Detalhes sonegados

quarta-feira, maio 27, 2009 ·

Troquei o Café. Aquele outro me lembrava o filme “Laranja Mecânica”, as pessoas. Era como se eu corresse algum risco. Pode parecer devaneio essa minha desconfiança, mas houve a tentativa de uma espécie de golpe, o que alimentou tal insegurança em mim. Pedi um bolo que fosse. A atendente, a porção melancólica da lanchonete, serviu-me um último pedaço à espera de um cliente desavisado. Minha desconfiança se confirmou ao primeiro pedaço. Era bolo velho. Seu colega de trabalho, a parte exaltada, alegre, supostamente feliz, avisou-me de que não carecia pagar. Ainda tentei algumas mordidas, até que desisti. Acho que foi malandragem minha. Talvez eu quisesse fazê-los sentirem-se perdedores no jogo da malícia. Retornei uma vez mais, quando encontrei outro Café. Este com um atendimento mais profissional. Um ambiente mais agradável, além de muito mais limpo. Sem contar que o café é ao gosto meu. Curto e cremoso, adoçado com mascavo.

Esse primeiro parágrafo não se tratou de uma introdução. Sem dúvida ele abre portas para algumas reflexões. Contudo, abro mão de todas elas. Eu poderia até dizer que no exato instante de agora não sei pra que direção ir. De maneira que saio de uma sala sem saber meu rumo. Acho que estou num labirinto literário.

Era noite de sábado. Os fatos e a independência que vejo neles. Eu não podia imaginar o que seria daquele fim de dia. Um fugaz convite e a descoberta de um lugar magnífico. Não imaginava que ele estivesse ali, tão perto de casa, como que a espera de ser encontrado.

Na vida há detalhes os mais variados, a maioria dos quais passam despercebidos. Num texto isto também ocorre . Não apenas para aquele que lê. Quando se relata um fato, a memória pode traí-lo. Além disso, nas observações que se faz, muitos pedaços do quebra-cabeça do acontecimento não são percebidos ou vistos. De maneira que, o que se tenta é proximidade com a verdade, sem jamais alcançá-la totalmente.É utilizar-se de subjetividade , o que leva a erros . De certo, já me equivoquei muito.

O tanque está na reserva. A conta do banco se aproxima da mesma situação. O posto em que costumo abastecer está fechado. Os outros dois que também ficam próximos de minha casa não são confiáveis. Havia um terceiro que sempre está aberto, que só agora enquanto escrevo é que me recordo. De qualquer maneira, jamais abasteceria nele. Caminho para o local pretendido e durante o trajeto encontro um posto da bandeira que confio. Em dez minutos estou em frente ao Espaço Cultural. O bairro é Santana, bem próximo de onde moro. Deixo o carro bem em frente, o que me faz mais tranqüilo com relação à sua segurança. Deixo meus dados na entrada da casa. Pergunto se tal pessoa chegou e sou informado que na lista dos presentes não se encontra o nome que menciono. Estou tenso, em verdade, mas não há correlação alguma com o encontro. Peço à simpática garçonete que me sirva um suco de maracujá, opção que raramente escolho, portanto o pedido é “emblemático”, como diria um grande amigo.

Conforme o aviso inicial, detalhes aqui são negados. Os minutos se passam e no enquadramento do meu olhar entra em cena a pessoa que eu esperava. Não ouve meu primeiro chamado. Cumprimentamo-nos. Dali, à mesa, em meio a tanto verde, levou-me para a parte interna da casa. Mais quinze minutos e os músicos voltariam com o jazz ou blues. Lá fora outra vez nos sentamos à mesa, acompanhados pelo dono da casa. Um músico com histórias para contar. Pessoa gentil e deveras humana, além de sensível no mesmo tanto. Contou-me duas ou três histórias. Uma das quais pretendo discorrer aqui em outra ocasião.

Na casa há blues, jazz, piano. Tem também pintura, teatro. Há o que beber ou comer. E há café para fechar a noite. Mas desta vez protelei o pedido e acabei por esquecer fazê-lo.
Minha estada pelo local foi rápida . As companhias foram excelentes. Aquele convite salvou-me e eu me mostrei surpreendido pelo espaço. Estava sinceramente agradecido. De certo, desta vez cumprirei a promessa do retorno.

Levei a pessoa responsável pelo convite à sua casa. De onde estávamos, não demorou mais que dois minutos até seu endereço. O papo seguia agradável. Acho que minhas narinas já haviam se acostumado com o cheiro do seu bom perfume. Ela se vai e eu parto para minha casa. Carrego comigo diversos detalhes não informados aqui, que sonego agora, cujo ato sonegatório foi informado desde o início. Não cabe reclamação.



1 comentários:

Verô disse...
junho 17, 2009  

A vida gira em torno de si mesma. São fragmentos de momentos que constroem nossas histórias.
Detalhes aqui também são negados. Sexta feira à noite, o atraso de minutos foi providencial, respiro fundo, arrumo os cabelos, será que ele se lembra?
O encontro acontece, a noite já está acabando e as dúvidas já não existem mais. O que aconteceu? Novamente os detalhes serão negados. Certamente estão vivos na memória de quem viveu.
O fundo musical é Jazz, agradável e adequado.
Viu só? Também tenho detalhes a serem negados, histórias a serem construídas, encontros que começam e não se sabe onde vão chegar. Na dúvida, hoje é o único dia em que podemos viver, quiçá soubéssemos como será o amanhã!

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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