Concorda mas não assina

terça-feira, novembro 03, 2009 ·

Quando abracei a intenção literária de agora, parece que minha mente virou um liquidificador de ideias. Sim, eu já havia feito escolha do modo como iniciar. Mas a mudança se deu repentinamente, no primeiro dígito de letra necessária para formar a primeira palavra deste texto, uma conjunção de tempo. Vale dizer que a idéia central também foi abandonada. Optei por falar de dias transcorridos nesse tempo que não para, como disse Cazuza.

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Era tarde de domingo. Para amenizar aquela melancolia dirigiu-se ao shopping mais perto. Planejara comprar uma camisa ou calça, ou ambos. (falta precisão na informação dada pela lembrança). Sabe-se que experimentou diversas calças e algumas camisas, ou apenas um dos conjuntos das peças mencionadas, sendo que nada lhe agradou. De certo, frente ao espelho, a mudança necessária não era o que vestia a embalagem que é o corpo, senão a alma que pesadamente carregava.

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Deixou a loja de mãos vazias. Mas na saída do shopping deparou-se com forte chuva, não obstante a tempestade em si. Recuou e voltou àquela grande loja. Fazia tempo tencionava comprar um perfume importado. E ali onde estava era boa opção, posto que poderia parcelar em várias vezes, como de fato o fez. Foi embora satisfeito pela compra. E bastante surpreso com sua comunicação com vendedora e o caixa daquela grande rede de lojas


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Os dias se passaram. Voltou e comprou um jeans que fosse. Não adquiriu nada além da calça depois disto. Até que em agosto deste ano deparou-se com a edição do mesmo mês da Revista Idec, publicada pelo Instituto de Defesa do Consumidor. Tratava-se de uma matéria-denúncia contra a loja em que sempre comprou, o mesmo local do jeans e do perfume, além de tantas outras compras. Ocorre que a Revista Idec denunciava as Lojas Renner por ela não ter assinado um protocolo de não exploração de mão de obra estrangeira. Tal protocolo visava, sobretudo, proteger os bolivianos contra exploração análoga à escravidão por parte de grandes tecelagens no Brasil. A revista informava também que a C&A e a Riachuello também se negaram a assinar o protocolo.

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O seu cartão das Lojas Renner estava alavancado, o que significa dizer em linguagem popular que estava “estourado”. Por conta disto já não o utilizava mais. Diante de tal informação dada pela Revista Idec, sentiu-se no dever de confirmar o lamentável. O departamento jurídico da Renner tangenciou como é de costume, para depois confirmar que não assinou o protocolo, uma vez que "já o pratica". Diante da contradição da Renner, resolveu que faria o mesmo. Não compraria mais nesta rede de lojas, embora gostasse dela. Ou seja, a Renner concorda mas não assina. E o cliente gosta da loja, mas nela não compra.


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Recorda de sua infância. As brincadeiras com sua irmã mais nova, que mesmo cheia de certeza negava a aposta. Parece o mesmo caso aqui. E é possível que qualquer indivíduo mais desconfiado se indague porque as Lojas Renner, C&A e Riachuello se negaram a assinar o protocolo. No caso da Renner, com a afirmação de que já cumpri o que diz o protocolo, não assina embora concorde. Não é preciso dizer mais nada. O título deste texto o finaliza com ironia necessária.


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ps: falar de dias diferentes ficou de lado.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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