Açucar mascavo

domingo, maio 31, 2009 · 1 comentários

Ela já sabe o que vou pedir, não é preciso dizer novamente. Prepara o café-curto da maneira como eu gosto. Deita a xícara sobre o balcão sempre limpo. Mas, outra vez mais tenho que pedir o açúcar mascavo, o que já me incomoda. Claro que vai do estado de humor que estou, o que resultará no grau de paciência. Não preciso informar como estão estes ingredientes em mim. Mas fica o aviso de que não se deve esquecer das intensidades. Meu humor não está dos piores.

Não há pão de queijo, e não é a primeira vez que se dá tal falta. Habilmente, ela me oferece bolo de laranja como opção, garantindo plena satisfação. Somos indelicados em utilizar um outro cliente como referência. Aceito a sugestão e sigo certo de que não é bolo velho.

Ao caixa, o senhor que teme olhar e sorrir se esquece de cobrar o bolo. Aviso-lhe do equívoco para que a indicação a contento não fique sem a devida e merecida cobrança. No país da malandragem, querer levar sempre vantagem não é prerrogativa de todos, felizmente. São aqueles que sabem que tal comportamento fecha portas, afasta pessoas.

Quando adentrei ao Café aqui mencionado, não demorou e percebi que caçava uma história. Logo que vi o único assento livre para me sentar ocupado pelo pacote daquela mulher, senti certa contrariedade. Assim, foi proposital ficar ali em pé ao lado dela. De qualquer forma, atitude gentil esperada ela não tomou. Sentia-me no direito e por um instante pensei pedir licença de modo até irônico, mas não o fiz. Minha comunicação deveria ser apenas com o corpo. Assim mesmo, olhei para o lado a fim de fazer avaliação que fosse, sem creditar nisto qualquer certeza. Aliás, deixemos as certezas para os idiotas, conforme ensinou o intelectual. Ao ver que se tratava de uma senhora de idade, aparentemente tranqüila em seu mundo, abracei a compreensão e abandonei minha guerra particular. O homem ao lado se levantou e se dirigiu para o caixa. Puxei o banco de madeira que ele abandonara e me sentei. Não me recordo se a senhora se foi primeiro do que eu.

O corpo comunica, todos sabemos disto. Gestos podem contradizer palavras. Por isso, não me fio tanto a discursos. Necessito avaliar as atitudes. Diversas vezes percebo o engodo. Em outras, avalio de forma equivocada. E, claro, todos nós seguimos assim, entre acertos e erros sobre os outros. Desavisados e errantes os que carregam consigo a plena certeza em suas avaliações. Piores aqueles que utilizam cartilhas para decifrar a alma alheia.

Certa vez, em numa conversa virtual, uma colega psicóloga fez uma afirmação a meu respeito. Baseou-se no que eu havia dito sobre uma ex-namorada. Fizera ali a explanação de sua teoria. Firmara contrato com a “certeza”. Sua precipitação, bem como o uso da superficialidade para fazer uma avaliação, deixou-me um tanto indignado, embora nada surpreso. Não era a primeira vez que ouvia de uma profissional da alma precipitações e superficialidades. Sempre depositei nisto o baixo nível filosófico da pessoa, bem como a necessidade de aplicar os conhecimentos obtidos durante sua formação, para os quais muitos dão, equivocadamente, caráter absoluto. Felizmente, há bons profissionais no mercado, mas de certo custam caro, não são para todos.

Penso que as pessoas refletem o que são. Mas não significa que podemos avaliar baseados no pouco que ouvimos, em dada circunstância. Aprendi com um jornalista que o ser humano é absolutamente circunstancial. De modo que, é preciso esperar outros momentos para saber mais quem pode ser aquela pessoa, sem, contudo, atingir a exatidão. Quantos vi vendendo felicidade naquele primeiro contato, para depois perceber enorme infelicidade? Quantos ainda verei?

Confesso certo cansaço em ver as pessoas se referirem às outras com tantas certezas, tantas pedras. Algumas fazem tamanhas generalizações que diminuem o ser humano a simples produtos pré-programados. Aprendi que poucos são aqueles que podem ouvir e ajuda-lo a entender questões relacionadas a um outro. A maioria vai mesmo é atirar pedras de modo insano. É como se estivessem diante de um trágico e inaceitável espelho.

Na sociedade dos discursos é preciso ficar atento aos que vivem no palanque. São como políticos que dizem o que você quer ouvir, mas que pouco interessados estão em promover crescimentos, quais sejam. Lembrando que na eterna campanha da vida, este que escreve também é candidato. Por vezes, pode se equivocar sem perceber, fazer discursos desconexos com sua realidade. De qualquer forma, guarde suas pedras para você. E aprenda a gostar do espelho à sua frente.



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Belo artigo. Se quiser, acrescente este livro às minhas indicações anteriores?
O tambor (Günter Grass): magistral retrato da Alemanha nazista por meio das memórias de Oskar, que decide deixar de crescer aos 3 anos de idade.
Abraço
Adalton



Detalhes sonegados

quarta-feira, maio 27, 2009 · 1 comentários

Troquei o Café. Aquele outro me lembrava o filme “Laranja Mecânica”, as pessoas. Era como se eu corresse algum risco. Pode parecer devaneio essa minha desconfiança, mas houve a tentativa de uma espécie de golpe, o que alimentou tal insegurança em mim. Pedi um bolo que fosse. A atendente, a porção melancólica da lanchonete, serviu-me um último pedaço à espera de um cliente desavisado. Minha desconfiança se confirmou ao primeiro pedaço. Era bolo velho. Seu colega de trabalho, a parte exaltada, alegre, supostamente feliz, avisou-me de que não carecia pagar. Ainda tentei algumas mordidas, até que desisti. Acho que foi malandragem minha. Talvez eu quisesse fazê-los sentirem-se perdedores no jogo da malícia. Retornei uma vez mais, quando encontrei outro Café. Este com um atendimento mais profissional. Um ambiente mais agradável, além de muito mais limpo. Sem contar que o café é ao gosto meu. Curto e cremoso, adoçado com mascavo.

Esse primeiro parágrafo não se tratou de uma introdução. Sem dúvida ele abre portas para algumas reflexões. Contudo, abro mão de todas elas. Eu poderia até dizer que no exato instante de agora não sei pra que direção ir. De maneira que saio de uma sala sem saber meu rumo. Acho que estou num labirinto literário.

Era noite de sábado. Os fatos e a independência que vejo neles. Eu não podia imaginar o que seria daquele fim de dia. Um fugaz convite e a descoberta de um lugar magnífico. Não imaginava que ele estivesse ali, tão perto de casa, como que a espera de ser encontrado.

Na vida há detalhes os mais variados, a maioria dos quais passam despercebidos. Num texto isto também ocorre . Não apenas para aquele que lê. Quando se relata um fato, a memória pode traí-lo. Além disso, nas observações que se faz, muitos pedaços do quebra-cabeça do acontecimento não são percebidos ou vistos. De maneira que, o que se tenta é proximidade com a verdade, sem jamais alcançá-la totalmente.É utilizar-se de subjetividade , o que leva a erros . De certo, já me equivoquei muito.

O tanque está na reserva. A conta do banco se aproxima da mesma situação. O posto em que costumo abastecer está fechado. Os outros dois que também ficam próximos de minha casa não são confiáveis. Havia um terceiro que sempre está aberto, que só agora enquanto escrevo é que me recordo. De qualquer maneira, jamais abasteceria nele. Caminho para o local pretendido e durante o trajeto encontro um posto da bandeira que confio. Em dez minutos estou em frente ao Espaço Cultural. O bairro é Santana, bem próximo de onde moro. Deixo o carro bem em frente, o que me faz mais tranqüilo com relação à sua segurança. Deixo meus dados na entrada da casa. Pergunto se tal pessoa chegou e sou informado que na lista dos presentes não se encontra o nome que menciono. Estou tenso, em verdade, mas não há correlação alguma com o encontro. Peço à simpática garçonete que me sirva um suco de maracujá, opção que raramente escolho, portanto o pedido é “emblemático”, como diria um grande amigo.

Conforme o aviso inicial, detalhes aqui são negados. Os minutos se passam e no enquadramento do meu olhar entra em cena a pessoa que eu esperava. Não ouve meu primeiro chamado. Cumprimentamo-nos. Dali, à mesa, em meio a tanto verde, levou-me para a parte interna da casa. Mais quinze minutos e os músicos voltariam com o jazz ou blues. Lá fora outra vez nos sentamos à mesa, acompanhados pelo dono da casa. Um músico com histórias para contar. Pessoa gentil e deveras humana, além de sensível no mesmo tanto. Contou-me duas ou três histórias. Uma das quais pretendo discorrer aqui em outra ocasião.

Na casa há blues, jazz, piano. Tem também pintura, teatro. Há o que beber ou comer. E há café para fechar a noite. Mas desta vez protelei o pedido e acabei por esquecer fazê-lo.
Minha estada pelo local foi rápida . As companhias foram excelentes. Aquele convite salvou-me e eu me mostrei surpreendido pelo espaço. Estava sinceramente agradecido. De certo, desta vez cumprirei a promessa do retorno.

Levei a pessoa responsável pelo convite à sua casa. De onde estávamos, não demorou mais que dois minutos até seu endereço. O papo seguia agradável. Acho que minhas narinas já haviam se acostumado com o cheiro do seu bom perfume. Ela se vai e eu parto para minha casa. Carrego comigo diversos detalhes não informados aqui, que sonego agora, cujo ato sonegatório foi informado desde o início. Não cabe reclamação.



O gosto pela independência dos fatos

terça-feira, maio 19, 2009 · 1 comentários

Enquanto descia a escada da porta de saída do ônibus, fazia pequena busca por pauta para o texto da semana. De todas encontradas, nenhuma me agradava. Era o campo da idealização. Até que resolvi construir este parágrafo com a aposta de que no decorrer do dia surgiria o assunto, motivado por algo absolutamente inesperado. Seja um fato do cotidiano, um sentimento guardado, alguma leitura, o que fosse.



Não houve o desejado. Nada me trouxe a possibilidade da continuidade da escrita. Também, não fiz busca alguma de ideia qualquer. De lá pra cá, já se passaram quatro dias. O que se somou foram estresse e cansaço físico em demasia.



Aqui no consultório médico resguardo-me. Ao adentrar à sala de espera contrariei-me com a presença de tantas pessoas. Reclamei para mim por que tão cedo muitos estão aqui, em um lugar como este. Mas logo me lembrei do tamanho da cidade e que qualquer um aqui poderia fazer a mesma reclamação que fazia em silêncio.



Creio que tenha sido a mais rápida consulta que já fiz. Não posso negar sincera contrariedade ao ser encaminhado para um especialista. O que significa, num primeiro momento, que levantar tão cedo, cansar-me com ônibus lotado, irritar-me na recepção eletrônica, foi em vão. Mas ainda ali, ao me levantar da cadeira e me despedir da médica com o resto de simpatia que me era possível, refleti que ao menos aprendera. Da próxima vez marcaria diretamente com o médico mais adequado, no caso um ortopedista. Se não o fiz, foi pela urgência da coisa. Saí como entrei. Não olhei rostos e só enxerguei o chão. Despedi-me da simples moça da recepção. Dali até o metrô eram poucos passos, mas no cansaço tudo é mais longe.



No final de semana fui torturado pelo silêncio dela. Felizmente, uma emissária me deu informações positivas. Era noite de sábado, quase 22h. Eu fora convidado para um jantar de aniversário. Acabara de chegar da casa de meu irmão, onde fora agraciado com deliciosa sopa e surpreendente bolo. Voltei para o carro e antes de partir mandei mensagem escrita pelo celular, dizendo-me aberto para ouvir. Outra vez mais recebi resposta alguma e já me arrependia da flexão do meu silêncio.



O local para o qual eu me dirigia era um tanto longe. Fui com meu pequeno automóvel. Tomei a Avenida dos Estados, certo de que não erraria. Mas errei. Estava só em local desconhecido. Minha companhia e meu guia eram as placas. Encontrei o rumo certo e cheguei ao local onde deveria esperar a pessoa que me guiaria ao meu destino final. Assim o foi.



Havia algo inusitado naquela noite. Presente, uma mulher que se interessara por mim em outra ocasião, e outra que me julgava interessante em função de imagens vista em site de relacionamento. A primeira delas, eu até havia tentado uma aproximação, sendo que foi tudo em vão. Extremamente tímida, olhou-me com alguma inquietação. Apenas a cumprimentei educadamente, sem demorar meu olhar. Ficamos no mesmo cômodo somente na hora dos parabéns. De certo, avaliei por algum instante o que julguei ter perdido. Embora fosse dona de alguma beleza, demonstrava mais classe do que outros atributos. Revê-la não me causou frustração alguma. Muito provavelmente porque meus pensamentos estavam em outra mulher, cujo silêncio me aborrecia de alguma maneira.



Hoje é segunda-feira e já passa das 13h e ainda não almocei. Uma senhora evangélica passa por aqui e pede que eu anote um nome para ela. Fará orações pela pessoa detentora do nome e sugere que também anote o meu. Aceito simpaticamente e solicito apenas que coloque outra pessoa no pacote. Ela me informa que tudo será como Deus quiser. Sorrio e gosto do momento. Ela se vai e se despede de maneira divertida. Deixo o local por um instante para tomar um café logo em frente. As meninas me parecem um tanto reticentes em retribuir a simpatia que calculo demonstrar.



No dia que se segue, a minha apreensão por um silêncio alheio que me ainda me castiga. As tentativas frustradas de minha parte em fazer contato causam-me alguma irritação. O campo da incerteza é torturante. O ser humano precisa de algumas certezas para seguir em frente de maneira firme e convicta. Percebo que meu telefonema é muito mais para busca disto do que qualquer outra coisa. Acho que apenas quero a situação resolvida, sem isto me sinto preso, impossibilitado de seguir em frente de modo tranqüilo.



Faço a primeira tentativa e do outro lado certo alguém não atende. Irrito-me e acho que me é negado o direito de ouvir. Teço uma mensagem definitiva que trás consigo o rompimento do que mal começou. Ao término das poucas palavras, receio enviá-las. Faço uma última tentativa e ouço a voz dela ao celular. A conversa é rápida e feita de poucas palavras. Fica acertado que esperarei um telefonema.



São os fatos da vida. O cotidiano literário. Um amigo acha engraçado que embora eu fique chateado, no fim veja tudo como literatura. Para mim, a vida é como é. E assim deve ser. Gosto da independência que os fatos parecem carregar. Acho bela essa nossa fragilidade. É uma maneira minha de ver as coisas. Cada um tem a sua, ou não.



Um ir e vir realmente livre

domingo, maio 10, 2009 · 0 comentários

Enquanto a escada rolante me levava, refletia sobre outra boa leitura que a Revista Piauí me ofertara. Uma matéria sobre a ministra Dilma Roussef que discorre sobre tortura, entre outras questões, durante o regime militar. Causo-me incômodo imaginar as violências cometidas durante o regime fechado pelo qual o país passou. De certo, os choques elétricos aplicados nos presos por outros seres humanos ainda tocam a alma de muitos dos que foram torturados. Coloquemo-nos no lugar destas pessoas e tentemos sentir as emoções disparadas enquanto sofriam, e, depois de inúmeras violências contra si, devemos imaginar a dor que sentiam no silêncio da cela, quebrado apenas pelos possíveis gemidos da alma.

A vida é o bem mais precioso. A principal tutela do Estado. E viver com liberdade é preceito necessário que todos prezamos. De qualquer forma, o ser humano possui diversas prisões. São as amarras impostas pela mente. Esta que pode ser nossa boa amiga, ou nosso pior algoz. De uma maneira tal, que pode torturar o indivíduo sem lhe dar trégua. Uma prisão que ele nem percebe. É quando o ir e vir garantido por nossa Constituição se mostra limitado. Quantas pessoas vão a lugar algum, presas que estão em si, preenchidas de medos, incapazes de se comunicar?

Estou num refeitório. Meu “boa tarde” é um tanto resguardado. Hoje não estou tão livre. Acho que é um regime semi-aberto. A comida é simples. Os pastéis estão morenos demais, equívocos de uma fritura apressada. Aqui, e pelos corredores locais, já me sonegaram diversos cumprimentos, que se para muitos é simples ato, para outros chega a ser uma impossibilidade.

Um senhor carrancudo negou-me o olhar, portanto não foi possível cumprimenta-lo. Muitos outros me fizeram isto. Não me incomodo e até compreendo. Faz tempo abandonei a cartilha da condenação. É melhor que nos compreendamos uns aos outros.

Uma das moças que presta serviço de limpeza nesta estação do metrô me cumprimenta com os medos gritando em sua face. Sou recíproco e não demoro meus olhos para não incomodá-la. Passa um rapaz cabisbaixo. Sua feição demonstra melancolia. É a segunda vez que o vejo e já me acostumei com seu jeito.

Enquanto subtraio o trio de alimentos, faço uma construção literária que é apenas prévia do que se dá agora. Acho que estou surtado. Um surto literário. Qualquer detalhe é bem vindo. Alguns dos quais abro mão, sem explicar aqui o porquê.

Caminho apressado em direção ao meu local onde presto um serviço extra. Sinto o claro desejo em escrever, o que me foi muito esperado durante a semana. Ao mesmo tempo em que observo, sinto-me desprendido de tudo como se nada pudesse me abalar, mas isto de certo é uma inverdade.

Recordo-me daquele novo funcionário da limpeza na empresa em que trabalho. Sempre o cumprimento e ele responde tímida e educadamente. Mas jamais teve a iniciativa, e está claro que se não o cumprimentasse ele simplesmente se manteria em silêncio, sem sequer me dirigir o olhar numa intenção de ser cumprimentado. Não sei qual a sua preferência, e em verdade jamais pensei nisso. Este mesmo rapaz quase todos os dias vai à minha sala retirar a garrafa de café. Mesmo que a porta esteja aberta, bate antes de entrar, e só o faz mediante permissão. De modo cortês e até carinhoso o recebo. Acho que jamais iremos trocar palavras além das necessárias.

O que se vê por aí são inúmeras pessoas exercendo seu direito de ir e vir, presas em si. O artigo 5º da Constituição brasileira garante esta liberdade. Talvez devessemos pensar nessas outras prisões aludidas aqui. A serenidade é um bem necessário. É condição fundamental para um ir e vir realmente livre.



A sensatez de um casal

segunda-feira, maio 04, 2009 · 0 comentários

riscos e consequências deixados de lado

No exato momento em que sorvia uma xícara de café em requintada loja, tecia mentalmente o texto. O desejo veio súbito, talvez mediante as observações que eram feitas. Um paulistano muito bem trajado parecia desgostar do modo simpático como tratei a atendente. Mas quanto a isto sobram dúvidas, talvez ele nem estivesse dando a mínima. Adocei o café sem me importar em observar ao redor. De fato, um belo Café ali na Paulista. Minha presença foi tão rápida quanto o curto que tomei. Despedi-me da atendente e caminhei para a estação de metrô, cuja entrada estava a poucos metros.

O parágrafo acima passou o final de semana sem uma releitura. Ele fora escrito diretamente na tela do computador. Não me recordo por que não continuei o texto. Sei apenas que no final do expediente, último dia de trabalho da semana, fiz a impressão do texto. Levei-o para casa, onde tramava terminá-lo. Mas não o fiz. Houve tempo para tanto. Mas escrever é ato que requer alguns ingredientes, entre os quais o claro desejo. Falo por mim, evidentemente.

Estou em pé. A inoperância alheia é a culpada. Faz tempo percebo a dificuldade executória de muitas pessoas em suas atividades de trabalho. Talvez seja algo cultural. De qualquer maneira, isso enriquece esta construção literária. Creio que seja a primeira vez que escrevo assim, apoiado sobre balcão.

Era nosso segundo encontro. O primeiro produzira boas sensações. A química do beijo, dos toques, as palavras, resultou no contentamento. Mas a vida é rápida nos fatos e acaba por surpreender. Não tive culpa se um cupido mandou-me aquela outra mulher, que tomou conta dos meus pensamentos, sobre os quais controle algum era desejoso. Queria mesmo era pensar nela.

Assim que entrou no carro, depreendeu que agia por impulso, o que considerava grave equívoco. Quanto a mim, sentia que estava não com aquela a qual eu realmente desejava. Talvez por isso os assuntos se ausentassem. Nosso beijo, neste outro encontro, foi fugaz e já não produziu os mesmos efeitos. De fato, ela estava muito bela. Era gostoso olhá-la. Se meus desejos pendiam para outra mulher, nada minava meu carinho por ela. Não demorou, confessou nervosismo e contrariedade. Afirmava que avançáramos rápido demais os faróis que existem entre homem e mulher. Era o início de um rompimento precoce e necessário, além de desejado por ambos.


À mesa naquela rua dos Jardins, o papo franco preservou a amizade. Concluímos que não deveríamos seguir em frente. O encontro horizontal de corpos fora deixado de lado. Não queríamos correr riscos, ou as conseqüências do “depois”. Não havia tensão alguma, pelo contrário. Conversamos e rimos bastante. Eu confessei meu interesse por outra e ela elogiou a honestidade do ato. Levei-a até sua casa. No regresso, já ansiava contar à outra mulher que me fisgara o ocorrido da noite em questão. Sabedora do meu interesse por ela, lamentara que eu estivesse comprometido com alguém.

No dia seguinte contei a ela. Imediatamente, fiz o convite que eu tanto desejava. Aceitou com a simpatia gostosa que eu vira antes. Despedimo-nos depois de breve conversa. O que restou de domingo foi dedicado ao descanso e família. Por estes dias, a tranqüilidade tem sido fiel companheira. Faz tempo aprendi que a felicidade vem do interior, que por sua vez deve estar pleno de serenidade, o que podemos chamar de paz interna. A felicidade que lhe vendem na TV, nas revistas, filmes, novelas ou programas de auditório, é produto enganoso. Vai demorar para você perceber e fazer outras freguesias.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
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Alan Davis



Revisão de textos
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