Dívida que não é minha

domingo, agosto 16, 2009 ·

Eu subia a rua dos Estudantes na Liberdade e trazia comigo dívida que não é minha. A participação que tenho nela se dá pelo depósito de confiança em familiar sabido não muito afeito à honestidade, bem como inepto para a gestão de seus negócios. Em verdade, eu incorria no mesmo erro. E agora pagava o preço pela lição não aprendida.




Estava ali em busca de um acordo financeiro com a intenção de diminuir juros de dívida em nome meu, mas que centavo algum sairá do meu bolso para a quitação devida. A atual Constituição preferiu desproteger os clientes de bancos contra a cobrança abusiva de juros. Mas o lobby deles é maior que o nosso, conforme me ensinou amigo recém-formado em Direito. E, ainda segundo este amigo, a Carta anterior previa o máximo que um banco poderia cobrar de juros de seus clientes. Caso a informação aqui passada seja equivocada, cobrem do amigo. E se não fiz a devida checagem que o curso de jornalismo ensina, é apreço maior que tenho pela literatura. Portanto, a cobrança, caso devida, deve ser cobrada do amigo e da Literatura.





Não, a dívida do banco não pesava sobre as minhas costas enquanto subia a rua. Conforme afirmei, ela não é minha, leva apenas meu nome. Ela me é injusta do ponto de vista ético-familiar. Legalmente, é minha, o que pode trazer prejuízos à minha tranqüilidade. Mas por ora não traz, lamento por quem ficar decepcionado. Tudo bem que já me irritei deveras com a situação. Já levantei a voz para o produtor da dívida. Mas o fiz não pelo valor devido, senão pela indignação frente a um problema que detenho somente a titularidade.




Fui ao PROCON, conforme fiquei sabendo que assim o fizera irmã minha em uma questão financeira de cobranças indevidas por parte de seu banco. E lá no Poupatempo da Sé me avisaram que “minha” dívida é devida, portanto, deve ser paga, o que concordo plenamente. Ou seja, cabe no máximo alguma renegociação. Por estes anos que vivi, cumpri todos os meus compromissos com instituições financeiras. Não me iludo com a filosofia malandra de que dívida que não é paga deixa de existir.





Da Sé, fui para o local o qual me orientaram. Eu estava em frente ao prédio da Federação Comercial à rua da Glória, no mesmo bairro do início deste texto. Esperei cerca de dez minutos para que os portões fossem abertos pelo porteiro, senhor simpático e solícito. Jamais estivera em um local assim. Também me enganei ao pensar que estaria lotado de gente endividada. Não passávamos de cinco até o momento que adentrei à sala final.




Deixemos de fora diversos detalhes que observei, principalmente os que se referem à dificuldade de comunicação do jovem atendente, que presumi fosse um estudante de Direito. Não cabe o cálculo precário por parte de quem lê a suspeita (pior se for certeza) de que o jovem demonstrava pouco conhecimento sobre o problema que me levara ali, muito pelo contrário. Os minutos que estive ali frente a ele me foram rápida e boa aula



O jovem não me iludia. Disse-me que tentaríamos uma audiência conciliatória , mas que o banco não possuía obrigação alguma em comparecer. Uma carta-convite seria enviada à poderosa instituição. Você já deve ter recusado diversos convites. A instituição, fui informado, recusou 97% deles. Creio que eu e você não chegamos a tanto, e nem se trata de educação. Aliás, parece que foi o tempo que o pessoal que trabalha em banco era tão deseducado, mas isto é outro assunto.





Sim, eu fiz indagações sobre outros caminhos. Confirmei o que me ensinou o advogado amigo. De fato, posso optar por levar a questão aos tribunais e ter a esperança de que o juiz depreenda que da dívida existente muito são juros exorbitantes. Para tanto, teria que entrar com uma “ação ordinária”, fui ensinado. “O que é uma ação ordinária?”. “O senhor teria que pagar os gastos com o processo, com advogado...”. “ E o trabalho que um advogado tem com um processo de cem mil reais não difere de um de três mil reais”. Ou seja, explicou-me, que a conta final poderia ficar ainda mais salgada. O rapaz até fez uma metáfora com molho, mas que não me recordo.




Não nego que pensei na amizade com o advogado amigo que aqui já citei e que receberá este texto em sua caixa de e-mail. Fiz o cálculo malandro de que “meu” caso lhe servisse de laboratório, o que significaria não falarmos em valores. De certo, ele vai se rir dos meus pensamentos comentados aqui, bom entendedor que é da alma humana.




Antes do atendimento em questão, no corredor de espera, sorvi cafezinho e água. Também fui ao banheiro. E eu me recordei de Kafka logo que adentrei às instalações internas do prédio. Para aquele que ignora por que Kafka me veio à mente, peço que verifique comentários sobre sua obra literária “O processo”. Faço o mesmo pedido àquele que estranhou, ou até usou de deboche, quando falei em “esperança” em relação à uma decisão do juiz que fosse favorável a “mim” em uma improvável ação judicial contra o banco.




Despedi-me de modo cortês daquele que me prestou bom serviço ao que me pareceu. O jovem foi recíproco na cordialidade. Fui embora e tudo ali me pareceu obra de Kafka. Um capítulo seu o qual eu não podia fugir. Mas por que essa vergonha? Ser personagem de tamanho gênio não se trata de um privilégio?




Caminhei em direção à estação Liberdade. Subi a rua dos Estudantes. Dei com a Praça da Liberdade. Parei e observei um pouco o resultado pobre da reforma feita ali por uma determinada instituição financeira, que não é aquela que desgosta dos convites mencionados. A mesma que receio não me fará entrar no clube dos eleitos por ela, composto por 3% de seus clientes, ou ex-clientes. São aqueles os quais ela aceitou convite para uma audiência conciliatória.





Eu seguia calmo e despreocupado. A dívida não é minha de fato, reitero. O leitor pode indagar se o verdadeiro responsável vai pagá-la. Asseguro que sim, salvo imprevistos maiores, para os quais terei que estar preparado.




Adentrei à Estação Liberdade do metrô. Não cito aqui pensamentos nostálgicos que tive ao participar do novo cenário.O colega de um quiosque de café outra vez mais me presenteou com a bebida sem que necessitasse pagá-la, o que me pareceu irônico. De certo, se o juiz lesse esse texto e se desagradasse com essa espécie de outra dívida, creio que minhas esperanças estariam diminuídas. Mas receio que estes operadores do Direito já estão ocupados demais com tantas leituras relacionadas ao seu dia-a-dia profissional. E desconfio sinceramente que pouquíssimos leram Kafka, sobretudo a obra já citada.


Na minha carteira a cópia da carta-convite para a audiência conciliatória. Eu estarei lá, espécie de dono da festa que sou. O prato principal é a dívida citada. O cozinheiro, creio, estará em seu trabalho a gritar pelo clientes para que comprem suas frutas. Para quem não entendeu bem, o cozinheiro é o senhor da dívida, o responsável. Tem coisas na vida que a gente não escolhe. Cozinheiros e cunhados são duas delas.




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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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