Fluxos

terça-feira, abril 28, 2009 ·

O preço pago pelo café com chantili, acompanhado de sofrível pão de queijo, foi acima da qualidade oferecida. Um prejuízo de fato. Mais simples real e alguns centavos, poderia pagar o almoço em lugar simples desta região central de São Paulo. Mas não se engane e aposte que qualquer estabelecimento em que entrar pagará pequeno preço. Três bons amigos fizeram esta aposta e a conta paga foi aquela que incomoda quem pouco e honestamente ganha, muito embora seja possível ganhar muito sem prejudicar pessoas, mas isto é outro assunto.
Busca guardanapo para limpar resquícios de uma alimentação composta pelo trio já mencionado. Não culpou os funcionários pela falta, pois já conhece o local e sabe quantas falhas gerenciais há por ali. Exagerou no número de guardanapos e sentiu-se ferindo a natureza. Objetivou desculpa na ilusão de que usaria os papéis sobrantes durante o dia. E agora eles descansam ao lado do pequeno bloco que recebe esses dizeres.



Vez em quando mira olhos ao redor seu. Não se pode dizer que é despropósito, embora realmente pareça. É caça. De palavras. De algum olhar até, por que negar? Curioso é que você vê pessoas as mais diferentes. São aspectos físicos absolutamente distintos. Se há peles morenas, também há aquelas brancas na mesma intensidade, se é que está certo dizer assim. Há belos rostos e corpos, como também não há. O predomínio de um ou de outro fica de lado. E não se desconsidere a subjetividade desta questão.


Ao mirar olhos no corpo da mulher que para aqui de costas, desconfia que seu olhar é vigiado pelas três simples moças que simpaticamente atendem às pessoas que compram pequeno objeto para falar à distância. As mulheres, não é o caso de generalizar, têm o costume da vigilância do olhar. Talvez seja um desejo de que os olhos para a outra fossem para si. E não é pelo homem que olha, senão pelo seu próprio ego.



Homens e mulheres que por aqui passam, quase todos, são pessoas simples. Muitos dos quais ao pedir informação deixam gritar o medo do outro, o que hes dificulta o entendimento. E aí, outras inseguranças os fazem repetir as mesmas perguntas na obtenção das mesmas respostas. Isto se dá durante o rápido diálogo entre informante e informado.
Inúmeros habitantes de São Paulo jamais passaram por aqui. Entre eles, pessoas de alto poder aquisitivo que se utilizam de carro próprio ou táxi. Isso é reflexo do subdesenvolvimento do país em tempos passados. Na Europa, as diversas camadas sociais utilizam o transporte público, que é de boa qualidade. O Brasil poderá chegar lá, mas dificilmente em todas as capitais. Se assim o fizer, será sempre em momentos diferentes, o que é normal, dada as desigualdades regionais, contrariando nossa Constituição.



Nas grandes cidades o deslocamento é feito por fluxos, sejam de carros ou pessoas. Daí, você percebe que vez ou outra o corredor se torna lotado. Por alguns minutos diminui o número de usuários. Dá uma acalmada, digamos assim. E depois volta o fluxo forte. Assim, a reclamação daquele senhor de que “eles” esperam encher a plataforma é clara expressão da não compreensão do modo como funciona o deslocamento aqui . O ouvinte não balbuciou palavra alguma. Apenas ouviu e no silêncio manteve escondida sua discordância.
Já que se falou em fluxos, muitas palavras se foram neste texto. De maneira que para ilustrar o que foi dito aqui sobre este assunto será feito um interrompimento. O que significa que palavra alguma será dita por enquanto. Quando o corredor fica vazio. Digamos que seja o último fluxo de palavras do dia. Esperemos a reabertura das portas.



6 comentários:

Melanie Brown disse...
abril 29, 2009  

"O ouvinte não balbuciou palavra alguma. Apenas ouviu e no silêncio manteve escondida sua discordância."

Nesses casos como sempre sou ouvinte, procuro fazer assim, para evitar o fluxo de confusao que nao trará soluçao.

Melanie Brown disse...
abril 30, 2009  

Faltou so o comentario ne?!! rs
Mas fiquei contente por teus passos que me seguem....
Obrigada!

Adriano Melo disse...
abril 30, 2009  

Gostei muito do seu blog, parabéns!

Melanie Brown disse...
maio 04, 2009  

Cultura de qualquer forma é sempre bom!!
Se eu entendi bem, vim agradecer o elogio, mas a foto que esta no post, foi esse ano, solteira e muito feliz!! :)

Obrigada e tenha um ótimo Dia!!!!

Regina Hassum disse...
maio 21, 2009  

Meu querido, como sempre sua percepção é fantática, não é simples literatura é muito mais. Voce que me conhece bem, sabe que a vida é cheia de pretextos, e mais ainda:eu diria que as vezes precisamos criá-los para romper barreiras; que nos memos pomos.E só desta forma conseguimos, romper a barreira do outro. Um abraço Regina Hassum.

Veronica disse...
julho 05, 2009  

Querido Del, acho que nesse caso faz-se desnecessário mais elogios em relação a literatura expressa. Só vim fazer um parênteses e dizer que achei divertido a forma como descreve a reação de uma mulher a olhares não direcionados a ela rsrs
" Ao mirar olhos no corpo da mulher que para aqui de costas, desconfia que seu olhar é vigiado pelas três simples moças que simpaticamente atendem às pessoas que compram pequeno objeto para falar à distância. As mulheres, não é o caso de generalizar, têm o costume da vigilância do olhar. Talvez seja um desejo de que os olhos para a outra fossem para si. E não é pelo homem que olha, senão pelo seu próprio ego."

Bjs

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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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