Reencontro com Kafka

segunda-feira, abril 13, 2009 ·

Fazia algum tempo que não tinha com Franz Kafka. Tratava-se de um reencontro. Ali, de frente ao palco, alguma luz iluminava as estantes cheias de papéis que representavam os processos dos inúmeros acusados. A belíssima obra de um gênio da literatura universal seria representada a seguir. Sozinho, numa poltrona não muito confortável, eu aguardava sem olhar ao redor. Limitava minha visão ao que estava ao alcance dos meus olhos, nada mais buscava.



Era uma noite muito agradável. Eu me vestira bem. Desta vez, não utilizei transporte público, este que diversas vezes cito em textos. Dirigia meu pequeno carro, comprado há pouco tempo de grande amigo. Sintonizara a rádio que este mesmo amigo me informara a freqüência. Fui vagarosamente ao som de música erudita, com vidros fechados e ar-condicionado ligado.



Errei, ali era a saída de veículos. Gentilmente, fui orientado pelo funcionário do SESC. Retribuí a simpatia e nossa comunicação foi muito boa. Dei ré e por sorte não bati na mureta que eu nem havia reparado. Fiz a volta e logo encontrei a entrada. Um Ford Ka entrou primeiro que eu. Dentro dele, três simples mulheres que observei me olhavam. Uma delas até olhei como quem avaliava. Estacionei e a lembrança me indicou onde ficava o elevador. O ascensorista que já conheço é extremamente cortez e comunicativo. Pediu-me que esperasse as três mulheres. Orientou-nos a tomar um café no térreo antes do início da peça, pois faltavam muitos minutos ainda. Aceitei sua sugestão. Mas lá no café súbito veio a preocupação, pois me lembrei que ainda não comprara ingresso. Eu estava sozinho, embora tivesse tentado convidar uma amiga.



A fila foi rápida. Ao longe, vendo a tela do computador, escolhi a minha poltrona. Enganei-me ao pensar que os quadradinhos azuis representavam ingressos ainda disponíveis. A cor branca era o sinal de lugar vazio. Sempre escolho um que fique na ponta que é pra facilitar a saída. E assim o fiz novamente.



Não há como negar, mas peças de teatro quase sempre estimulam sentimentos calados em mim. E teatro é algo mágico. Por um momento, imaginei que pelo mundo afora inúmeras peças eram representadas. E aquela seria apenas um exemplo de expressão daquilo que o ser humano é capaz de criar. Havia em mim a clara certeza do quanto aquele momento era fugaz, do quanto ele já pertencia a um passado. Consegui sentir um passar de anos de tal forma que todos ali já não estávamos mais presentes. Era apenas um devaneio. O tempo, sua rapidez, é inexplicável. Pode até assustar.



Assisti à representação com algum desconforto físico. Demorou um pouco para que esquecesse o mundo lá fora. Ficava maravilhado com as mudanças de posicionamento das peças que compunham o cenário. Um casal, não demorou muito, foi embora. Na hora, julguei que não haviam lido a obra de que se tratava a peça, e por isso não entendiam. Mas era apenas suposição. De qualquer forma, desconcentrei-me por um momento e calculei que uma saída assim também pudesse fazer o mesmo com os atores, o que era um equívoco meu, certamente.



Ao término da peça, saí. Desde o café, já havia pago o estacionamento, o que fora mais uma gentil orientação do ascensorista hábil com público. Assim, não perdi tempo com fila, senão a de carros. Dois dos quais deixei passar à minha frente, mas só um deles agradeceu, o que não me aborreceu, evidentemente. Entreguei o comprovante de pagamento e deixei o local. Estava muito perto de casa. Tomei aquela enorme avenida e subtraí a distância dali à minha casa. A noite estava gostosa e talvez eu desejasse estica-la. Quem sabe um bar, um local onde houvesse mulheres. Mas era apenas um pequeno grito da carência. Sabia que o melhor era ir para casa. De certo, se tivesse uma companhia comigo teria ido pra algum lugar. Abri a garagem a ainda tocava música erudita dentro carro. O vigia da rua, um jovem rapaz que não tenho muita simpatia, e me parece recíproco da parte dele, permaneceu sentado à cadeira em frente a casa ao lado. Não nego que teria me agradado se ele abrisse a porta da garagem, mas de certo este era um desejo pequeno burguês meu. Entrei. Fechei a porta. Mandei mensagem para uma mulher. E tive com ela na internet. O depois disto ainda não ocorreu.



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1 comentários:

NayanaFerreira disse...
abril 15, 2009  

o depois disso, a gente fica na espera.

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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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