Um ir e vir realmente livre

domingo, maio 10, 2009 ·

Enquanto a escada rolante me levava, refletia sobre outra boa leitura que a Revista Piauí me ofertara. Uma matéria sobre a ministra Dilma Roussef que discorre sobre tortura, entre outras questões, durante o regime militar. Causo-me incômodo imaginar as violências cometidas durante o regime fechado pelo qual o país passou. De certo, os choques elétricos aplicados nos presos por outros seres humanos ainda tocam a alma de muitos dos que foram torturados. Coloquemo-nos no lugar destas pessoas e tentemos sentir as emoções disparadas enquanto sofriam, e, depois de inúmeras violências contra si, devemos imaginar a dor que sentiam no silêncio da cela, quebrado apenas pelos possíveis gemidos da alma.

A vida é o bem mais precioso. A principal tutela do Estado. E viver com liberdade é preceito necessário que todos prezamos. De qualquer forma, o ser humano possui diversas prisões. São as amarras impostas pela mente. Esta que pode ser nossa boa amiga, ou nosso pior algoz. De uma maneira tal, que pode torturar o indivíduo sem lhe dar trégua. Uma prisão que ele nem percebe. É quando o ir e vir garantido por nossa Constituição se mostra limitado. Quantas pessoas vão a lugar algum, presas que estão em si, preenchidas de medos, incapazes de se comunicar?

Estou num refeitório. Meu “boa tarde” é um tanto resguardado. Hoje não estou tão livre. Acho que é um regime semi-aberto. A comida é simples. Os pastéis estão morenos demais, equívocos de uma fritura apressada. Aqui, e pelos corredores locais, já me sonegaram diversos cumprimentos, que se para muitos é simples ato, para outros chega a ser uma impossibilidade.

Um senhor carrancudo negou-me o olhar, portanto não foi possível cumprimenta-lo. Muitos outros me fizeram isto. Não me incomodo e até compreendo. Faz tempo abandonei a cartilha da condenação. É melhor que nos compreendamos uns aos outros.

Uma das moças que presta serviço de limpeza nesta estação do metrô me cumprimenta com os medos gritando em sua face. Sou recíproco e não demoro meus olhos para não incomodá-la. Passa um rapaz cabisbaixo. Sua feição demonstra melancolia. É a segunda vez que o vejo e já me acostumei com seu jeito.

Enquanto subtraio o trio de alimentos, faço uma construção literária que é apenas prévia do que se dá agora. Acho que estou surtado. Um surto literário. Qualquer detalhe é bem vindo. Alguns dos quais abro mão, sem explicar aqui o porquê.

Caminho apressado em direção ao meu local onde presto um serviço extra. Sinto o claro desejo em escrever, o que me foi muito esperado durante a semana. Ao mesmo tempo em que observo, sinto-me desprendido de tudo como se nada pudesse me abalar, mas isto de certo é uma inverdade.

Recordo-me daquele novo funcionário da limpeza na empresa em que trabalho. Sempre o cumprimento e ele responde tímida e educadamente. Mas jamais teve a iniciativa, e está claro que se não o cumprimentasse ele simplesmente se manteria em silêncio, sem sequer me dirigir o olhar numa intenção de ser cumprimentado. Não sei qual a sua preferência, e em verdade jamais pensei nisso. Este mesmo rapaz quase todos os dias vai à minha sala retirar a garrafa de café. Mesmo que a porta esteja aberta, bate antes de entrar, e só o faz mediante permissão. De modo cortês e até carinhoso o recebo. Acho que jamais iremos trocar palavras além das necessárias.

O que se vê por aí são inúmeras pessoas exercendo seu direito de ir e vir, presas em si. O artigo 5º da Constituição brasileira garante esta liberdade. Talvez devessemos pensar nessas outras prisões aludidas aqui. A serenidade é um bem necessário. É condição fundamental para um ir e vir realmente livre.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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