Café volúvel

quinta-feira, setembro 24, 2009 ·

Creio que você já tenha vivenciado o exemplo de pessoa que deitou críticas contra aquele com quem formara um par, para depois ser noticiado de que ela está novamente com o alvo de tantas reclamações. Daí, a gente se surpreende e cai em certa perplexidade. Os motivos da contradição podem ser tantos, não é o caso de refletir a respeito, fiquemos com o macro que é a contradição.


Certa vez, uma mulher me perguntou se eu era volúvel no amor. Busquei portas para a resposta e escolhi a que me abriu. O fato é que, assim como você, humano que sou, as circunstâncias ditam minhas atitudes. De maneira que, a velocidade dos fatos me fizera noticiar mudanças amorosas que deixaram algumas conhecidas um tanto atônitas.


Em se tratando de amor, faz parte da nossa caminhada passar por períodos errantes. E assim eu segui caminhando até que deixei de apostar em cada relacionamento. Não que optei, senão aprendi. Pois vi nos fatos sua independência, de modo que deixei de esperar o que fosse. Apenas passei a viver o momento, caminhando com seu desdobrar, sem nada esperar. Foi-se o tempo em que tudo era para sempre. Deixei o jogo, não aposto mais. A vida segue como ela quer. E eu não sou nada mais que simples personagem dela. De maneira que, meu olhar para a minha história se torna mais belo e filosófico.


Um dos temas aqui apresentado é a contradição humana. Quando menino, aprendi que isto era grave crime sem perdão. Até que alguém me disse que por sermos humanos, a contradição não é crime, senão uma espécie de direito dado por nossa condição. Assim, fiz nova troca de Café. O problema é que voltei para aquele que eu criticara em outro texto. Mais grave é que deixo um Café que tanto elogiei por outro que, em verdade, desgosto bastante. Isto me faz igualmente contraditório àquele que voltou para os braços de alguém por quem guarda tantas mágoas. De qualquer forma, este meu retorno é tão fugaz quanto o tempo de agora. Pois de tão ruim o estabelecimento para o qual retornei, terei de buscar outro Café. E, em verdade, tal busca já se iniciou, pois há muitas opções, felizmente.


É possível que o leitor menos distraído se pergunte por que eu declinei de um local que tanto gostava para voltar a outro que ainda desgosto. Mas certo é que não darei resposta alguma, sem dar explicação que seja, talvez para ilustrar que certos fatos fogem ao alcance da análise, ou que talvez necessitem de tempo para a busca de conclusões mais precisas. Nesta espécie de auto-análise não serei precipitado em dar explicações. Se assim o fizesse, eu seria como aqueles profissionais da alma, cujo objetivo maior é tecer o comentário, no intuito de demonstrar competência, sendo que o paciente fica em último plano. É o palco da encenação não apenas do ego do terapeuta, bem como a expressão de suas fragilidades. Se a soma dessas palavras carrega a dura feição das críticas, no fim é sabido que aquele que te ouve é alguém que apenas veste a roupagem do papel que lhe cabe. E, claro, seria desonesto sonegar a informação de que muitos são altamente competentes. O problema é que lidam com algo bastante complexo. Assim, se qualquer destes profissionais abraçar o plano da absoluta certeza em algumas de suas avaliações, estará mergulhado em grave equívoco.


Façamos pequena observação. Algumas pessoas se acostumam e não trocam seus pontos de consumo. Não é o caso deste que escreve. Neste sentido, sou deveras volúvel. De modo que, se deixar elogios para seu estabelecimento e amanhã não aparecer mais, não estranhe. Pode ser que este seja modo meu de expressar meu gosto pela liberdade, esta que não existe de fato. Assim, pelos cantos do mundo, vou seguir em busca de locais que me agradem. Onde eu possa optar em sentar ou não. Fazer o pedido escolhido. Quem sabe, gostar do resultado. Com a chance de admirar o atendimento, cuja qualidade se dará muito em função do modo como me comunicar. E com a absoluta incerteza de que voltarei.



2 comentários:

Alan Davis disse...
setembro 24, 2009  

Siga publicando!

Veronica Araujo disse...
setembro 26, 2009  

Pois é, tem razão em não dar explicações, aliás creio que não as tem.
Ser volúvel é uma característica de todos nós, ao menos em alguma fase da vida, portanto não cabe julgá-lo.
Seja no amor ou nos cafés, ainda encontrará o lugar perfeito!

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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