Controle remoto

segunda-feira, outubro 05, 2009 ·

Recordo-me que desci aquela rampa e fui em direção ao carro estacionado em frente ao local. Eu tomara meu café, que foi modo escolhido de ganhar tempo, posto que estava adiantado para o encontro daquela noite. Diversas vezes passou pela minha cabeça a idéia de que ela desistiria. Acho que era desejo meu em fazê-lo. E depois descobri que ela pensara o mesmo, acreditando que por algum motivo eu declinaria. Creio que a desistência de uma das partes teria sido melhor, não fosse a lição aprendida por mim em noite tão chata. Espero que ela também tenha aprendido algo, mas que não seja a reafirmação de certas opiniões femininas sobre os homens.

Não cabe aqui deitar críticas a ela. As razões de seu silêncio e ausência guardava comigo alguma desconfiança. Tampouco irei discorrer a respeito delas aqui. O mais importante não são os motivos que a levaram a comportar-se de modo estranho. E talvez aquele jeito distante fosse e que se poderia chamar de normal da parte dela, trivial.

Sejamos honesto, eu também não estava lá tão bem. Sim, era suspeito para fazer avaliações. O meu aborrecimento, o motivo dele, era algo em mim. Um desagrado qualquer. Uma pitada de desamor. Alguma tristeza momentânea. Essas chateações que temos e não as admitimos tanto. Era de fato uma noite de encontro entre dois corpos, mas desencontros entre duas almas.

Desejei que desistisse do motel. Sim, eu apenas queria ir embora, ficar só, acabar com tudo aquilo. Se não o fiz, não faço idéia do motivo. Acho que dei mais voz à fantasia. E do fato consumado, subtraí não só a frustração garantida pela coisa idealizada, senão boa e verdadeira lição. Pode ser que você realize desejos, “sonhos”. Muito provavelmente se sentirá insatisfeito. Não verá significado algum. E estranhará que sua alma não vibre. Sobre este pensamento, carrego explicação nenhuma. Mas acho que já está explicado.


Às vezes a mulher coloca contas à mesa. E reclama da ausência do abraço, de um carinho que seja. É que se esquece das suas próprias contas. Não olha pra si, não se percebe e deixa de ver que contribuiu deveras para o jeito distante dele. Não, já deixara de haver clima. E o casal de adultos cerrou os olhos para a realidade. Ele sentiu-se culpado pelo “bom dia” que não deu. Por vestir-se rapidamente e apressa-la. Pelo silêncio de palavra qualquer que desse sentimento e beleza por aquela noite. E ela fez as cobranças, não eram as primeiras. Mas depois, a culpa que sentia passou, pois depreendeu que ambos construíram tudo aquilo.

Partiram e ainda a caminho era cobrado por um reencontro. Ela queria marcar algo antes que ele a deixasse em sua casa. Ele achava isto muito estranho, dada a chatice da noite anterior. Calculara que ela não desejava sair com ele de fato, mas que apenas não admitia ser “descartada” após uma noite de sexo, ainda que sem a intensidade necessária para que os corpos desejem novo reencontro. Mas ele já calculara que jamais voltaria a vê-la, o que já seria desrespeito demais por si.

Não olhou no espelho e se perguntou por quê. Em verdade, pouco pensou no assunto. Para ele estava bem resolvido. Naquele capítulo da cartilha da vida, a lição maior. Todo aquele desencontro de almas serviu-lhe para ilustrar o vazio de realizar certos desejos. Que a vida imprevisível é muito melhor. E deixar de lado certas buscas é jeito melhor de saborear acontecimentos. Idealizar, buscar, desejar, optar pela realização de fantasias é jeito certo de garantir frustração. No mais, no fim da lição, aprender é o modo belo de tornar tudo positivo. A vida realmente é caixa de surpresa, melhor não querer programá-la. Não há controle remoto



2 comentários:

Alan Davis disse...
outubro 05, 2009  

É certo que sempre apostaremos fichas num desfecho menos melancólico, por menor que seja nossa esperança de que algo diferente disso aconteça.
Ah, essas ironias da vida...
Abraço

Wagner Kern Velasques Jr. disse...
outubro 07, 2009  

Acho que já disse isso para muitas pessoas e vou dizer a você. Mas lá vai.
"Amar sem esperar ser amado e sem esperar recompensa alguma. Amar sempre" Chico Xavier

Abs

Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br