Dias de cozimento

domingo, março 22, 2009 · 2 comentários


Você olha por aí e pouco enxerga o outro. Cada um feito ilha, o jeito é disfarçar as emoções e fingir contentamento para aquele que você acredita ser um oponente. Mas claro, nem sempre é assim. E nem todos são assim.


Ali, sentado à janela do veículo que o leva, olha para o nada e é o que há de melhor para ser visto naquele momento. Mas foi em outra ocasião que se lembrou da frase daquela moça: “A vida está me cozinhando feito batata”. Parece que foi mais ou menos isto que ela disse. E concordou com ele que a lembrou do tempo que passa. O papo virtual não prosseguiu. Mas ele ficou com a frase carimbada em sua memória. De certa forma se via um pouco nela. Vai ver que parte da vida é feita apenas de cozimento.


Claro, no mundo ninguém está sozinho em suas emoções. Pelos diversos cantos pessoas passam por problemas parecidos. Fiquemos com os relacionados às emoções. Se você caminha triste e cabisbaixo, no mesmo momento outro ser humano segue de modo igual, diferenciando-se apenas pela intensidade. Fiquemos com o macro, que é essa tristeza. E isso, de certa forma, carrega consigo algo muito positivo. Em queda, você poderá se tornar alguém mais compreensivo. Daí, suas raivas e indignações com os outros se calarão, ou assim poderá ocorrer. Você se vê com o humor nada bom e se lembra de quando reclamou da pessoa que, alterada, lhe destratou. Indignado, colocou o outro na cruz. Mas hoje, quando esta mesma cruz foi passada para você, percebe que é melhor entender seu semelhante, assim poderá entender a si.


Não queria falar com ninguém. Fizera opção pela solidão em público. No ônibus, preferiu fingir não ter visto a colega. Só mesmo com muito bom humor para ter palavras com ela. Desceu onde planejara. Adentrou ao local em que buscava algum momento de prazer. Caminhou lentamente. Desceu rampa. Transpôs catraca. Despiu-se e vestiu pequena peça adequada. Entrou na piscina. Observou com olhar melancólico. Não se demorou muito e saiu daquela água. Não fizera sol como desejara. Banhou-se e vestiu-se novamente. Seguiu para a chamada comedoria. Pediu almoço, que se dividiu em dois pratos. O apetite se foi tão rápido quanto veio à decepção com o sabor do seu pedido. Tomou um café que também não lhe apeteceu como de outras vezes. De certo, nada daria o prazer esperado, sua alma não era a mesma de antes.


Era ele alguém feito alguns tantos outros pelo mundo. Era cozido pelo passar das horas que lhe pareciam sem graça. Mas a vida de adulto é assim, não é sempre que se sente aquele prazer, aquele viver gostoso. Faz parte, aprende-se com o tempo. De qualquer forma, aceitar os momentos assim é tarefa muito difícil. Somente estando sereno é que se conseguirá centrar-se e aquietar a alma, do contrário a temperatura dentro de si vai subir e você irá reclamar desse dia que passa e você com a alma dilacerada pelo calor do cozimento.



opiniões opiniones opinition


Nunca imaginei que um breve papo virtual pudesse render tanto, a crônica ficou ótima e olhando hoje por outro lado fico pensando como somos seres humanos bobos, ficamos inertes neste "cozer" da vida, mas pensando bem será que a vida não está nos cozinhando, nos preparando para algo melhor??? Se observarmos bem, as batatas ficam horas cozinhando no fogo para se transformarem em algo extremamente rico de sabor - e nós no que será que a vida vai nos transformar??? Num Baked Potato com muito requeijão e Bacon??? Rsrsrsrs....., beijos precisamos conversar mais!!!


<!--[if !supportEmptyParas]-->Elizangela Guedes, SP




Mudar é preciso

segunda-feira, março 16, 2009 · 1 comentários

Mudar é preciso. Reinventar-se é imprescindível. Construir um novo você é tarefa para a vida que segue, que é sua, que termina. O blog, tendo o ser humano como pretexto maior, finge humanidade e segue o preceito da autorevolução. Não apenas o conteúdo já sofreu alteração neste ano que se mostra ingrato para o mundo, como agora passa a ter um novo visual, com cores distintas da versão anterior, o que lhe confere mais sobriedade.


Façamos uma analogia com o ser humano. Não basta, sabemos disto, muitos de nós, mudar apenas por fora, a estética. É saudável fazê-lo para melhor. Mas, como já foi dito em outro texto, no kit-beleza entram também aspectos internos, os quais são imprescindíveis para a sustentação estética.


Algumas vezes ouve a pergunta sobre o que mais gosta em uma mulher. Jamais lhe é possível responder apenas um item. Não vê possibilidades de fragmentar uma mulher e abrir mão de diversos detalhes, bem como aspectos interiores. Daí, é acusado de ser exigente como se isso fosse um defeito.


Faz tempo o blog deseja mudança em seu layout. Foi com ajuda do fotógrafo Márcio Neves (http://blog.alemdoolhar.com/ ) que se chegou a este novo visual. De maneira que ficam aqui os agradecimentos a este que se coloca como mais um parceiro do Opiniões & Crônicas. Neste que é o quarto ano do blog, espera-se que textos sejam publicados, sempre primando pela boa qualidade literária, bem como o uso devido das emoções de modo sincero. Este sincero blog produz identificações. Retrata um pouco desta cidade que é São Paulo. Mas seu pretexto maior vocês já conhecem bem.



Cotidiano fatiado

sexta-feira, março 06, 2009 · 2 comentários

Abriu documento do Word para tecer palavras que fossem, há tempos não fazia isto. Calculou que necessitaria de lembranças de fatos ocorridos num cotidiano fatiado. A ordem não precisou bem, pouco importaria. Daí então, a imagem do menino deitado sobre calçada em pleno centro de São Paulo teria sido a escolhida. Sem saber por que, a desistência por reflexão qualquer foi imediata. Deixou surgir novo fato, e deu-se a recordação da pequena briga dentro do vagão de metrô, talvez no mesmo dia do descanso do menino de rua com corpo horizontalmente em meio ao vai e vem de tantas pessoas apressadas, devidamente atrasadas.
Uma pequena reclamação. Um empurrão. A devolução dos atos de agressão. Palavras um contra o outro. Até entrar em cena vocabulária as respectivas mães. O limite parece ter sido o convite para descer na estação seguinte e ali resolver a contento a desavença. Mas no meio de tantos olhares, pessoas pediram calma. Mulheres fizeram o discurso do equívoco, argumentando prováveis idades de cada lado, até que jovem rapaz, de forma muito serena, apartou a briga, e um possível aborrecimento ainda maior para a dupla exaltada ficou de lado. Na sequência da busca por outras questões que pudessem ser discorridas no ato da escrita, a opção pelo trajeto feito da mesma estação onde se daria o enfretamento corpóreo, evitado com habilidade pelo jovem não descrito. No mesmo café de outro dia, a retirada do pedido já não foi com a mesma rapidez. E, em verdade, não o foi em todos os outros dias. Talvez aquela primeira vez tenha sido mera exceção. O fato é que percebeu que tudo ali não parecia funcionar como queria possível dono do estabelecimento , senhor português bastante cortêz com os clientes. Fez o pedido, mas não deixou claro que o café com leite deveria ser na xícara e feito com café espresso. Veio o pão de queijo e a bebida quente em copinho de vidro simples que não lhe agrada muito. Mas a prioridade ali era a fome, não tanto o glamour. Consumiu e observou lá fora, quando surge outra cena à sua mente. Indagou-se sem maldade por que aquele morador de rua esperava que o relógio mudasse a informação da temperatura para as horas. Talvez tivesse sido um pouco irônico com a realidade daquele que já vistoriara o lixo em busca do que fosse. Após a informação que precisava no grande painel, muito útil para todos, inclusive para aquele pobre homem,o mesmo seguiu rumo ou falta deste. Do balcão para o caixa, pagou com cartão de débito e traçou o trecho final para chegar ao destino em horário adequado. De repente, declina dessa sequência de cenas e espera que outra qualquer invada sua mente sem pedir licença alguma. Lembra-se da bela colega, com delicioso perfume, que adentrara à sala sua, demonstrando bastante insegurança, o que o fez falar pouco, sobretudo perguntar muito pouco, para não perturbá-la. Admirou resquícios de sua beleza que por ora se escondia, pode-se dizer se descaracterizava, pelas emoções que sabia vinham de dias passados, motivos os quais não tinha informação precisa, embora até desconfiasse, sem guardar consigo certeza alguma. Toca o celular e o que se dá é anterior à bela moça das emoções e pernas abundantes. Não passara pelo bloqueio do metrô e se virou do jeito que deu para atender à chamada. Do outro lado, voz feminina que indagou lembrança por parte dele, que não se recordou da voz, embora o agradasse e atraísse. Após a verificação de quem se tratava, demonstrou certa simpatia que não poderia ser confundida com contentamento. E aí vieram lembranças em alcova e indagou-se a possibilidade de se repetir os atos que naquele tarde o fizeram esquecer lá fora. As horas se passaram e esqueceu-se do telefonema. Calculou que ela não ligaria mais e, embora acreditasse ser de bom tom retornar a ligação, optou pelo silêncio no entendimento de que assim ficaria claro seu não desejo em ter com ela palavras as mais banais que fossem. Muitas vezes uma recordação remete a outra. E então, no preciso momento da criação dessa linha, precisou na memória o primeiro encontro com ela. Não deu atenção à sua percepção e fingiu não ver tamanha insatisfação demonstrada por ela em simples olhar, bem como em trejeito deselegante do corpo. Foi preciso que os dias se passassem e ela confessasse fingimento de felicidade, o que muito o surpreendeu talento dela, embora fingir sempre é absolutamente impossível. Quem cerrou os olhos da percepção foi ele, que não pagou pelo espetáculo da felicidade inventada. Veio algum cansaço e acreditou que poderia parar por ali. Sentar dedos sobre a mesa e descansá-los. Calar as rememorações e acreditar contentamento no texto findo.



opiniões opiniones opinition


Ótimo texto!
Pedro Antônio - A TORRE MÁGICA - www.atorremagica.blogspot.com



Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br