As ilhas que somos

sábado, agosto 01, 2009 ·

texto pós-férias

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Às 4h da manhã levantei-me e desci à cozinha. Fiz busca frustrada por um medicamento, qual fosse, para a garganta. Os que encontrei estavam todos com o prazo de validade há muito vencido. Frustrei-me em ter às mãos frasco de xarope tão bem conservado, mas tão impróprio para uso. O motivo já foi dado. Tudo era um problema de tempo, para simplificar a questão. Mas em um hospital o que se teria era a constatação da falta de organização. De qualquer forma, estava em minha casa, portanto, abandonemos essa perfeição administrativa tão falsamente vendida pelas empresas.

Errei em pensar que o outro xarope que encontrei fosse indicado para a circunstância enferma vivida por minha garganta. Meu erro grave e inocente fora fazer uso de medicação e somente depois verificar na internet as indicações dos princípios ativos informados no rótulo do frasco. Sim, a caixa fora para o lixo e com ela a tão necessária bula. Quem o fez, não posso afirmar ao certo. Pode até ter sido eu. Mas isto é irrelevante.

Em tempos de banda-larga, o horário não é necessariamente desânimo para uma pesquisa na rede mundial. E não demorou que eu constatasse meu engano. O remédio que fiz uso é indicado para alergia, entre outros problemas, o que me deu a certeza que minha mãe é quem o utiliza. O conforto foi saber que a droga em questão também serve para bursite, que é um processo inflamatório, salvo engano. Bom, mas o que se iniciava em minha garganta era exatamente isto. Fui dormir com o propósito de logo pela manhã comprar a medicação mais adequada. E eu já sabia em qual farmácia o faria.

Antes de retornar à cama, cobri meu cão com um cobertor. Era noite de frio. Ele estava na sala, no espaço que mais lhe agrada em um dos sofás. Subi, e já no quarto vesti uma blusa de lã. Debaixo do cobertor, luz apagada, percebi que o cãozinho viera buscar minha companhia. Dormi. Eu me levantaria às 7h do mesmo dia, caso não utilizasse as opções do celular que me ofertam mais minutos na cama. São dez a mais, e acho que não posso escolher. A função tem apelido e não a condenemos, afinal é útil e foi ótima sacada das fábricas de celular. E, em verdade, desconfio seriamente que é possível configurar a duração da soneca como se queira.

Não sei você, mas sempre que adoeço, logo que acordo e me levanto, tenho sincera impressão de melhora. Faço até uso do engano da cura, para depois ver que não é bem assim. Mas desta vez, se não houve a cura, deu-se a melhora, que muitas vezes pode ser enganada como passo para o fim da enfermidade.

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Tomei meu banho. Fiz a minha barba, e o resultado na pele me agradou. Não, o ânimo era pouco. Eu queria mesmo era ficar em casa. Ainda chovia e frio forte chegara no dia anterior. Tomei meu desayuno e quase nada dele foi para o cão. Preparei as refeições para o dia. Eu as levo em minha sofrida mochila. Isto é para aliviar meu bolso, bem como fazer crescer os músculos que sofrem cargas durante a semana. Quem freqüenta academia sabe do que falo. Quem entende do assunto, também o sabe.
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Fazia frio intenso para um país tropical. Chovia. As pessoas seguiam como sempre, ilhadas. As exceções estão por aí. Eu não sou uma delas. Minha ilha de emoções estava fortemente protegida por exército medroso.
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Nesses tempos de nova gripe, o transporte público é risco inevitável. Você nota todo o desconforto dos veículos que transportam inúmeros corpos, sobretudo quando está deveras cansado e estressado. No seu carro, possivelmente está mais protegido de um contato indesejado com alguém infectado pela nova doença. Quanto a isso, não restam dúvidas. Os problemas são outros, apenas. Enfim, viver na civilização tem preço, uma escritora mencionou. Às vezes, pode ser o simples e último contágio.
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Tinha mochila pesada nas costas, e não nego preocupação com tal peso, mas que não me lembro como se calcula o limite em relação ao peso do meu corpo, debilitado pelo cansaço, que em nada tem a ver com o retorno das férias. Em uma das mãos segurava a sacola com material de trabalho que usaria nestas primeiras horas desta sexta-feira gripada. Na outra, enorme paráguas preto que não entreguei ao amigo, conforme missão a mim confiada. Esse cansaço pede a companhia do estresse para habitar-me. O prejuízo fica todo comigo, calculo. Mas é possível fazer reflexão. Vai ver o cansaço que ir para outro corpo. Tem pressa e pede reforço a fim de me convencer em respeitar meus limites. Eu me resigno e lhes digo que sigo aprendendo. Em minha ilha, sou rei que obedece.
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No vagão do metrô, aquele que adentrei, todos os assentos estavam ocupados por diversas ilhas. A soma de todos os exércitos de cada ilha resulta na constante Guerra do Medo. Essa que nos faz tão agressivos e arrogantes uns com os outros. Guerra, cujo único vencedor é o medo, que não é o macro da questão. Esse desamor que cada um tem por si resulta neste nosso comportamento belicoso. A paz com o outro começa pela paz consigo. Enquanto isso, levantaremos nossas armas, inconformados com o que somos. O jeito é essa nossa arrogância, só assim para não nos sentirmos tão inferior ao outro. E, curioso, é a reciprocidade no comportamento. Enquanto isso, lancemos mão de paliativos. Compremos por aí. Façamos nossas dívidas com as operadoras de cartão de crédito. E, cada vez mais, fiquemos "protegidos" em nossas ilhas. E, como me disseram ter afirmado o médico, juntemos bastante dinheiro para gastá-lo quase todo com nossas doenças advindas de nossa castigada alma. E terminemos a vida absolutamente infelizes. A guerra continua.
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Desembarquei na estação São Bento. Minha comunicação estava um tanto limitada. Assinei o controle de presença do Metrô. Mas se não o fizesse, não seria cobrado pelo não-ato. Cumprimentei a moça do stand ao lado, sem utilizar de grande simpatia. Ela, por sua vez, ofertou-me novamente seu sorriso bonito, cuja beleza é limitada por seus medos. Se na Idade Média a grande prisão era o medo da morte, a condenação, alimentada e utilizada pela religião católica, a prisão atual são as nossas emoções, tão bem negligenciadas por nós.

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No decorrer das horas que deveria cumprir, na primeira etapa de trabalho, fiz as minhas leituras. Desejei me cercar de revistas, jornais e livros. Tudo como forma de isolamento. Até que me cansei de passear olhos por páginas a fio. Percebi dificuldade de concentração e abandonei as leituras. Quando então me armei de papel e caneta e teci as críticas aqui. E elas se dirigem a mim e a vocês. De certo, meu objetivo maior era fugir dessa minha ilha. Deixar nela apenas meu exército. Triste com a incerteza de obtenção de êxito. Feliz em saber que não sou solitário nessa revolução de si. Angustiado em saber que por mais algumas horas ficaria na estação do Metrô. O problema não são essas outras ilhas. Não me iludo, tampouco posso culpar o outro. E façamos justiça. Muitos que passavam por lá, seguiam livres, desamarrados, o que é bom. A senhora me perguntou as horas. Informei que faltavam vinte minutos para às 14h. Mas isto se fora há cinco minutos...
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sugestão de leitura:
"Os videogames", por Adalton Oliveira

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opiniões opiniones opinition

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Sempre que posso entro no seu blog para ler um de seus textos. Hoje eu tirei um tempinho para ler esse que você relatou "as ilhas que somos ". Confesso que ri não pelo que aconteceu contigo, porque tomou o remédio errado, mas pela sua inocência!(rs). Olha, quanto ao seu cachorrinho, com certeza ele ficou feliz em dormir com você., principalmente nesse frio . A minha Kika, enquanto escrevo, está debaixo do meu cobertor (rs). Gostei da sua crônica! Melhoras, tá bom? Cuide-se. bjs


Naty Macedo, universitária, mora em São Paulo, é mineira




Resposta do autor:


Obrigado, querida! A minha garganta não chegou a adoecer! O cãozinho realmente adora dormir comigo, faça frio, faça calor (rs) bjs. Del



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Eu li uma frase do Arnaldo Jabor que dizia : "Estamos cada vez mais cercados de pessoas e mais sozinhos". Seja sozinhos em casa procurando um remédio que não encontramos ou na estação de metrô cercados de "ilhas". Essa é a realidade do ser humano, atrás de cararicaturas felizes, frases feitas e sorrisos amarelos encontramos o medo....não se sabe bem do quê, mas o fato é que ele existe!

Del, adorei essa crônica! Como sempre você consegue expor os fatos de maneira cômica e dramática a mesmo tempo!!
Bjs, Verônica, Pedagoga, Mora em São Paulo, é paulistana

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Resposta do autor:
O Jabor produz textos excelentes do ponto de vista literário. Do ponto de vista político, é odiado por muitos que conheço que ainda se dizem de esquerda. Eu fico com a parte literária, sempre com respeito às opiniões do escritor em questão, muitas das quais eu concordo.

Bj pra você também!
Del



Excelente texto, caro! Esse merece destaque .....

Jamais poderíamos ter a atenção das pessoas o tempo todo, mas concordo com vc que a modernidade afasta cada vez mais o convívio social, o amor e alimenta um "medo estranho" dentro da gente. É verdade...
Daniel Grecco, jornalista, futuro locutor de futebol, mora em Sampa






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blog debate

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Adalton Oliveira: Texto revisto. Acho que um questionamento é necessário: por que as pessoas vivem isoladas? Mas, será que elas vivem isoladas ou parecem assim viver? Será que isto é uma característica dos tempos modernos, que elevou o eu às alturas, ou é algo intrínseco ao ser humano? Há espaço para a crítica dessas situação ou apenas nos restar lamentar a nossa sina que nos obriga a viver reclusos? E aqueles que parecem que superaram o isolamento, de fato o fizeram ou é apenas mais uma máscara? Manter o outro distante não seria nada mais do que uma estratégia de sobrevivência; afinal, é preciso se estar precavido contra os estranhos?

Adelcir Oliveira: Eu acho realmente que se trata de precaução na maioria dos casos. Não apenas em função da violência, mas sobretudo uma precaução do ego. Creio que seja nosso instinto de defesa. E, desse ponto de vista, entendo a todos nós, Na verdade, devemos ser entendidos em todos os pontos de vista. De qualquer forma, percebo que o sentimento maior é o desejo pelo não-isolamento, afinal precisamos dos outros. Falo por mim, não gosto de me isolar em meio ao público. Minha carência grita do modo seu. Agora, há pessoas que me parecem tranquilas em silêncio seu, onde quer que estejam. Estas, eu admiro. A minha crítica é para os que não suportam esse isolamento, mas que o mantém, premidos pelo medo, sem buscar saída que seja. Eu, isolado, sou um deles. No fim, o que me parece ideal, digamos assim, é simplestemente ser livre, silenciosos ou não. Ao me cobrar, ao me incomodar com meu isolamento circunstancial, é sinal de que algo não está bem em mim. Essa é minha visão. Se se trata de algo intrínseco ao ser humano, essa questão do isolamento, não possuo elementos para discorrer a respeito. Por ora, prefiro a minha busca.

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Adalton Oliveira: Eu entendo isto. Estamos no campo da metafísica, onde as respostas são difíceis, senão impossíveis de serem dadas. Então, Alberto Caieiro pode estar correto; melhor não nos preocuparmos com isso, melhor aceitarmos nossa carência, encararmos com naturalidade nossa postura de isolamento; afinal, ela pode estar mais de acordo com nossa natureza do que a posição contrária. Algum poeta, que são quase sempre mais interessantes que os filósofos, disse que é preciso, antes de tudo, aprender a ser sozinho. Vinícius de Moraes escreveu que a solidão é o destino de quem ama, eu digo que ela é o destino de todos, amemos ou não. Sabe, meu caro, ando flertando com o budismo, uma maneira de viver na qual encarar a vida da forma como ela é torna-se questão fundamental. E, no budismo, o sofrimento é parte integrante e majoritária da vida. Daí, saber lidar com sentimentos negativos como ódio, solidão, angústia, excesso de desejos é um meio para se fugir da dor de viver. Concluo do que eu disse que Alberto Caieiro era budista.




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Adelcir Oliveira: Bela explanação. Eu concordo com os budista na seguinte questão: os fatos. Para mim, eles são como são. Mas carrego a ideia de auto-revolução. Não quero mudar os fatos, quero apenas melhorar como pessoa. Deixar a vida correr por si tem me ajudado, sobretudo com as mulheres, quando antes eu queria dominar tudo e criar relações. Hoje, o que tiver que ser será. Esse seu comentário de agora só posso publicar se me autorizar. SE quiser, posso editar e retirar as afirmações que se referem mais à sua intimidade.

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ps: o que mais gosto na discussão sobre o ser humano é a exata incerteza.

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Adalton Oliveira:Pois, melhorar como pessoa é o que o budista procura. Aliás, por uma questão lógica: já que os fatos são imutáveis, apenas eu posso passar pelo processo de modificação. Quanto a publicar o que eu disse, faça como quiser.
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Os debatedores:

Adalton Oliveira é revisor de textos do Opiniões&Crônicas e orientador literário do autor deste blog.

lAdelcir Oliveira é o autor do blog


O debate involuntário foi feito por meio de troca de e-mails. A próxima publicação no Opiniões&Crônicas será um texto de autoria de Adalton Oliveira sobre o medo. A participação nos debates é livre a qualquer pessoa. Basta enviar sua opinião para opinioesecronicas@yahoo.com.br



1 comentários:

Veronica disse...
julho 29, 2009  

Eu li uma frase do Arnaldo Jabor que dizia : "Estamos cada vez mais cercados de pessoas e mais sozinhos"
Seja sozinhos em casa procurando um remédio que não encontramos ou na estação de metrô cercados de "ilhas".
Essa é a realidade do ser humano, atrás de cararicaturas felizes, frases feitas e sorrisos amarelos encontramos o medo....não se sabe bem do quê, mas o fato é que ele existe!

Del, adorei essa crônica!
Como sempre você consegue expor os fatos de maneira cômica e dramática a mesmo tempo!!
Bjs

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



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