Caçador de textos

sexta-feira, abril 17, 2009 ·

Ali, urbanamente sentado, pelos túneis que o trem percorria sob asfalto. Não poderia alguém naquele mesmo espaço imaginar que o indivíduo ali caçava textos enquanto observava. Se a distância do destino para o qual se dirigia era subtraída a cada estação, o mesmo se dava com a semana a cada dia. O que significava que ao término da soma de sete dias, não teria ele nada escrito. Negar incômodo seria falta não grave com a verdade.
Daí foi que percebeu que a caça, a busca, o prazo escasseando, mais fatores não percebidos, eram o próprio tema o qual poderia se utilizar para escrever, quem sabe, algo a contento. Algum fato, talvez, pudesse ocorrer que o ajudasse. Mas aquele que escreve e se diz sem assunto é, pois, que se fecha. Os fatos estão nos detalhes. Gritam ou se calam, ou mesmo no silêncio dizem muito. Vai de como se observa.
Curioso, é que no local onde, agora, se dá essa construção literária, tem-se um vai-e-vem frenético de pessoas que utilizam transporte público para sua locomoção. As cenas se dão na Estação do Metrô da Luz. Daqui vai trem para diversas distâncias. A Luz é bairro do centro de São Paulo. É local ambíguo, feito de belezas e não belezas. Mas daí também vai do ponto de vista. O espaço que compreende esta estação é vasto. Àquele que escreve, cabe-lhe ao alcance dos seus olhos pequeno fragmento, o que significa estar alheio a quase todos os movimentos de corpos, bem como aos acontecimentos que agora ocorrem. Se se pensa nas simultaneidades que se dão em todos os locais do planeta, obtém leve flerte com poesia. No ato de agora em que senhora compra cartão telefônico para se comunicar em hora necessária ou não, repete-se o mesmo ato em outros cantos, seja desta cidade, ou de outras pelo Brasil ou qualquer país que seja, desconsiderando aquelas em que as pessoas dormem, descansam, se refugiam. Vale até a indagação se todos teem acesso à telefonia bem desenvolvida. Pode parecer absurdo tal dúvida, mas este mundo é estranho, bastante desigual.
O texto poderia terminar com a repetição de um parágrafo e citar ato igual feito por outra pessoa, que é a compra de pequeno quadrado de plástico que lhe permitirá falar com outrem à distância. Apenas para ilustrar que a vida é também uma sucessão de repetições, um constante deja vu.
Não é desejado de fato terminar o texto. Como aquele que adoece e que mesmo em frágil situação que lhe trás lastimável condição, persiste nele o desejo em prosseguir. Mas chega o momento que não se segue mais adiante.



0 comentários:

Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br