhe responder às perguntas sobre algo que em nada tinha a ver com meus anseios em relação a ela. Mas funcionava como pretexto. A dúvida era saber se pretexto apenas meu. Essa incerteza é que fazia viver minha esperança.

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Os minutos se passavam. Eu já dava como garantida frustração ao longo da noite. Logo ela se ia, seu tempo era curto. E em meio à minha circunstancial inabilidade para explicar o que fosse, ela ficou os poucos minutos, vinte talvez. Arrisquei algum outro assunto, eu tentava criar alguma intimidade. Sim, eu já a conheço há algum tempo. Já a achei linda diversas vezes. Mas nunca fiz aposta que fosse. Era apenas uma admiração, coisa normal.

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Pior é escrever isto, com o corpo ainda trêmulo, com a possibilidade de estar enganado. Acho que sou um pessimista do amor. Tudo bem que ela aceitou meu pré-convite. Consegui um gancho e fui certeiro na afirmação de que um dia a levaria para conhecer o jazz. E ela demonstrou afeição pelo meu gesto. E acho que fui discreto, não mergulhei de cabeça no pré-convite. Fui cuidadoso e acho que isso ajudou.

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Ao anotar seu telefone em meu celular, digitando precariamente os números que ela me dava, eu temi que ela percebesse minha tremedeira. Pois veja, eu tremia diante de uma mulher de vinte quatro anos. Que ainda até tem cara de menina. Vestida com seu jeans justo e botas pretas de salto alto. Uma mulher, em verdade, que me fazia recordar “Lua de Fel”, o filme. Refiro-me à linda atriz que fazia uma personagem que mudou do vinho pra água, ou vice-versa, não importa. Eu preciso de um copo d’agua!

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Ela levantou-se à minha frente e eu não entendi bem seu olhar, sei que gostei. E eu apenas olhei para seu rosto, embora meu desejo fosse percorrer meus olhos por seu belo corpo. Saiu pela única porta da sala, dizendo que não deixasse de ligar para ela. E já agora, mergulhado no pessimismo citado, carrego severas dúvidas de que ela de fato vá aceitar sair comigo. E se consigo burlar meu ceticismo, me vejo com ela à mesa absolutamente incerto de que poderei beijá-la, tocá-la. Penso comigo se ela apenas sair por sair. E já calculo não apenas absoluta inabilidade na sedução, bem como frustração garantida. Acho que me tornei neurótico nesta questão, isto me lembra Woody Allen.

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O fato é que a idade passa e se você acha que se fortalece, pelo contrário, alguma coragem que já tive na arte de seduzir se mostra adormecida, senão morta. Tornei-me mais seletivo com o passar da idade. Isso me foi dito por meu irmão mais velho, alguém bem mais experimentado do que eu. Mas eu sempre fui mais cara de pau. E agora o que sou, senão pote até aqui de insegurança? Chico Buarque falou das emoções e o pote. Ele que sempre foi um homem muito desejado por muitas mulheres. Será que Chico tornou-se momentaneamente vacilante?

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No rastro da memória, a imagem dela de preto e jeans. Linda, cabelos presos, sensual sem forçar a barra. Saindo pela porta e falando me olhando enviezado. No pescoço, a tatuagem que eu nunca reparara. Eu que sou tão careta e não me condeno por isto. E ela que é tão jovem, tão impossível. Enfim, estas palavras são o remédio de agora. Foi o jeito encontrado para descarregar essa energia que passa pelo meu corpo.



Botão para terminar

sexta-feira, março 05, 2010 · 0 comentários

Eu tomei meu café e acho que comi alguma coisa, mas talvez eu misture os dias. Paguei a conta e saí com rumo ditado pelo horário de trabalho, eu fazia meu intervalo. Na mesma calçada, não tão distante, vi um homem que me lembrou o Boris Casoy. Recordei-me imediatamente da mancada que ele deu no início do ano, aquela questão do gari. E me veio à mente também o dia em que ele deu uma entrevista para meu grupo de estudo lá na Praça Benedito Calixto. Éramos simples aprendizes de cinegrafistas. E o Boris foi muito gentil, muito simpático. Ricardo Kotscho escreveu em seu blog que quem conhece o Boris não se surpreendeu com seu comentário sobre o gari. E disse ainda que a maioria dos jornalistas pensa igual, assim mesmo, cheios de preconceitos. Bom, então estas pessoas não são lá muito diferentes da maioria de nós.

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Caminhei em direção à empresa, eu precisava chegar a tempo de bater o cartão. Falando assim parece que havia atraso, não havia. Era apenas cumprir a obrigação, no papel que eu exercia no ínterim. De certo, eu queira recordar algo que fosse para escrever aqui, mas não recordo.

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Levantei-me tarde novamente. Mais meia hora e já iria para o trabalho. Sempre que faço isso o arrependimento me domina. Mas lá na hora, deitado à cama, o desejo de permanecer debaixo do cobertor é forte demais. Já dei muita asa a ele, agora fica mais difícil dormir menos. Não é que eu me atrase para o trabalho, nada disso. Chego no horário. Mas é que é dormir demais, o humor não fica lá tão bom.

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Hoje é dia de pagamento, o dinheiro já caiu na conta. Já paguei algumas contas. Fiz cálculos, o dinheiro vai dar. Queria que fosse mais, sem dúvida. Nessa hora nem lembramos daqueles que têm renda baixa, ou nem renda têm. Queria comprar um carro, financiado mesmo. Queria que fosse pra já. Aprendi que tudo tem que ser para agora. Isso até dá angústia. Acho que saber esperar é a grande sabedoria. Mas difícil pôr em prático isso, complicado.
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Conversei com amigo que é bom na gestão do seu salário, eu precisava de referências. Ouvir a experiência alheia, num ato de humildade de quem reconhece sua inaptidão para finanças pessoais. A gente pega um toque aqui, um ali. Absorve. Depois vem a prática, que diz se você aprendeu ou não.

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O futuro perguntou-me o que eu planejava, o que eu queria. Senti-me aflito, estava em dúvida. Tinha que ter alguma perspectiva para dar sentido a tudo. Mas já perto dos quarenta a gente tem mais pressa. Devia ser ao contrário, com a maturidade. Cronologicamente está correto, o tempo é menor. A vida vai subtraindo anos. Acho que é assim, uma subtração, não uma soma. De qualquer forma, o prazo de validade pode ser alterado, vai do modo de vida. Afora as circunstâncias da vida, o inesperado, o improvável.

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Daqui a pouco já estou na cama novamente. Esse momento que temos. Que é hora de refletir, sentir-se protegido e acolhido. E quem não tem esse momento, como faz? Não zera tudo, vai acumulando mesmo. Mas será assim mesmo? Pode ser que a pessoa que dorme ao relento tenha sua adaptação, e assim mesmo zera tudo. Amanhã tem mais.

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Debaixo do coberto, nesse friozinho de verão. O clima já não parece ser dos mais acertados, faz tempo. A gente já se acostumou. Mas Sampa é assim não de agora. É preciso estar preparado para os climas de uma mesmo dia. Quando se fala assim, a platéia é a incluída. E isto até dá uma sensação de impotência. Não dá para mudar o mundo. Ele não vai ser como a gente quer. Vai seguir assim mesmo, cheio de deficiências. O jeito é fechar os olhos? Dormir?
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Para terminar o texto, faço um desenho virtual. Imagino simples botão e o aperto. Botão de uma vez só, apenas para desligar. É o jeito que encontrei de terminar este texto. Confesso que não tenho outro, já que ele é circular. Peço desculpas pelo jeito, a artimanha. Mas às vezes temos de usar artifícios. Podem chamar isso até de falta de criatividade. Podem chamar como quiser. Eu, de minha parte, apenas aperto o botão.



Os problemas de cada um

sexta-feira, fevereiro 26, 2010 · 0 comentários

Você anda pelas ruas e avenidas da sua cidade nos diferentes cantos do mundo, e vê tanta gente. Não sabe o que se vai em cada uma delas. Não enxerga sua alma, nem há como fazê-lo de modo preciso. E se você não está bem, calcula que todos estão melhores que você. É como se no vagão do trem da vida, o pior lugar fosse o seu. Mas claro, tudo isso é exagero.
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O rapaz deitou um pouco das suas histórias. Entre elas, as dificuldades com o pai e mãe. Ambos com severos problemas de saúde. E ele como filho único a cuidar dos dois, que faz tempo já se separaram. Estes pais que um dia cuidaram dele. E enquanto o jovem contava a sua realidade, sem fazer isto de modo a buscar compaixão, demonstrava serenidade. E diante da afirmativa de que estava lidando bem com tudo, não negou a impressão causada. Esse rapaz já tomou o rumo à sua casa faz algum tempo neste dia de hoje. Já escreveu o trajeto pra sua casa. E já foi visto por inúmeras pessoas.
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Não sei qual meio de transporte ela utiliza para ir à faculdade. Isto seria detalhe interessante. Mas o que vale é que ela é vista por muitas pessoas. Aqueles que a notam, não se pode afirmar o que pensam. Também não sei se é possível perceber que ela vive dias turvos, causa da sua segunda separação com o mesmo marido. Fato que lhe tem dado dias tão "pesados" e que trazem o "cansaço emocional" de agora. Uma mulher muito especial, mas que a vida resolveu lhe ser dura por duas vezes. Pudesse beijá-la a face e ofertar-lhe algum sorriso, o faria sem pestanejar. O que me sobram são apenas palavras de conforto, bem como de divisão dos meus momentos. Detalhes da separação não os tenho. E de fato o que menos tenho são detalhes.
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Quando saiu do consultório sentia-se confuso, perdido. Viu que abandonar a terapia era melhor jeito de seguir a vida, precisava tomar as rédeas de si novamente. Claro que culpou a terapeuta por sentir-se tão indeciso. Mas claro que também deve exagerar na crítica. Tudo bem que suas decisões se mostram vacilantes à primeira crítica, a tal ponto de recuar na decisão. E aí por vezes se vê vacilante. E comete enganos, atrasos e faltas. Esse é seu pequeno sofrimento de agora.
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Não se trata aqui de comparar os três sofrimentos, senão mostrar que cada um sofre numa certa medida. O macro é o sofrimento. O que se pretende aqui é manifestar o desejo da compreensão. A cara amarrada, a pequena arrogância - quando não muita -, a falta de paciência, as deseducações. Tudo que pode ser circunstancial. E tudo que pode ser compreendido. O caminho da compreensão pode ser o da paz com os outros. E a melhor maneira de praticar isto é ver no outro seu espelho. E você pode fazê-lo andando pelos diferentes lugares porque passa. E isto se dá pelo mundo. Na rua de agora, na avenida de ontem. Nos lugares de amanhã. Em todo este mundo. E não é que estejamos num mundo de só sofrimento. Este faz parte. Todos temos nossa vez. A forma como reagimos é que difere, disse-me a mulher especial de um dos parágrafos deste texto.
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Daqui a pouco, tomo meu rumo. Vou para a minha casa. De ônibus, creio. Na vinda pra cá, para o trabalho, vi muitas pessoas. E fui visto por outras tantas. Observei, que sou observador, embora às vezes me cerre em meu mundo. E tantos outros indivíduos fizeram o mesmo que eu: deslocaram-se. Viram. Foram vistos. Cada um com seus pensamentos, suas alegrias, suas mazelas. Tudo na sua medida. É este um pouco do nosso mundo. É um pouco da nossa vida. Que passa do mesmo modo que passamos pelo outro pelas ruas e avenidas. Assim caminhamos.



Pela intervenção no DF

sexta-feira, fevereiro 19, 2010 · 0 comentários

Instalada a crise no Distrito Federal, com o governador em exercício preso, e o vice acusado de participação no mensalão do DEM, o melhor seria uma intervenção federal. Ao menos, o que se teria seria um interventor de ficha limpa, pois não se colocaria, diante de tamanha crise, uma pessoa com histórico sujo. Aliás, seria bom se o povo tivesse esse mesmo cuidado.
D
Se assim o fosse, Arruda não teria sido eleito para governador do Distrito Federal. Em verdade, estaria fora da vida pública depois de seus feitos no Senado. Para o eleitor ruim de memória o blog relembra quando José Roberto Arruda, juntamente com Antônio Carlos Magalhães, já falecido, violou o painel de votação do Senando. Uma prática absolutamente contra as regras estabelecida na Casa, o que fere o princípio democrático de respeito ao jogo.
C
Parece que o nome mais cogitado para ser o interventor no Distrito Federal é o de Sepúlveda Pertence, cujo nome é bem visto pela sociedade brasileira. Neste sentido, seria virar do avesso o governo em crise. Em uma tacada só teríamos dois problemas resolvidos: o expurgo de pessoas indignas para a coisa pública, bem como o fim de uma crise que se arrasta há algumas semanas.
B
Vale dizer que a cassação do mandato do governador, vice-governador e presidente da Câmara dos Deputados no DF fecharia a equação. Sem deixar de fora parlamentares que se beneficiaram do mensalão do DEM.
A
A crise, por fim, veio no momento certo, perto das eleições deste ano. Com a memória mais fresca, o povo estará mais arisco para votar. Isso é que se espera não apenas em Brasília, mas por todo o país. E parece que vale à pena perguntar quantos mensalões não foram revelados e quantos ainda vigoram país afora.



Outra pausa literária

sábado, fevereiro 13, 2010 · 1 comentários

Faz-se pertinente parar. Sim, é imperativo fazê-lo. É fase, não cabe preocupação. Crê-se que seja bom silenciar textos. Calar. Descansar papel rascunho e tinta de caneta. Afastar-se do teclado que digitaliza o que fora escrito no papel. Sem culpas. Sem cobranças. Angústia que seja. É entender que a vida é assim mesmo. Vez em quando é preciso parar, sentar-se, contemplar. Absorver informações. Deglutir sentimentos. Olhar. Sentir. Mas apenas quando for permitido, a hora certa sem escolha.

O autor do blog entra em uma nova fase de sua vida. Adentra à faculdade de Sociologia, de onde pretende tirar elementos que o ajudem em reflexões. Possivelmente, o que escreverá será guiado pela nova faculdade. A de jornalismo está completada. As aulas trouxeram inúmeras inspirações. Espera-se que com Sociologia não seja diferente. É estudar para escrever.

Em face de uma ausência sincera de textos, o blog se cala. Mas não é um fechar de portas, um ficamos por aqui, acabou a história. É apenas um silêncio. Como quem se senta à carteira de uma faculdade e assisti às aulas. Vez em quando manifesta suas opiniões, responde a alguma indagação. Se aqui no blog for assim, pois bem. Senão for, que o seja assim. É liberdade. É respeito por si. Pelo momento. Pela fase. No mais, é uma pausa. O tamanho dela não é sabido. E se ela se dará de fato, tampouco se sabe. É apenas silenciar. Simples assim parece.



Arroz com linguiça

segunda-feira, fevereiro 01, 2010 · 0 comentários

Aquele que tem como benefício trabalhista bom vale-refeição pode fazer uso cotidianamente de um restaurante que caiba no benefício. Para quem possui altos rendimentos de modo autônomo, um bom restaurante como opção é algo comum nas horas de intervalo para almoço. Mas para uma parcela dos trabalhadores o jeito é levar marmita de casa.

O sujeito não estava satisfeito com a academia que freqüentava. Bom, para dizer a verdade, não estava satisfeito com nada. Mas naquele momento elegera um alvo como forma de não resolver o motivo de tanta insatisfação. Antes de almoçar e ir para o trabalho, resolveu dar uma olhada naquela academia. Pior é que escolhera uma que não cabia no seu orçamento, era essa a desconfiança que trazia consigo. Mesmo assim, agendou uma entrevista com um consultor. Escolhera a unidade que fica em um dos endereços mais caros da cidade: Avenida Paulista.

Já no atendimento surpreendeu-se com a excelente forma física da recepcionista, o que lhe pareceu excelente tática de marketing. Mostrou-se inábil na comunicação com a simpática morena. Há dias que é assim mesmo, nem consegue ser simpático. Inseguro, aceitou preencher uma ficha, que funcionava como uma triagem, que depois seria encaminhada às mãos de um consultor, o qual o claudicante rapaz deveria esperar em uma das mesas ofertadas pela recepcionista.

Não se simpatizou com o consultor, e em dias de ebulição de emoções dificilmente se simpatizaria com alguém. Também lhe desagradou a comunicação mecânica daquele jovem que se mostrava um pouco tenso. Era uma manhã de um dia qualquer da semana e a academia estava cheia. Sim, realmente se tratava de um excelente local, freqüentado por gente endinheirada da cidade em busca de “resultados garantidos, ou o dinheiro de volta”. Para tanto, o preço a ser pago é bastante salgado.

À medida que o consultor mostrava a estrutura da academia, crescia em nosso candidato a aluno sincera preocupação quanto ao preço a pagar nas mensalidades. Declinou quando lhe foi perguntado se queria conhecer os vestiários. Foi objetivo na resposta e afirmou querer conhecer os planos de pagamento.

O jovem consultor, que é formado em nutrição, seguia à risca o script do atendimento com as táticas de vendas aprendidas em treinamento. Não, não era possível para o rapaz pagar o valor mínimo cobrado no débito automático, os trezentos reais ao mês. E de nada adiantou a oferta de desconto para que matrícula fosse feita agora.

Apressou-se em se despedir do consultor. Pegou sua mochila rasgada. Colocou-a às costas e saiu acompanhado de alguma frustração. Daqui a pouco, almoçaria solitariamente. Dentro da mochila, sua marmita com o par de alimentos. A lingüiça fora comprada em Minas. O arroz fora entregue na cesta básica que recebe todo mês.
l
Detalhes técnicos
Texto escrito na estação São Bento do metrô
A criação do texto se deu enquanto o autor estava no stand da empresa em que trabalha, fazendo atendimento ao público
Texto escrito em 20Jan2010 em folha de rascunho; digitado em 01Fev2010 no computador do trabalho às 15h
Texto enviado para revisão ao término da digitação; revisão feita por Adalton César



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
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