Lance de palavras

quinta-feira, outubro 22, 2009 · 0 comentários

Olha ao redor e a soma que faz dos conteúdos do que estão ali dá resultado bem baixo. Desgosta. Chateia-se. Faz tempo sua metralhadora está mirada. Reclama. Não olha. Melhor assim. Ausenta-se ali e fecha-se em sua ilha ali. E aí, pede pausa. Silencia idéias. E vê que esse vazio todo que reclama nos outros está em si. E agora?

Recorda-se que chateou-se ao ver o que vem por aí em termos de tecnologia. De certo, não demora muito. A tecnologia é muita rápida. É como se não existíssemos para ela. Não sabe ao certo. Apenas diz. Mas se faz muito disso por aí. Diz qualquer coisa que até parece bonito, mas sem de fato saber o que de significado tem nas palavras. Mas isso não importa tanto, fique-se com os discursos.

A tecnologia. De repente, o indivíduo liga seu computador e tem com seu amigo virtual. Estranho isso. Pareceu-lhe a máxima do individualismo. É como acreditar que não precisa de mais ninguém. Como vão fazer com a afetividade não sabe. Mas já leu artigo que diz que a ciência, mais rápido do que se imagina, criará condições para que o homem seja eterno. E aí, pensam alguns cientistas, este homem poderá ser assexuado, estéreo. Então, para que afetividade? Será um indivíduo que consome, que amigo que tem é virtual mais ninguém.

Mas naqueles dias ele não estava lá tão bem. Não queria estar ali, mas isso era fuga de si. E tanta tecnologia, o poder daquela empresa, era-lhe aborrecedor. Mas não, não colocou culpa no que lhe era alheio. Deixo pra si todas as causas. Quando tudo incomoda tanto, o motivo é ele, já sabe. Por favor, pede que não se considere você tão diferente.

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Viu o garoto se dirigir para a lata de lixo. Era ali na plataforma da Estação Tucuruvi. Metrô de São Paulo. Tudo tão limpo e organizado. Um jovenzinho fazia tal ato. E disse pra si que tal respeito era fruto do exemplo. Se tudo ali estava como já dito, cometer deslizes de educação e comportamento não convém. Talvez uma escola pública nos mesmos moldes seria mais respeitada. E quem sabe as pessoas advindas delas se respeitariam mais. Vai ver que parte do processo de construção da auto-estima passa pelo período em que dia a dia se enfrenta lousa, professor e colegas. Por ora, isto não parece atividade prazerosa. Tem mais cara de luta mesmo, guerra.
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Adentrou àquele Café juntamente com bom amigo. Pessoa bem resolvida, feliz, bastante religiosa. Um lugar muito agradável na bela avenida Paulista. Pediu uma xícara apenas. O amigo não quis, “muito obrigado, só te acompanho”. A menina ao caixa atendia ao telefone. E ele foi tão simpático que ela, atrapalhada com o telefonema, disse que não precisava pagar. Não se recorda o que a jovem conversava com outrem do outro lado da linha. Mas depreendeu que fosse um paquera.

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Quase trocou um olhar com morena sentada à mesa com amiga sua. Percebeu apenas olhar dela de modo interessado. Daí em diante, não houve mais nada. E ficou por isso mesmo. Não ligou, embora talvez a carência lhe pedisse flertes e algo mais. Despediu-se das atendentes todas simpáticas e se foi com seu amigo pela Paulista sobre calçadas bem conservadas.

E hoje, findo silêncio literário, a que chamaram de licença e reclusão, o que lhe pareceu título bem melhor, está aqui o texto. Talvez apenas um grito de palavras em meio à ausência do desejo de escrever. Ou então um lance neste tabuleiro literário que é a vida, que gosta de imitar o xadrez, a arte. Por isso, por ora, é isso. Mas isto é apenas um grito em meio a esse silêncio que a amiga diz ser poético...



Pausa literária

segunda-feira, outubro 19, 2009 · 2 comentários

Sei que fiz um parágrafo inacabado de um texto qualquer. Era de fato uma tentativa, talvez um teste. Sim, era possível escrever algo, dizer estilo poético, quem sabe tocar alma esta. Mas declinei da tentativa literária. O que me restou foi isto, esta recordação, dizer algo sobre o que não foi escrito. E se o faço é para agradar a mim, quem sabe a você. Mas isto é detalhe desimportante, nem todos têm relevância. É apenas para dizer que o blog, por motivos quais sejam, faz uma pequena parada, cujo nome dá o título aqui. Às vezes, feito Xadrez, é preciso parar, esperar, observar. Deixar o adversário jogar à espera de erro seu. Quem sabe, neste hiato de textos, de uma pausa que não se sabe quanto dura, a falta de inspiração, adversária minha no tabuleiro literário de agora, comete erro qualquer, e assim dá me condições de mover uma peça em busca de algo a dizer. Por ora, apenas a observo jogar. E ela o faz em meio ao silêncio que se segue. Pausa literária. É o que se tem. Por ora.



Controle remoto

segunda-feira, outubro 05, 2009 · 2 comentários

Recordo-me que desci aquela rampa e fui em direção ao carro estacionado em frente ao local. Eu tomara meu café, que foi modo escolhido de ganhar tempo, posto que estava adiantado para o encontro daquela noite. Diversas vezes passou pela minha cabeça a idéia de que ela desistiria. Acho que era desejo meu em fazê-lo. E depois descobri que ela pensara o mesmo, acreditando que por algum motivo eu declinaria. Creio que a desistência de uma das partes teria sido melhor, não fosse a lição aprendida por mim em noite tão chata. Espero que ela também tenha aprendido algo, mas que não seja a reafirmação de certas opiniões femininas sobre os homens.

Não cabe aqui deitar críticas a ela. As razões de seu silêncio e ausência guardava comigo alguma desconfiança. Tampouco irei discorrer a respeito delas aqui. O mais importante não são os motivos que a levaram a comportar-se de modo estranho. E talvez aquele jeito distante fosse e que se poderia chamar de normal da parte dela, trivial.

Sejamos honesto, eu também não estava lá tão bem. Sim, era suspeito para fazer avaliações. O meu aborrecimento, o motivo dele, era algo em mim. Um desagrado qualquer. Uma pitada de desamor. Alguma tristeza momentânea. Essas chateações que temos e não as admitimos tanto. Era de fato uma noite de encontro entre dois corpos, mas desencontros entre duas almas.

Desejei que desistisse do motel. Sim, eu apenas queria ir embora, ficar só, acabar com tudo aquilo. Se não o fiz, não faço idéia do motivo. Acho que dei mais voz à fantasia. E do fato consumado, subtraí não só a frustração garantida pela coisa idealizada, senão boa e verdadeira lição. Pode ser que você realize desejos, “sonhos”. Muito provavelmente se sentirá insatisfeito. Não verá significado algum. E estranhará que sua alma não vibre. Sobre este pensamento, carrego explicação nenhuma. Mas acho que já está explicado.


Às vezes a mulher coloca contas à mesa. E reclama da ausência do abraço, de um carinho que seja. É que se esquece das suas próprias contas. Não olha pra si, não se percebe e deixa de ver que contribuiu deveras para o jeito distante dele. Não, já deixara de haver clima. E o casal de adultos cerrou os olhos para a realidade. Ele sentiu-se culpado pelo “bom dia” que não deu. Por vestir-se rapidamente e apressa-la. Pelo silêncio de palavra qualquer que desse sentimento e beleza por aquela noite. E ela fez as cobranças, não eram as primeiras. Mas depois, a culpa que sentia passou, pois depreendeu que ambos construíram tudo aquilo.

Partiram e ainda a caminho era cobrado por um reencontro. Ela queria marcar algo antes que ele a deixasse em sua casa. Ele achava isto muito estranho, dada a chatice da noite anterior. Calculara que ela não desejava sair com ele de fato, mas que apenas não admitia ser “descartada” após uma noite de sexo, ainda que sem a intensidade necessária para que os corpos desejem novo reencontro. Mas ele já calculara que jamais voltaria a vê-la, o que já seria desrespeito demais por si.

Não olhou no espelho e se perguntou por quê. Em verdade, pouco pensou no assunto. Para ele estava bem resolvido. Naquele capítulo da cartilha da vida, a lição maior. Todo aquele desencontro de almas serviu-lhe para ilustrar o vazio de realizar certos desejos. Que a vida imprevisível é muito melhor. E deixar de lado certas buscas é jeito melhor de saborear acontecimentos. Idealizar, buscar, desejar, optar pela realização de fantasias é jeito certo de garantir frustração. No mais, no fim da lição, aprender é o modo belo de tornar tudo positivo. A vida realmente é caixa de surpresa, melhor não querer programá-la. Não há controle remoto



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


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