"Memorial de Maria Moura"

domingo, dezembro 27, 2009 · 0 comentários

breve resenha


Faz tempo aprendi que o amor entre pessoas não está garantido pelo grau de parentesco. Muitas vezes corre sangue seu na veia daqueles que são seus maiores inimigos. E exatamente dois primos foram as pessoas que mais desejaram a morte de Maria Moura, uma líder de um bando, que herdou terras de seu pai e teve que correr atrás para tomar posse delas.

Limoeiro era o nome do sítio de Moura, tão cobiçado pela dupla de primos, comandados pela esposa de um deles, aquele que era o mais sanguinário, mas que acabou morto pelo bando de Moura. De qualquer forma, não se pode dizer que estes eram os maiores inimigos desta mulhler qu se tornou destemida na história escrita por Raquel de Queiróz. Em verdade, aquele que lhe fez mais mal foi exatamente o homem que ela amou. A traição colocou em risco a vida de Moura e seu bando. Maria Moura declara a um primo adotado que tal homem é seu maior inimigo. E isto se dá exatamente por amá-lo.

Antes do dia em que seu homem pagasse com a vida pela traição, ele e ela tem uma última noite de amor. Para o espectador é revoltante ver que ela se entrega a ele depois do modo como ele a traiu. O momento exato de sua morte fica em suspense face à habilidade do diretor desta mini-série produzida pela Globo. O casal dorme após os desejos de seus corpos saceados. Pela manhã, ela o ordena que se levante e vista-se. Feito isto, diz a ele que está livre, pode ir. Ele se despede e fala em amor. Maria Moura, embora líder de um bando de malfeitores, é uma mulher com suas fragilidades. Sempre precisou de um homem para amar. E sofre com toda esta situação. Por ter confiado em Cirilo, vidas foram tiradas.

Cirilo se veste. Despede-se e caminha mancando rumo à saída. Um dos homens de Moura ajuda-o a montar a cavalo. E Sirilo parte com o mesmo sorriso cínico na face. Até que o primo adotado chama por Cirilo e lhe confere um golpe de faca no coração. Seu algoz é homem de circo, atirador de facas, e jamais havia matado alguém.

De dentro da casa, no quarto onde se amaram, chora Maria Moura. Sofre a morte do seu homem. Explicita sua fragilidade tantas vezes demonstrada em diversas passagens da história. O lenço branco com o sangue de Cirilo deixado à mão de Maria Moura é a satisfação dada por aquele que cumpriu tarefa inédita. É exatamente o sangue daquele que salvou a vida de Maria Moura por duas vezes.



Pequena viagem literária

terça-feira, dezembro 15, 2009 · 0 comentários

texto escrito em 25 de novembro deste ano

Abro cotidianamente a porta da sala e adentro à casa onde moro. Na cozinha há alguma luz que vem do quintal. John está sentado à porta que dá lá fora nos fundos. É costume seu ler ali sentado com a luz do jeito que lhe agrada. Não sei a idade de John, mas certamente já passou dos cinqüenta. Mas é tão jovial que de certo é rejuvenescido pela boa alma que tem. John é inglês e aluga um quarto em nossa casa. A negociação se deu entre ele e minha mãe, que já sonhou abrir uma pousada. John entende um pouco de português mais do que eu entendo seu inglês. Felizmente, a comunicação tem sido possível e até agradável.

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Por esses dias minha alma tem estado um tanto turva. Uma indisposição física me tem, o que me faz letárgico demais. Mas por hoje há uma trégua disso tudo e já me sinto melhor. Já há até alguma vibração em mim.

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De certo, alguma leitora amiga se perguntaria o que há comigo. Digamos que eu necessite dar essa resposta, mesmo que não haja a pergunta citada da amiga inventada. É como se os sentimentos meus dormissem sono silencioso. De maneira que um descaso generalizado tenha se instalado em mim com relação a tudo, inclusive escrever. Como se a porta necessária tivesse sido fechada. E por tantos dias eu me tornasse um silêncio chato. Vai ver que em meio a esse cinza de sentimentos e vontades, eu tivesse encontrado a chave de uma porta qualquer. E dela surgissem as palavras de agora.

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Ontem fomos avisados que em cinco dias a água seria cortada. A conta de agosto não fora paga. Algum problema ocorrera com o débito automático, talvez faltasse dinheiro na conta, o que já deixou de ser novidade. Deste problema, minha mãe fez sua tempestade, enquanto eu apenas colocava a conta em dia.

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Hoje não fui ao compromisso marcado. Não bastasse acordar atrasado, gastei tempo que não tinha ao telefone, a fim de saber o motivo da torneira seca. Nesses encontros que a vida produz entre coincidências indesejadas, esqueci o registro que abastece a caixa d’agua indevidamente fechado. A preocupação maior era com o nosso hóspede, o bom John. Depois sobraria tempo para pensar em nós. Mas foi a minha mãe que trouxe a boa notícia de que no piso térreo da casa havia água, assim o banheiro dos fundos, dito de empregada, poderia ser usado para o banho necessário.

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Já que não fui ao compromisso, dormir um pouco era possível e melhor solução para essa letargia toda. Alguém pode afirmar que isso é decorrente do calor intenso, algo que já pensei. Mas este desânimo generalizado se dá desde o final do inverno. Momento em que a boa amiga culpou a fria estação pelas quedas das vontades e mim. Respondi-lhe no mesmo tom poético com que fez sua afirmação, que não deveríamos culpar o inverno.

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Sei que naquela estação intensamente fria tive bons encontros com algumas poucas mulheres. Dentre as quais nenhuma ficou, senão na memória. No coração, segue o mesmo vazio. Eu ia dizer que é um vazio chato, mas já me pergunto ele não é necessário. No mais, é a vida correndo como quer. Enquanto eu vou sob o comando dos fatos, na independência que vejo neles, com a beleza que me agrada este modo de ver as coisas.

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Tantas vezes escrevi na Estação Vila Mariana por onde passa o trem agora. Mas eu desço na seguinte, o que me obriga a anunciar o fim dessa pequena viagem literária...



Pequeno fruto das emoções

segunda-feira, dezembro 07, 2009 · 1 comentários

Texto escrito em 23 de Novembro deste ano


O ônibus segue estacionado. O motor ligado indica que logo sairemos. E antes do término deste primeiro parágrafo o coletivo já dá início à sua viagem, que pelo horário deve ser a última do dia. Já que tantas emoções me invadem e traz incômodo, de certo é terápico dissolvê-las neste papel velho e branco.
Um suspiro de angústia e o receio de escrever sobre a mulher que me olha trouxeram-me a dúvida sobre o que se passou no ínterim do olhar, se é que se passou algo. Em verdade, não escrevo, pois nada há para escrever sobre tal mulher. Acho que é um pico de carência. Vai ver que é isso. Mas é bem provável que carência de fato é esta de escrever. De modo a deitar, agrupar palavras de jeito belo palavras que pedem passagem. O que se tem de fato é essa insatisfação literária. Que ilustra a vida. Por isso, essa emoção que dá nó no peito. Aperta. Incomoda. Fica... Mas é a vida. As circunstâncias. O momento. Talvez seja bom se adaptar. Daí, esperar. Fazer jogo com a serenidade. Melhor assim. Do contrário é faca na pedra.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


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