O medo como incentivo e mecanismo de manipulação

domingo, agosto 09, 2009 ·

Por Adalton Oliveira

O medo é um sentimento atávico. Como ao rato na “Pequena Fábula” de Kafka, o medo nos impulsiona para frente, na ânsia de dele fugirmos, ou entendermos a sua causa. Do medo, nasceram a religião e a ciência. Duas formas de se interpretar o mundo e, a partir delas, encontrar algum conforto.
Mas, se o medo é uma mola propulsora, ele assim o é porque o seu reverso é a coragem. Como dizia Montaigne, só há coragem onde existe medo. Aquele que não sente medo, não pode ser corajoso e será dito temerário, um louco rumo ao precipício.
Todos temem, seja o medo da morte ou do desconhecido; até mesmo a felicidade é temida. Talvez tenhamos medo dela porque tememos perdê-la, receamos experimentá-la e, depois, não suportar mais viver na ausência dela. A alegria suprema de ser pai, por exemplo, vem acompanhada pelo medo sobre o destino daquela criatura tão querida. Em nossa sociedade violenta e de punição duvidosa, temer é quase somente o que nos resta a fazer. É com medo que vivemos nosso dia a dia, e assim podemos nos tornar heróis de nossas existências, vencendo nossos medos cotidianos.
O medo é ainda uma forma de manipulação. George W. Bush usou-o para justificar sua política belicista contra o terror. Pelo discurso do medo, seu governo restringiu liberdades no território norte-americano, invadiu o Iraque e praticou torturas em Guantánamo. Graças ao medo do comunismo, difundido entre a classe média brasileira, nossos militares, apoiados pelos privilegiados de sempre, impuseram a ditadura por mais de duas décadas. O mesmo discurso ajudou na eleição de Collor de Melo à presidência. É, pois, em razão do medo que, por diversas vezes, paralisa a capacidade reflexiva, que discursos como estes frutificam. E é o que vemos agora quando a imprensa nos bombardeia diariamente com notícias sobre a gripe suína, estampando nas primeiras páginas dos jornais o número de mortos até o momento. Vemos então o pânico se difundir, e esquecemos que a tal gripe não se mostra mais letal do que as gripes já conhecidas.. Esquecemo-nos de que a dengue mata muito mais, de que o estado dos hospitais públicos, em várias partes desse país, é muito mais letal do que qualquer nova gripe. Mas, o medo transforma-se em notícia e ajuda a vender jornais ou a segurar a audiência.
Sentir medo é algo natural. O que não devemos permitir é que ele nos domine, nos tire a capacidade de agir e de pensar.
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Dica de leitura: "Reflexões a respeito do perdão"

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Devo parabenizar essa família de intelectuais e escritores! O Del já havia dito que o próximo texto seria de sua autoria, devo admitir que estávamos ansiosos por esse dia. Você descreveu o medo com perfeição. Esse sentimento já foi pauta em textos anteriores e em algumas de minhas conversas com o autor deste blog, o ser humano age contra e a favor do medo simultâneamente. Razões? Quiçá pudéssemos idêntidicá-las rsrs Parabéns, adorei seu texto. O Del devería repetir essas edições especiais! Bjs
Bjs, Verônica, Pedagoga, Mora em São Paulo, é paulistana


Resposta :

Verônica, agradeço muito a você por suas observações.
Adalton
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Nós seres humanos sentimos tanto medo de errar, mas esquecemos de pensar que o erro é algo positivo em nossas vidas, os erros são muitas vezes dolorosos, mas são o único jeito de descobrirmos quem realmente somos, acontece que as vezes é preciso fazer o que é errado, as vezes é preciso cometer um grande erro, para podermos consertar as coisas. O “medo” de tentar algo novo nos impede muitas vezes de descobrirmos quem realmente somos, e o que realmente queremos, se não arriscarmos e não tentarmos, arriscar um novo emprego, um novo amor, um novo caminho, podemos não errar, e continuar exatamente onde estamos, mas também perdemos a chance de acertar, e realizarmos sonhos que achávamos impossíveis, pelo medo de errar, perdemos a chance de um novo despertar. E se pararmos para analisar a fundo, aprendemos sem sombras de dúvidas muito mais com os nossos erros que com acertos, que muitas vezes nos passam desapercebidos. Então nós não podemos permitir sermos manipulados pelo medo do novo, pelo medo da morte, pelo medo da dor, temos mesmo é que nos arriscarmos, e encontrarmos o que há de mais belo em nossos erros, e chegarmos a seguinte conclusão: Porque repetir erros antigos se há tantos erros novos pra escolhermos ?
Patricia Alves - Professora do Ensino funtamenta I, Agosto 11, 2009



3 comentários:

Veronica disse...
agosto 09, 2009  

Devo parabenizar essa família de intelectuais e escritores!
O Del já havia dito que o próximo texto seria de sua autoria, devo admitir que estávamos ansiosos por esse dia.
Você descreveu o medo com perfeição. Esse sentimento já foi pauta em textos anteriores e em algumas de minhas conversas com o autor deste blog, o ser humano age contra e a favor do medo simultâneamente. Razões? Quiçá pudéssemos idêntidicá-las rsrs
Parabéns, adorei seu texto. O Del devería repetir essas edições especiais! Bjs

Patricia Alves disse...
agosto 11, 2009  

Nós seres humanos sentimos tanto medo de errar, mas esquecemos de pensar que o erro é algo positivo em nossas vidas, os erros são muitas vezes dolorosos, mas são o único jeito de descobrirmos quem realmente somos, acontece que as vezes é preciso fazer o que é errado, as vezes é preciso cometer um grande erro, para podermos consertar as coisas.

O “medo” de tentar algo novo nos impede muitas vezes de descobrirmos quem realmente somos, e o que realmente queremos, se não arriscarmos e não tentarmos, arriscar um novo emprego, um novo amor, um novo caminho, podemos não errar, e continuar exatamente onde estamos, mas também perdemos a chance de acertar, e realizarmos sonhos que achávamos impossíveis, pelo medo de errar, perdemos a chance de um novo despertar.

E se pararmos para analisar a fundo, aprendemos sem sombras de dúvidas muito mais com os nossos erros que com acertos, que muitas vezes nos passam desapercebidos.

Então nós não podemos permitir sermos manipulados pelo medo do novo, pelo medo da morte, pelo medo da dor, temos mesmo é que nos arriscarmos, e encontrarmos o que há de mais belo em nossos erros, e chegarmos a seguinte conclusão: Porque repetir erros antigos se há tantos erros novos pra escolhermos ?


Patricia Alves - Professora do Ensino funtamenta I

naty disse...
agosto 12, 2009  

Parabens Adalton pelo maravilhoso texto . estou encantada com seu relato e tenho o mesmo ponto de vista a que se refere gripe hn1 epidêmica atual. e que esta mudando nossos hábitos corriqueiros.
O mêdo é como á alma para nós crentes,algo existente mais intocável.
é inevitável em alguma circuntância na nossa vida sentiremos bater a nossa porta e teremos que enfrentar.
mas no fundo sabemos que o outro lado de todo medo é a liberdade,e que impulsiona a vencer ..

PS: Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.

William Shakespeare
Obrigado !
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fotos: Patrícia Crispim
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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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