A sensatez de um casal

segunda-feira, maio 04, 2009 ·

riscos e consequências deixados de lado

No exato momento em que sorvia uma xícara de café em requintada loja, tecia mentalmente o texto. O desejo veio súbito, talvez mediante as observações que eram feitas. Um paulistano muito bem trajado parecia desgostar do modo simpático como tratei a atendente. Mas quanto a isto sobram dúvidas, talvez ele nem estivesse dando a mínima. Adocei o café sem me importar em observar ao redor. De fato, um belo Café ali na Paulista. Minha presença foi tão rápida quanto o curto que tomei. Despedi-me da atendente e caminhei para a estação de metrô, cuja entrada estava a poucos metros.

O parágrafo acima passou o final de semana sem uma releitura. Ele fora escrito diretamente na tela do computador. Não me recordo por que não continuei o texto. Sei apenas que no final do expediente, último dia de trabalho da semana, fiz a impressão do texto. Levei-o para casa, onde tramava terminá-lo. Mas não o fiz. Houve tempo para tanto. Mas escrever é ato que requer alguns ingredientes, entre os quais o claro desejo. Falo por mim, evidentemente.

Estou em pé. A inoperância alheia é a culpada. Faz tempo percebo a dificuldade executória de muitas pessoas em suas atividades de trabalho. Talvez seja algo cultural. De qualquer maneira, isso enriquece esta construção literária. Creio que seja a primeira vez que escrevo assim, apoiado sobre balcão.

Era nosso segundo encontro. O primeiro produzira boas sensações. A química do beijo, dos toques, as palavras, resultou no contentamento. Mas a vida é rápida nos fatos e acaba por surpreender. Não tive culpa se um cupido mandou-me aquela outra mulher, que tomou conta dos meus pensamentos, sobre os quais controle algum era desejoso. Queria mesmo era pensar nela.

Assim que entrou no carro, depreendeu que agia por impulso, o que considerava grave equívoco. Quanto a mim, sentia que estava não com aquela a qual eu realmente desejava. Talvez por isso os assuntos se ausentassem. Nosso beijo, neste outro encontro, foi fugaz e já não produziu os mesmos efeitos. De fato, ela estava muito bela. Era gostoso olhá-la. Se meus desejos pendiam para outra mulher, nada minava meu carinho por ela. Não demorou, confessou nervosismo e contrariedade. Afirmava que avançáramos rápido demais os faróis que existem entre homem e mulher. Era o início de um rompimento precoce e necessário, além de desejado por ambos.


À mesa naquela rua dos Jardins, o papo franco preservou a amizade. Concluímos que não deveríamos seguir em frente. O encontro horizontal de corpos fora deixado de lado. Não queríamos correr riscos, ou as conseqüências do “depois”. Não havia tensão alguma, pelo contrário. Conversamos e rimos bastante. Eu confessei meu interesse por outra e ela elogiou a honestidade do ato. Levei-a até sua casa. No regresso, já ansiava contar à outra mulher que me fisgara o ocorrido da noite em questão. Sabedora do meu interesse por ela, lamentara que eu estivesse comprometido com alguém.

No dia seguinte contei a ela. Imediatamente, fiz o convite que eu tanto desejava. Aceitou com a simpatia gostosa que eu vira antes. Despedimo-nos depois de breve conversa. O que restou de domingo foi dedicado ao descanso e família. Por estes dias, a tranqüilidade tem sido fiel companheira. Faz tempo aprendi que a felicidade vem do interior, que por sua vez deve estar pleno de serenidade, o que podemos chamar de paz interna. A felicidade que lhe vendem na TV, nas revistas, filmes, novelas ou programas de auditório, é produto enganoso. Vai demorar para você perceber e fazer outras freguesias.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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