Açucar mascavo

domingo, maio 31, 2009 ·

Ela já sabe o que vou pedir, não é preciso dizer novamente. Prepara o café-curto da maneira como eu gosto. Deita a xícara sobre o balcão sempre limpo. Mas, outra vez mais tenho que pedir o açúcar mascavo, o que já me incomoda. Claro que vai do estado de humor que estou, o que resultará no grau de paciência. Não preciso informar como estão estes ingredientes em mim. Mas fica o aviso de que não se deve esquecer das intensidades. Meu humor não está dos piores.

Não há pão de queijo, e não é a primeira vez que se dá tal falta. Habilmente, ela me oferece bolo de laranja como opção, garantindo plena satisfação. Somos indelicados em utilizar um outro cliente como referência. Aceito a sugestão e sigo certo de que não é bolo velho.

Ao caixa, o senhor que teme olhar e sorrir se esquece de cobrar o bolo. Aviso-lhe do equívoco para que a indicação a contento não fique sem a devida e merecida cobrança. No país da malandragem, querer levar sempre vantagem não é prerrogativa de todos, felizmente. São aqueles que sabem que tal comportamento fecha portas, afasta pessoas.

Quando adentrei ao Café aqui mencionado, não demorou e percebi que caçava uma história. Logo que vi o único assento livre para me sentar ocupado pelo pacote daquela mulher, senti certa contrariedade. Assim, foi proposital ficar ali em pé ao lado dela. De qualquer forma, atitude gentil esperada ela não tomou. Sentia-me no direito e por um instante pensei pedir licença de modo até irônico, mas não o fiz. Minha comunicação deveria ser apenas com o corpo. Assim mesmo, olhei para o lado a fim de fazer avaliação que fosse, sem creditar nisto qualquer certeza. Aliás, deixemos as certezas para os idiotas, conforme ensinou o intelectual. Ao ver que se tratava de uma senhora de idade, aparentemente tranqüila em seu mundo, abracei a compreensão e abandonei minha guerra particular. O homem ao lado se levantou e se dirigiu para o caixa. Puxei o banco de madeira que ele abandonara e me sentei. Não me recordo se a senhora se foi primeiro do que eu.

O corpo comunica, todos sabemos disto. Gestos podem contradizer palavras. Por isso, não me fio tanto a discursos. Necessito avaliar as atitudes. Diversas vezes percebo o engodo. Em outras, avalio de forma equivocada. E, claro, todos nós seguimos assim, entre acertos e erros sobre os outros. Desavisados e errantes os que carregam consigo a plena certeza em suas avaliações. Piores aqueles que utilizam cartilhas para decifrar a alma alheia.

Certa vez, em numa conversa virtual, uma colega psicóloga fez uma afirmação a meu respeito. Baseou-se no que eu havia dito sobre uma ex-namorada. Fizera ali a explanação de sua teoria. Firmara contrato com a “certeza”. Sua precipitação, bem como o uso da superficialidade para fazer uma avaliação, deixou-me um tanto indignado, embora nada surpreso. Não era a primeira vez que ouvia de uma profissional da alma precipitações e superficialidades. Sempre depositei nisto o baixo nível filosófico da pessoa, bem como a necessidade de aplicar os conhecimentos obtidos durante sua formação, para os quais muitos dão, equivocadamente, caráter absoluto. Felizmente, há bons profissionais no mercado, mas de certo custam caro, não são para todos.

Penso que as pessoas refletem o que são. Mas não significa que podemos avaliar baseados no pouco que ouvimos, em dada circunstância. Aprendi com um jornalista que o ser humano é absolutamente circunstancial. De modo que, é preciso esperar outros momentos para saber mais quem pode ser aquela pessoa, sem, contudo, atingir a exatidão. Quantos vi vendendo felicidade naquele primeiro contato, para depois perceber enorme infelicidade? Quantos ainda verei?

Confesso certo cansaço em ver as pessoas se referirem às outras com tantas certezas, tantas pedras. Algumas fazem tamanhas generalizações que diminuem o ser humano a simples produtos pré-programados. Aprendi que poucos são aqueles que podem ouvir e ajuda-lo a entender questões relacionadas a um outro. A maioria vai mesmo é atirar pedras de modo insano. É como se estivessem diante de um trágico e inaceitável espelho.

Na sociedade dos discursos é preciso ficar atento aos que vivem no palanque. São como políticos que dizem o que você quer ouvir, mas que pouco interessados estão em promover crescimentos, quais sejam. Lembrando que na eterna campanha da vida, este que escreve também é candidato. Por vezes, pode se equivocar sem perceber, fazer discursos desconexos com sua realidade. De qualquer forma, guarde suas pedras para você. E aprenda a gostar do espelho à sua frente.



opiniões opiniones opinition


Belo artigo. Se quiser, acrescente este livro às minhas indicações anteriores?
O tambor (Günter Grass): magistral retrato da Alemanha nazista por meio das memórias de Oskar, que decide deixar de crescer aos 3 anos de idade.
Abraço
Adalton



1 comentários:

Verô disse...
junho 15, 2009  

A vida gira em torno de si mesma. São fragmentos de momentos que constroem nossas histórias.
Detalhes aqui também são negados. Sexta feira à noite, o atraso de minutos foi providencial, respiro fundo, arrumo os cabelos, será que ele se lembra?
O encontro acontece, a noite já está acabando e as dúvidas já não existem mais. O que aconteceu? Novamente os detalhes serão negados. Certamente estão vivos na memória de quem viveu.
O fundo musical é Jazz, agradável e adequado.
Viu só? Também tenho detalhes a serem negados, histórias a serem construídas, encontros que começam e não se sabe onde vão chegar. Na dúvida, hoje é o único dia em que podemos viver, quiçá soubéssemos como será o amanhã!
A vida gira em torno de si mesma. São fragmentos de momentos que constroem nossas histórias.
Detalhes aqui também são negados. Sexta feira à noite, o atraso de minutos foi providencial, respiro fundo, arrumo os cabelos, será que ele se lembra?
O encontro acontece, a noite já está acabando e as dúvidas já não existem mais. O que aconteceu? Novamente os detalhes serão negados. Certamente estão vivos na memória de quem viveu.
O fundo musical é Jazz, agradável e adequado.
Viu só? Também tenho detalhes a serem negados, histórias a serem construídas, encontros que começam e não se sabe onde vão chegar. Na dúvida, hoje é o único dia em que podemos viver, quiçá soubéssemos como será o amanhã!

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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