O gosto pela independência dos fatos

terça-feira, maio 19, 2009 ·

Enquanto descia a escada da porta de saída do ônibus, fazia pequena busca por pauta para o texto da semana. De todas encontradas, nenhuma me agradava. Era o campo da idealização. Até que resolvi construir este parágrafo com a aposta de que no decorrer do dia surgiria o assunto, motivado por algo absolutamente inesperado. Seja um fato do cotidiano, um sentimento guardado, alguma leitura, o que fosse.



Não houve o desejado. Nada me trouxe a possibilidade da continuidade da escrita. Também, não fiz busca alguma de ideia qualquer. De lá pra cá, já se passaram quatro dias. O que se somou foram estresse e cansaço físico em demasia.



Aqui no consultório médico resguardo-me. Ao adentrar à sala de espera contrariei-me com a presença de tantas pessoas. Reclamei para mim por que tão cedo muitos estão aqui, em um lugar como este. Mas logo me lembrei do tamanho da cidade e que qualquer um aqui poderia fazer a mesma reclamação que fazia em silêncio.



Creio que tenha sido a mais rápida consulta que já fiz. Não posso negar sincera contrariedade ao ser encaminhado para um especialista. O que significa, num primeiro momento, que levantar tão cedo, cansar-me com ônibus lotado, irritar-me na recepção eletrônica, foi em vão. Mas ainda ali, ao me levantar da cadeira e me despedir da médica com o resto de simpatia que me era possível, refleti que ao menos aprendera. Da próxima vez marcaria diretamente com o médico mais adequado, no caso um ortopedista. Se não o fiz, foi pela urgência da coisa. Saí como entrei. Não olhei rostos e só enxerguei o chão. Despedi-me da simples moça da recepção. Dali até o metrô eram poucos passos, mas no cansaço tudo é mais longe.



No final de semana fui torturado pelo silêncio dela. Felizmente, uma emissária me deu informações positivas. Era noite de sábado, quase 22h. Eu fora convidado para um jantar de aniversário. Acabara de chegar da casa de meu irmão, onde fora agraciado com deliciosa sopa e surpreendente bolo. Voltei para o carro e antes de partir mandei mensagem escrita pelo celular, dizendo-me aberto para ouvir. Outra vez mais recebi resposta alguma e já me arrependia da flexão do meu silêncio.



O local para o qual eu me dirigia era um tanto longe. Fui com meu pequeno automóvel. Tomei a Avenida dos Estados, certo de que não erraria. Mas errei. Estava só em local desconhecido. Minha companhia e meu guia eram as placas. Encontrei o rumo certo e cheguei ao local onde deveria esperar a pessoa que me guiaria ao meu destino final. Assim o foi.



Havia algo inusitado naquela noite. Presente, uma mulher que se interessara por mim em outra ocasião, e outra que me julgava interessante em função de imagens vista em site de relacionamento. A primeira delas, eu até havia tentado uma aproximação, sendo que foi tudo em vão. Extremamente tímida, olhou-me com alguma inquietação. Apenas a cumprimentei educadamente, sem demorar meu olhar. Ficamos no mesmo cômodo somente na hora dos parabéns. De certo, avaliei por algum instante o que julguei ter perdido. Embora fosse dona de alguma beleza, demonstrava mais classe do que outros atributos. Revê-la não me causou frustração alguma. Muito provavelmente porque meus pensamentos estavam em outra mulher, cujo silêncio me aborrecia de alguma maneira.



Hoje é segunda-feira e já passa das 13h e ainda não almocei. Uma senhora evangélica passa por aqui e pede que eu anote um nome para ela. Fará orações pela pessoa detentora do nome e sugere que também anote o meu. Aceito simpaticamente e solicito apenas que coloque outra pessoa no pacote. Ela me informa que tudo será como Deus quiser. Sorrio e gosto do momento. Ela se vai e se despede de maneira divertida. Deixo o local por um instante para tomar um café logo em frente. As meninas me parecem um tanto reticentes em retribuir a simpatia que calculo demonstrar.



No dia que se segue, a minha apreensão por um silêncio alheio que me ainda me castiga. As tentativas frustradas de minha parte em fazer contato causam-me alguma irritação. O campo da incerteza é torturante. O ser humano precisa de algumas certezas para seguir em frente de maneira firme e convicta. Percebo que meu telefonema é muito mais para busca disto do que qualquer outra coisa. Acho que apenas quero a situação resolvida, sem isto me sinto preso, impossibilitado de seguir em frente de modo tranqüilo.



Faço a primeira tentativa e do outro lado certo alguém não atende. Irrito-me e acho que me é negado o direito de ouvir. Teço uma mensagem definitiva que trás consigo o rompimento do que mal começou. Ao término das poucas palavras, receio enviá-las. Faço uma última tentativa e ouço a voz dela ao celular. A conversa é rápida e feita de poucas palavras. Fica acertado que esperarei um telefonema.



São os fatos da vida. O cotidiano literário. Um amigo acha engraçado que embora eu fique chateado, no fim veja tudo como literatura. Para mim, a vida é como é. E assim deve ser. Gosto da independência que os fatos parecem carregar. Acho bela essa nossa fragilidade. É uma maneira minha de ver as coisas. Cada um tem a sua, ou não.



1 comentários:

Veronica disse...
julho 05, 2009  

Na vida a incerteza é algo realmente muito torturante, porém só continuamos em busca do novo porque esse sentimento existe. Se podéssemos prever o futuro, não buscaríamos incessantemente alcançar mais alguma coisa. Que coisa? Se puder me responder, então também não precisará mais procurar rsrsrs

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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