Monstros fabricados

quarta-feira, julho 01, 2009 ·

texto reflexivo antes das férias
ppppppppppppppppp
Algumas leituras feitas e a reflexão que fica. Estranho saber alguns absurdos que se dão pelo mundo. Pior, é o cálculo do muito que ocorre e não sabemos. Acho que deveríamos fazer o movimento dos "Sem Informações". Talvez seja necessário refletirmos sobre o que não nos é informado. Nas próximas linhas ilustro esse pensamento.

Outra vez mais a boa revista Piauí. Um dos poucos exemplos de uma publicação de qualidade que foge do costumeiro ofício de vender tiragens. Foi nesta revista que fiquei informado sobre alguns dos absurdos que ocorrem lá nos Emirados Árabes. De certo, há muito mais absurdos que não chegam às páginas de jornal ou revistas, ou quem sabe às telas dos blogues. A matéria discorre sobre imigrantes que foram tentar a sorte em Dubai, iludidos por falsas promessas. A história que mais me tocou foi de uma mulher que deixou sua filha de quatro anos em sua terra natal para tentar a sorte como empregada doméstica em casa de estrangeiros abonados na cidade da “ilusão”. Trabalhou dois anos como escrava, com a promessa de pagamento no final do ano, até que não suportou e fugiu para a rua. Hoje, vive em albergue ou manicômio, e não tem como voltar pra casa, pois os documentos foram retidos pelos “patrões” de antes. Ela trabalhou para um casal de australianos. Tivessem eles um mínimo de humanidade não aceitariam essas regras de exploração do outro ser humano. Você lê e fica indignado. Depois, quando isso termina em tragédia, o algoz é visto como monstro. Mas se fizermos uma análise de toda a situação, poderemos depreender que o tal monstro foi fabricado por gente dita de bem, que durante anos matou o dia a dia de alguém que tentava a felicidade. Às vezes, os verdadeiros monstros se escondem atrás de tragédias.

O fato é que muito progresso tem sido alcançado com o sangue alheio. Eu me pergunto se Dubai não poderia construir suas torres tratando os trabalhadores de forma humanizada, de acordo com os Direitos Humanos, estes os quais inúmeros desavisados levantam bandeira contra, sem saber o que estão falando. Basta pensarmos que com a existência deles já há inúmeras crueldades, trabalho escravo, bem como tortura, entre tantas atrocidades que ocorrem e que não sabemos. Imaginemos se não existissem os Direitos Humanos, cuja defesa é feita por gente corajosa, debaixo de muitas críticas.

Não sei para o leitor, mas para mim é inadmissível que um presidiário seja massacrado entre as paredes de uma cadeia, sendo que seus gritos não podem ser ouvidos por mim, nem por você. Mas não sei se faria alguma diferença se ouvíssemos pedidos de socorro de alguém que é visto como o lixo da sociedade. Curioso é que todo lixo é produzido, de maneira que a obviedade do que está nas entrelinhas do que digo aqui derruba a opinião raivosa de muitos que por aí estão, entre eles diversos que roubam de modo mais polido, sem o uso de violência, como se cometessem o crime permitido.

Eu me recordo de um senhor que, ao avistar com seus olhos menores de rua badernando no saguão de um prédio, fez o discurso do extermínio como melhor solução. E aí me lembro de uma conversa que tive com um homem que dirigiu a FEBEM em São Paulo por longos quatorze anos e me relatou um fato absurdo demais, mas que de certo está ao gosto do senhor aqui mencionado. Ocorre que funcionários da instituição, feita para recuperar jovens menores que cometeram deslizes aos olhos da lei, juntamente com policiais, faziam a aposta fatal. Quem ganhasse o jogo lá no boteco poderia escolher qual menor seria espancado, mesmo que até a morte. Daí que o ex-diretor, que antes de assumir o cargo lecionava música para os menores, deu falta de um garoto que se destacava em suas aulas. Ao ser informado onde estava o menino, foi ao seu encontro, quando se deparou com um rosto desfigurado de tanta pancada que levara. “Ele era praticamente um músico. Eu o perdi”. O menino nunca mais freqüentou as aulas do professor, e não sabemos se ele ainda vive. Na rua, ele até pode ser dado como exemplo do que muitos chamam de “monstro”. Melhor indagarmos sobre os criadores desses monstros, ideal fecharmos a fábrica.
Não sei o que o leitor pensa a respeito. Eu fico extremamente indignado com fatos assim. Pior é saber que eles ocorrem à revelia da lei. A verdade é que raramente somos informados do que ocorre por baixo do tapete da vigilância, sendo que muitos, pagos para manter a ordem, preservar vidas, são os mesmos que tiram vidas, condenadas, muitas vezes, por condições sociais adversas. Para aqueles que o mundo pra si é perfeito, pois consomem e estão incluídos, meu lamento. Este mundo somente será melhor quando vivermos de forma humanizada e desenvolvida. Tudo bem, isto é absoluta utopia. Mas a busca por uma vida digna para todos não deve cessar. O blog volta no primeiro dia de Agosto.

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Veronica deixou um novo comentário sobre a sua postagem "
Monstros fabricados":

Esse texto possui uma nota da realidade em que muitas pessoas preferem ignorar. Tenho conhecimento de muitos relatos feitos por duas pessoas que vivem neste meio (diretor geral da Febém e uma carcereira da prisão feminina) ex- colegas de faculdade.
Concordo plenamente com o autor e acho ainda que essas pessoas que vivem nessas instituições não terão chances de reabilitação enquanto nosso sistema penitencário estiver sobre os moldes de corrupção, vingança, descaso e abandono. É triste, porém verdade!

Verônica Araújo, 29, Pedagoga



Parabenizo mais uma vez o autor do blog.Seus textos são escritos de forma que faz com que nos aproximemos da realidade de maneira sutíl. Um desses que mais me chamou a atenção, que me tocou bastante, foi "Monstros fabricados" , que relata as condições precárias que os brasileiros , em sua maioria vivem, e, infelizmente, não recebem apoio em seu próprio país , sendo obrigados a sair embusca de uma vida melhor, vivendo sobre um domínio mais cruel que um ser humano pode viver. Aí eu me pergunto onde estão nossos direitos,cadê aqueles que defendem a nossa diguinidade. Nossa Constituiçao diz: temos direitos e deveres. Onde estão nossos direitos? Certamente estão bem guardados, onde se quer foram abertos. O único direito que é o de sonhar, tentando encontrar meios para uma vida melhor,e na maioria das vezes, quase sempre nem tem um começo, sabemos qual fim desta dura realidade.
Naty Macedo, 23, Universitária



1 comentários:

Veronica disse...
julho 02, 2009  

Esse texto possui uma nota da realidade em que muitas pessoas preferem ignorar. Tenho conhecimento de muitos relatos feitos por duas pessoas que vivem neste meio (diretor geral da Febém e uma carcereira da prisão feminina) ex- colegas de faculdade.
Concordo plenamente com o autor e acho ainda que essas pessoas que vivem nessas instituições não terão chances de reabilitação enquanto nosso sistema penitencário estiver sobre os moldes de corrupção, vingança, descaso e abandono. É triste, porém verdade!

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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