A conta é do garçom

quinta-feira, abril 02, 2009 ·

“É muito pior do que vocês veem na TV”. O professor de Direito disse isto aos seus alunos ao se referir à realidade do serviço público no Brasil. Daí, a gente abre o jornal e lê mais uma notícia sobre o exagero de diretores em determinada instituição. Feita a leitura, não se vai além da indignação. De qualquer forma, os comandantes das instituições da República sentem-se pressionados pela opinião pública, vide o caso do presidente do Senado, José Sarney, ainda na política.

Está claro que se botarmos a mão mais fundo no saco, encontraremos coisas as mais espantosas. Não quero aqui condenar as pessoas que lá estão. Tudo bem, o poder é absolutamente sedutor e corrompe facilmente. Mas o abraço com a corrupção se dá principalmente pela incerteza da punição. É este um grande elemento impulsionador do crime, seja ele qual for. É aí que reside a mudança necessária.

“O exemplo vem de cima pra baixo”, foi o que disse um irmão filosófico. Com certeza, se lá em cima se faz o que bem entende, está aberta a porteira para se fazer o mesmo nas camadas de inferioridade hierárquica. E não sejamos injustos, as maracutaias se dão também nas vidas privadas. Claro, cada um tem o direito de fazer o que quiser, mas ninguém pode ser eximido das responsabilidades.

Estranho é que se você estuda um pouco de Direito Administrativo aprende que tudo no serviço público deve ser feito dentro da lei. Mas você dorme com a certeza de inúmeras fraudes. A conclusão óbvia é a falta de punição.

Por exemplo, é estranhíssimo que empreiteiras participem de tantas obras super faturadas. E, está claro para todos, diversas empresas deste ramo financiam inúmeros candidatos num claro acordo pré-eleitoral que descamba em dinheiro público para seus cofres acima dos valores reais. E o que é mais esquisito: não se vê punição.

Na semana que passou, mais um operação da Polícia Federal. Executivos da Camargo Corrêa, juntamente com políticos de diversos partidos, teriam armado um esquema de desvio de verba pública, lavagem de dinheiro, caixa-dois, e acho que só isso, o que não é pouco. Chato é a certeza que se guarda de que os engravatados da empreiteira, acusados de conluio com homens da política, não serão punidos. O leitor talvez até dê de ombros. Já se acostumou com escândalos e impunidade.

O que também é estarrecedor é que a empreiteira em questão seguirá sua vida normalmente, mesmo com todos os fatos comprovados. Isso significa vê-la em diversas outras licitações. E não nos assustemos se algumas carregarem vícios de irregularidades. E, não sejamos inocentes, se isto vier a acontecer, não está nada garantido que ficaremos sabendo.

Agora, imaginemos uma festa dita de fino trato. Não usemos de inveja. Façamos apenas um exercício de imaginação. Nela, senhores que não se cansam de assaltar cofres públicos. Pessoas de diferentes atividades econômicas. Entre elas, o silêncio da opinião. São sabedoras de que ali é um ambiente de gente que se considera acima da lei. Não sabem ao certo os golpes que cada um deu. Apenas guardam a tranquila informação de que todos ali são iguais. Bebidas finas. Pratos caríssimos. Serviçais tidos como gente que nasceu para servir e nada mais. Aquele simples garçom que completa a taça de um daqueles “doutores” serve a bebida que saiu do seu próprio bolso. Amanhã seu filho irá à escola pública que não está garantido se vai lhe assegurar futuro promissor. O prédio, os professores, a merenda, tudo poderia ser melhor, não fossem a champagne e caviar que os doutores de inúmeras festas necessitam. E se a Polícia Federal invadir seus escritórios na manhã seguinte, muita gente vai dizer que é pirotecnia, exagero. De certo, preferem que os “doutores” possam ir a mais festas regadas de inúmeros futuros comprometidos pelo desvio de dinheiro público.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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